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Tardes ensolaradas na Juréia

Depois do barranco, o mar da Juréia... (Vila do Prelado).
Sentado gostosamente em minha espreguiçadeira, estrategicamente colocada no barranco que domina a praia, deixo-me ficar olhando, distante e reflexivo, para o mar da Juréia, que já começa a encher e tenta, sem muito êxito, ganhar as dunas do nhundu onde, livro à mão, me encontro a cismar. Percebo que o mar hoje está um pouco escuro, bem diferente do azul cintilante da outra vez em que me pus a admirá-lo. Creio que as fortes chuvas que caíram há pouco – intensas, mas não o suficiente para aplacarem o reinado do calor soberano – tenham contribuído com sua parte para torná-lo dessa coloração. Claro ou escuro, a verdade é que o mar sempre conserva seu fascínio e sutileza que, ainda encostado em minha espreguiçadeira a desfrutar os merecidos momentos semanais de descanso, tanto me encantam ao contemplá-lo.
A brisa do leste me espalha os cabelos e me enche o corpo todo de minúsculos grãos de areia: é presença constante neste belo cenário emoldurado como uma tela renascentista. Somente a brisa, com sua constância e providência, para amenizar os dias açoitados pelo sol inclemente. Os matos do nhundu, os enormes abricoteiros copados carregadinhos de frutos ainda verdes, tremulam suas folhas e parecem agradecer a fresca tão agradável, que os livra do sol causticante, sempre a emitir seus raios implacáveis como se todos fossem obrigados a recebê-los submissos. (O que seriam dessas tardes calorentas sem a presença da brisa suave e refrescante, que esvoaça os grãos de areia e faz agitar a vegetação rasteira do nhundu?)
O céu esta sereno. O azul arde na vista: azul que o mar hoje não quis refletir. Algumas nuvens, incrivelmente brancas, vão lentamente se movendo sabe Deus para onde, empurradas pelo vento amigo e incansável. É neste momento, agora menos distante e mais reflexivo, que, olhando para o mar bem ali à minha frente, e sentindo a brisa que faz tremular a vegetação em volta do meu barranco, bem aqui, sob a sombra generosa do fiel abricoteiro, guardião absoluto deste trecho de nhundu – agora mais do que nunca percebo o quanto é impressionante a harmonia existente entre todos os elementos, que parecem explodir na Juréia. É fascinante o quanto eles se fundem, aprisionados no quadro maravilhoso que se nos oferece, pincelado sabe-se lá por que mãos misteriosas.
A brisa ainda acaricia o meu rosto. A tarde me abraça e o mar ainda insiste em se aproximar de mim, pretendendo em vão invadir a privacidade do meu nhundu inexpugnável. Com os olhos semi-abertos, e um sorriso farto estampado ao rosto, fico olhando para esse belo mar que me extasia a vista e agradeço a fresca da brisa companheira. São meus íntimos amigos, com os quais compartilho os momentos únicos propiciados por uma tarde ensolarada. Uma tarde na Juréia.
(Crônica publicada originalmente em “A Tribuna do Ribeira”, de 28-1-1992).
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______________________________AO CORRER DA PENA____________________________
Centenário da Imigração
Comentei semana passada sobre o desconhecimento nacional acerca do pioneirismo do Vale do Ribeira no processo de colonização nipônica em nosso país. Nem mesmo o título de “Berço da Colonização Japonesa no Brasil” conseguiu despertar o interesse nacional para a nossa região, onde, em 1913, foi fundada, no Jipovura, a primeira colônia desses imigrantes. Geralmente, todas as matérias sobre o tema começam com a chegada do Kasato Maru, no porto de Santos, em 1908, e “pulam” para outras regiões do Estado e do Brasil.
É inaceitável que os grandes veículos da mídia impressa e televisiva nada tenham comentado sobre a imigração japonesa no Vale do Ribeira. Fico me perguntando qual seria o motivo desse “esquecimento”. Será que a nossa região só merece destaque na mídia por ocasião das grandes enchentes, que periodicamente nos castigam? Ora, se nem a Festa do Bom Jesus merece destaque nos grandes meios de comunicação! Ou os eventos “Revelando Vale do Ribeira” e “Festa das Nações”!
Em Iguape, na Praça Colônia Katsura, criada em 2003 por ocasião do 90º aniversário da fundação do Jipovura, foi solenemente inaugurado, no dia 18 de junho último, um belo Tori, com uma placa alusiva à data do centenário da imigração japonesa no Brasil. Não deixa de ser uma importante lembrança, que fica de exemplo aos pósteros.
Rodovia das Crateras
A “Folha de S. Paulo”, de 16 de junho, publicou destacada matéria sobre o grande número de crateras (algumas lunares, outras jupiterianas) que tomam conta de toda a extensão da Rodovia Régis Bittencourt, antigamente conhecida como Rodovia da Morte, e atualmente chamada de Rodovia das Crateras. A concessionária OHL diz que, até agosto, serão efetuados os “reparos básicos” (leia-se “tapa-buracos”), a reposição de placas e que “a Régis só precisa obrigatoriamente ter pavimentação equivalente às boas rodovias de SP em cinco anos”. Ou seja, até lá, essa abandonada rodovia, uma das principais artérias do país, continuará subtraindo vidas.
“Esfinge”
“Interroguei o céu em noite constelada,/ O fulgor opalino à lua alvinitente.../ Interroguei da estrela o brilho refulgente,/ O prado esmeraldino, e a rocha acantilada!// Interroguei a flor, de orvalho rorejada,/ Do pirilampo, a auréola azul fosforescente;/ Interroguei do sol o foco incandescente,/ O vesperal crepúsculo, e os risos d´alvorada.// Depois, interroguei – de um crente o misticismo,/ A placidez de um lago, as atrações do abismo,/ E tudo o mais quanto o pensamento atinge!// Tudo me respondeu! no entanto, que surpresa!/ A mulher – o primor de toda a natureza –/ Debalde a interroguei... foi muda como a esfinge!”
(Soneto de Leite de Magalhães, in “Versos Dispersos”, 1909).
Escrito por Roberto Fortes às 22h48
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AO CORRER DA PENA...

Centenário da Imigração
No próximo dia 18 de junho transcorrerá o centenário da imigração japonesa em nosso país. Comemorações, homenagens, monumentos e outras solenidades foram e serão feitas, em todo o Brasil, ao longo deste ano. Curiosamente, os primórdios da colonização japonesa são pouquíssimos conhecidos, e quase nenhuma linha é escrita sobre a primeira colônia fundada em Jipovura, em Iguape, aqui no Vale do Ribeira. As matérias que enfocam a imigração japonesa invariavelmente começam com a chegada do navio Kasato Maru, que atracou no porto de Santos em 18 de junho de 1908, e “pulam” para o período em que os colonos japoneses se estabeleceram em outras regiões do Estado de São Paulo e do país.
Nem mesmo os títulos de “Berço da Colonização Japonesa no Brasil”, conferido a Iguape, e o de “Marco”, a Registro, trouxeram ao conhecimento geral que tudo começou em Jipovura. Senão, basta lermos a trilogia que a conceituada revista História Viva dedicou ao tema, sob o título “Japão – 500 anos de história – 100 anos de imigração”. No terceiro fascículo dessa coleção, sob o título “A saga da imigração”, consta, logo nas primeiras páginas, uma foto que leva a legenda: “imigrantes japoneses na região de Iguape, na década de 20”. E ficou só nisso. Nenhuma palavra sobre Jipovura. Nada também sobre Registro. E muito menos sobre Sete Barras, as três colônias pioneiras que formavam o núcleo pioneiro de Iguape.
Muito já se escreveu que o Vale do Ribeira ficou à margem do “império do café”. Parece que a nossa história pouca interessa àqueles que se propõem a escrever a história de nosso país. Nem o Bacharel de Cananéia, fundador dos primeiros núcleos habitacionais – Cananéia, Iguape e São Vicente – merece destaque nos livros de história pátria.
A despeito dos “esquecimentos” de nossa história, aproveito o ensejo para felicitar a colônia japonesa do Vale do Ribeira pela passagem dessa data tão importante, que simboliza a luta de seus antepassados, e também de seus descendentes, para a construção de um Brasil melhor. Banzai!
Asfalto da Barra
Em esclarecimento à nota publicada semana passada nesta coluna sobre o tão esperado asfalto da Estrada da Barra do Ribeira, em Iguape, a jornalista Sueli Correa, assessora de comunicação do deputado estadual Samuel Moreira, enviou-me o seguinte e-mail:
“Com relação à nota “Asfalto da Barra”, publicada na coluna Alfarrábios, edição de 6 de junho, quero fazer alguns esclarecimentos. O primeiro deles é que desde que assumiu o mandato o deputado Samuel Moreira tem lutado para a pavimentação da estrada de Icapara/Barra do Ribeira por considerá-la, como você considera, importante para o desenvolvimento turístico desta região.
“Em agosto do ano passado, o deputado visitou Icapara e Barra do Ribeira, reuniu-se com lideranças locais e informou que já estava reivindicando a obra junto ao governo do Estado, notícia que foi amplamente divulgada na região.
“No dia 27 de maio, o Diário Oficial do Estado publicou o aviso de licitação para essa obra e as empresas interessadas terão até 27 de junho para apresentar as propostas.
“A realização da obra independe do período eleitoral pois será feita com recursos do governo do Estado. E certamente no próximo verão os turistas, e nós todos que amamos aquele lindo trecho do litoral paulista, teremos um acesso muito mais tranquilo à Icapara e à Barra do Ribeira. Um grande abraço,de sua leitora e amiga Sueli Correa.”
E o vento (leste) levou
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“Houve um tempo em que Iguape foi o centro econômico de uma grande parte do Vale do Ribeira. Registro, Eldorado, Miracatu, etc, todas essas cidades dependiam de Iguape, porque aqui estava o porto por onde escoavam seus produtos: arroz, banana, chá. Além do mais, a própria cidade passou a produzir peixe seco e em conserva (o prédio da Pirá é um símbolo da época), esteiras, palmito, etc. Quando tudo isso chegou ao fim, pela abertura de estradas que substituíram a navegação, Iguape ainda se conservou firme, com o turismo, na Ilha Comprida.
“Agora tudo isso acabou. Ficamos com o turismo da Barra da Ribeira e, com o cada vez mais ralo, turismo religioso. Nessa situação, a pobreza se agravou, na cidade. As três mil famílias ajudadas pelo programa das “bolsas” são um dos mais tristes sinais dessa situação. Mas há outros indicadores. Um deles, que pode passar despercebido, é o da TV por assinatura. Iguape tem por volta de 300 assinantes de um desses canais pagos. A Ilha Comprida, com menos de um terço de habitantes, já está quase chegando a esse número, nesse item. Pariqüera-Açu tem 2.000 assinantes; Cananéia que, antigamente, era motivo de gozação do iguapense, tem 3.000.” (http://beneditomachado.zip.net)
“BR-116”
“Negro asfalto, como lúgubre é o destino,/ És tu, perdulária da dor, sucursal da morte./ Destemível a porfiar a própria sorte,/ De quem por ti transita – trágico desatino.// Ah! Fosse tu ao menos duplicada, talvez.../ Redimirias a dor causada por inteira,/ Ao angustiado, pobre Vale do Ribeira,/ Por ti, iníqua BR-116.// Som surdo! – um grito ecoa no espaço./ Tétrica cena! – pequeno corpo que se bate./ Seres retalhados, com seus membros em pedaços.// Mais um acidente! – mas isto pouco importa,/ E o negro asfalto, torna-se escarlate,/ Com o sangue que escorre da criança morta...” (Soneto de J. S. Xavier, poeta registrense).
(JORNAL REGIONAL, nº 778, de 13-6-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 21h40
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Asfalto da Barra
Todos sabem que não se pode falar em turismo iguapense sem que exista uma estrada asfaltada para se atingir o principal recanto do município: a Juréia, que compreende, por abrangência, Icapara, Barra do Ribeira e o santuário da Juréia propriamente dito. O asfalto completo virou promessa de vários políticos, e ficou somente na promessa. Pequenos trechos foram executados a conta-gotas. Falta asfaltar a parte concretada, tapar os buracos e asfaltar o trecho Icapara-Barra. A esse respeito, a Associação Comercial de Iguape enviou ofício ao deputado Samuel Moreira cobrando uma posição sobre a tão falada verba para o asfalto da Estrada da Barra do Ribeira.
Nesta semana, uma equipe da Aciguape tentou chegar até a Barra, mas voltou no meio do caminho, pois a estrada está repleta de buracos, uns emendados nos outros. Existe um verdadeiro clamor no comércio local para que se conclua o citado asfaltamento. Dizem que o processo se encontra em fase de licitação. Caso essa verba não seja aprovada neste mês, depois dificilmente será liberada, pois entraremos em época eleitoral. Prefeitura e Câmara deveriam se empenhar na cobrança desse asfalto, pois é o desejo da população iguapense.
Dia do Meio Ambiente
No dia 5 de junho comemora-se o Dia Mundial do Meio Ambiente. Pouco há o que comemorar nesta data. Planetariamente há o aquecimento global; escassez de água em algumas regiões do globo; poluição das terras e das águas por lixo; poluição atmosférica por produtos tóxicos; radiatividade potencial; armamentos destrutivos, desmatamentos, etc. Para as nossas proximidades de moradia não é diferente. Há o problema da destinação do lixo domiciliar; pesca predatória; perseguições e caçadas aos animais silvestres; desmatamentos, movimentação de terra em área de proteção ambiental; escavações e retiradas de dunas das praias; maltrato aos animais nas cidades; podas mutiladoras de árvores dos logradouros públicos; precariedade de saneamento em alguns locais, etc. Pode ser que um dia, quando a educação chegar plenamente a todas as pessoas, a situação se modifique e haja consciência a respeito da defesa do meio ambiente. Por enquanto, estamos atravessando trevas nesse sentido, a despeito dos esforços de alguns.
Sobrado dos Toledos
Apesar dos reclamos da população iguapense, externados em nossas colunas, parece que o Sobrado dos Toledos, principal representante arquitetônico do Ciclo do Arroz de Iguape, está fadado a ter o mesmo fim que o Correio Velho, ou seja, o tombamento literal. Será que a Prefeitura Municipal não percebe que o Sobrado dos Toledos pode desabar a qualquer momento? Que desabando poderá matar algum transeunte desprecavido que passe pela rua? Que, com o desabamento, perderemos não apenas sua fachada neoclássica, mas também seus dois Leões e a América, que encantaram o viajante alemão Roberto Avé-Lallemant, que por aqui passou em 1858? Que, em sendo imóvel tombado, terá que prestar contas ao Ministério Público? Fala-se muito em patrimônio histórico local. Enquanto isso, o mais importante imóvel histórico da cidade continua completamente abandonado.
Conselho do Patrimônio
E já que estamos falando em patrimônio histórico, é opinião geral que deve ser empossado, sem mais tardança, o Conselho do Patrimônio Histórico, que até agora não saiu do papel. Não adianta apenas uma rapaziada esforçada e dedicada restaurar as fachadas de vários imóveis históricos, enquanto outros imóveis continuam sendo dilapidados, já que a Lei de Tombamento, aprovada há mais de ano, também não saiu do papel. Depois que cair, vai ser difícil restaurar!
Rodovia da Morte
Segundo o que comentam algumas pessoas que se atrevem a viajar na Rodovia das Crateras Lunares, outrora conhecida como Régis Bitencourt – BR-116, a companhia OHL, que a assumiu neste início de ano, vem fazendo tímidos reparos na pista no que se trata de tapagem de buracos enormes. Está um pouco melhor, mas há muito o que fazer antes da cobrança do pedágio. Tapam um pouco de crateras e deixam ao lado outros buracos que logo se transformarão em outras tantas. É melhor pagar pedágio e ter pista arrumada, do que continuar na situação de abandono em que se encontra esse carreador. Como pode prosperar uma região localizada no meio de uma rodovia imprestável e que põe medo de viajar em muita gente?
Cadê a água?
O prezado leitor já ouviu falar em fonte sem água? Não? Pois então é só dar uma passada na histórica Fonte do Senhor, onde a imagem do Senhor Bom Jesus de Iguape foi lavada, em 1647. Segundo denúncia, moradores das imediações estariam desviando a água dos mananciais da fonte, fazendo “gatos” para seu uso doméstico. Se essa denúncia de fato proceder, a Prefeitura de Iguape precisa averiguar e, constatada a irregularidade, tomar as providências necessárias, pois a água da Fonte do Senhor é patrimônio não apenas dos iguapenses, mas também daqueles que vêm de outras plagas em romaria ao Bom Jesus. Voltarei ao assunto.
Sorteios das Loterias
Nos dias 16, 17 e 17 de junho, Iguape, pela primeira vez em sua história, será a sede dos sorteios das Loterias da Caixa, que serão realizados na Praça da Basílica. Esses sorteios prometem movimentar a cidade.
(JORNAL REGIONAL, nº 777, de 6-6-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 22h22
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Caipira picando fumo (1893), de Almeida Júnior.
Ainda Jeca Tatu
Semana passada, escrevi sobre a criação de Jeca Tatu e a viagem de seu autor, Monteiro Lobato, a Iguape, em maio de 1918. Em sua crítica à saúde pública, Lobato foi correto, pois se baseou nos dados fornecidos por Arthur Neiva, que viera a Iguape trabalhar no combate à ancilostomose e outras doenças. Agora, vamos admitir, o desassossegado escritor, comparando Iguape ao Brasil, destilou contra a terra do Bom Jesus toda a sua insatisfação, voltada, em essência, a Pindorama. Em alguns pontos, foi demolidor e, no dizer de Paulo Moutinho (1895-1919), mesquinho. Tudo porque, segundo o Major Mingute (1880-1956), não fora recepcionado como achava que merecia...
No curto período em que permaneceu em Iguape, Lobato ficou hospedado no Grande Hotel do Commercio, que pertencia a Manoel Lino Alves Vieira. A esse respeito, escreveu o escritor iguapense Paulo de Avelar (1916-1995), em seu livro de memórias “Iguape de Outrora” (1988): “Segundo ouvi dos antigos, [Monteiro Lobato] hospedou-se no Hotel do Comércio, no Largo da Matriz. Deve ter sentado no grande banco de madeira que havia na frente do hotel e deve ter se enlevado vendo as meninas brincarem de roda e os meninos jogarem futebol, na hora do pôr do sol, quando o sino principal da Igreja do Bom Jesus dava seis vibrantes e sonoras badaladas anunciando a Ave Maria”.
O próprio título de seu primeiro livro, “Urupês”, foi sugerido por Arthur Neiva, quando estavam hospedado no hotel de Iguape, conforme Lobato admite: “E os contos já estavam na tipografia sem que eu acertasse no título. Foi quando Arthur Neiva resolveu o problema. Eu fora com ele a Iguape e lá no hotel, caindo a conversa sobre o futuro livro, confessei a minha incapacidade nominativa. `Por que não adota o nome “Urupês”, tão sonoro? Inclua entre os contos o artigo “Urupês” e pronto`. E foi o que fiz”.
Tucano de Ouro
O músico Antônio de Lara Mendes, de Juquiá, é um dos fundadores do grupo cultural Batucajé, que vem divulgando o Vale do Ribeira através de inúmeros shows realizados em várias partes do Estado de São Paulo. Uma das músicas mais requisitadas do grupo é “Tucano de Ouro”, que Lara, também compositor, escreveu baseado num conto de igual nome, de minha autoria, publicado aqui na Alfarrábios, em 2001. Eis a bela e inspirada letra:
“Tem um tucano dourado, lá na serra da Juréia/ “Minha nossa, companheiro, é conversa ou coisa séria?”/ “É um pássaro encantado”, conta a menina donzela/ Há um moço enamorado, querendo casar com ela./ “Virgem nossa”, coisa estranha, o amor é flor do encanto/ Bate e o coração afrouxa, papagaio cara-roxa/ Pois lá contam tantas lendas e histórias de amor/ Será que é mesmo verdade ou é prosa de pescador!// Refrão: “É de sete em sete anos, após sete primaveras/ Dedo de Deus no Itatins, voa pro alto da serra/ Quem viu o tucano dourado, jura que é mesmo verdade/ Sete anos de alegrias, anos de felicidades.”// Que a magia caiçara, possa tudo preservar/ Rios, matas e cascatas e os peixinhos do mar/ E a corrida imobiliária, de insanos sonhadores/ Ao caiçara não seduz, destruir o santuário/ Onde acharam o Bom Jesus./ Fora as imobiliárias, deixem tudo em seu lugar/ Não queremos condomínios, nem usina nuclear.// Refrão: “É de sete em sete anos....”
Combate à corrupção
Ribeirão Bonito é uma pacata cidadezinha do interior paulista. A tranquilidade do lugar só era abalada por um fator: a corrupção endêmica que vicejava na Prefeitura Municipal. Indignados com essa situação, um grupo de amigos resolveu fundar uma associação para lutar contra esse descalabro: os Amigos Associados de Ribeirão Bonito (Amarribo). Isso foi em 2001. Começaram a mobilizar a população. Investigaram o modus operandi da quadrilha que infelicitava toda uma população. Fizeram reuniões, promoveram debates, abriram os olhos do povo. Ações civis foram impetradas junto ao Ministério Público. Não deu outra: um ano depois o prefeito foi obrigado a renunciar – e fugiu, para evitar a prisão preventiva. Essa experiência pioneira resultou no livro “O Combate à corrupção nas prefeituras do Brasil”. Maiores informações poderão ser obtidas no site: www.amarribo.org.br. Quando a população se conscientiza de sua cidadania e participa dos problemas municipais, os políticos corruptos pensam duas vezes antes de dilapidar a coisa pública.
História de Juquiá
Hermann Wolpert nasceu em Miracatu, mas reside atualmente em Juquiá. E foi por essa bela e pacata cidade que Wolpert se encantou e decidiu reconstituir a sua história. Boa parte de seu exaustivo trabalho de pesquisa pode ser acessado no site: http://historiadejuquia.tripod.com. Com seu estilo simples e direto, Wolpert narra em detalhes a história de um povo, cuja primeira capela foi erguida sob o comando do padre João Crisóstomo de Oliveira Salgado Bueno, aquele que foi o primeiro deputado federal pelo Vale do Ribeira, lá pelos idos de 1829-1830. Apesar de ainda não concluído e estar sempre sujeito a atualizações, o leitor terá acesso a um amplo painel histórico da antiga Freguesia de Santo Antônio do Juquiá.
“Ulisses”
Quando tinha meus vinte anos, comprei numa banca de jornais Ulisses, de James Joyce, na tradução sisuda de Antônio Houaiss. Nunca consegui passar da terceira página. Por várias vezes, encetei a malograda missão de digerir esse indigesto romance, que já deixou muita gente abilolada. Agora recentemente, comprei a nova tradução portuguesa, desta feita a cargo de Bernardina Pinheiro, que, dizem os críticos, conseguiu captar melhor o estilo joyceano. Tentei por várias vezes a leitura, e também não consegui passar da terceira página. Dizem que outro tradutor brasileiro lançará em breve a terceira tradução do livro. Estou esperando com ansiedade. Talvez eu consiga pelo menos chegar até a quarta página.
(JORNAL REGIONAL, nº 776, de 30-5-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 22h44
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JECA TATU: UM COMENTÁRIO
A respeito de "Jeca Tatu", que publiquei na coluna passada, recebi do amigo e assíduo leitor Wilson Almeida Lima o seguinte comentário:
Caro amigo Roberto, está aí, depois do enigma Machado-Georgiana-Alencar, digo, Bentinho-Capitu-Escobar, a história da passagem de (José Renato) Monteiro Lobato (1882-1948) por Iguape em 1918 é uma das mais intrigantes e maiores curiosidades que também carrego. Valeria uma tese. Há tempos, lendo “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” (Editora Senac), painel biográfico amplo e tido por completo do autor de “Urupês”, fruto de muitas pesquisas (arquivo da família, inéditos etc), chama atenção a ausência de Iguape. É como se Iguape tivesse sido (propositadamente?) apagada da vida, obra e até memória de Lobato. Da mesma forma, nada se encontra na obra do meu dileto amigo Cassiano Nunes, santista radicado em Brasília, professor da UnB, estudioso lobatiano dos maiores, autor de “O patriotismo difícil” e “O sonho brasileiro de Monteiro Lobato” (edição do autor, ambas).
Fazer história retrospectivamente é um problema, bem sabemos, mas avalio hoje que a polêmica que uma vez travamos com Lobato, e que você, Roberto, tão bem sumaria em seu livro “Iguape... Nossa História” (vol. II, págs. 125 a 136), polêmica compreensível para a época, não nos foi benéfica nem nos aproveitou a longo prazo, histórica, cultural e politicamente. O impulsivo, ferino Saci, intelectual militante que era Lobato, pensava, falava e escrevia sempre com olhos postos no Brasil (“um vasto hospital dirigido por bacharéis”), e se fulanizava a discussão (Vale do Ribeira como “celeiro de doenças” e moradores com “intestinos transfeitos em jardins zoológicos”) era tão só a título exemplificativo, de passagem (e tanto mais no caso de Iguape). Assim que nada disse de Iguape que não tenha dito de outras paragens, nominadas ou não. Ao contrário, para Lobato, “Iguape é o Brasil, o Brasil é Iguape”. A redenção de um acarretaria a do outro, o destino de um conformaria o do outro.
E o nosso problema, como do Brasil, era (é) de mentalidade: “No dia em que o Brasil convencer-se do seu estado de doença, estará salvo. O que se faz em Iguape prova de modo irrefragável a possibilidade da vitória”. E a despeito de tudo Lobato era otimista: “Iguape será a primeira cidade do Brasil onde se terá feito uma obra completa de saneamento... a irradiar-se pelo resto do país”. Bem, não entendemos (e de certo modo continuamos não entendendo) dessa forma as coisas. Queremos quem nos paparique. Julgamos mais importante a forma do que o conteúdo. Tanto pior para nós. Lobato é o que é, um “homem do porviroscópio”, e nós estamos onde estamos. Isso quando Lima “Policarpo Quaresma” Barreto, para quem o “problema vital” do Brasil era o latifúndio e não o saneamento, observava já em 1921: “O que se evola de suas palavras [de ML] não é ódio, não é rancor, não é desprezo, apesar da ironia e da troça; é amor, é piedade, é tristeza de não ver o Jeca Tatu em condições melhores”.
No mesmo sentido pontifica Orígenes “A cidade que o diabo esqueceu” Lessa mais tarde: Lobato “batia-se sempre por grandes causas nacionais. Por interesses profundos e vitais do nosso povo. As palavras podiam vir cheias de fel. Por menos que o parecessem vinham, porém, transbordantes de fé, de um desejo ardente e imenso, pelo menos, de renovação da caminhada, de libertação, de alicerces definitivos para uma nacionalidade titubeante”. Repare-se que o Vale do Paraíba das “Cidades Mortas”, onde Lobato fracassou como cafeicultor (para, menos mal, vencer como escritor e agitador), deixou de lado o secundário das críticas, o arroubo da polêmica que desperta (o conhecimento nasce do espanto), e aprendeu a lição histórica, sendo hoje um dos pólos de riqueza do Brasil e até da América Latina. Por tudo, creio ser chegada a hora de fazermos justiça a Monteiro Lobato. Precisamos fazer justiça a Monteiro Lobato.
Temos que nos reconciliar com Lobato, reconciliando ainda, e antes tarde do que mais tarde, [Paulo] Moutinho e Lobato, contendores em uma polêmica esclarecedora que ainda hoje, quase um século depois, tem muito a nos ensinar e é a nossa mais perfeita tradução. Talvez nunca ninguém que por aqui passou, a despeito de tudo e de forma tão rápida, captou nossa opção pelo isolacionismo e vocação para a vitimização. De outra forma, até a política entre nós se expressou em termos “rurais” antevistos por Lobato, com as forças políticas hegemônicas intitulando-se Berne e Cocho, autêntica piada pronta. Lobato merece o nosso respeito, o nosso carinho e a nossa consideração. Proponho uma estátua, um busto que seja, em praça pública, na Praça dos Maçons, quiçá em substituição àquela pirâmide horrenda, na certeza de que os maçons se orgulhariam em compartilhar justa homenagem com um grande brasileiro, dos maiores que tivemos, e que se não foi maçom (?) é nome de Loja em Taubaté (GLOB). Quem se habilita?
Escrito por Roberto Fortes às 22h38
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Ao correr da pena...
Jeca Tatu

Jeca Tatu, por Belmonte.
Em “Urupês”, livro de contos lançado em agosto de 1918, Monteiro Lobato, no texto que dá nome à obra, enfoca o caipira paulista, representado pela figura indolente do Jeca Tatu. Lobato deixa bem claro toda a sua indignação contra o modus vivendi do nosso caboclo, e não poupa adjetivos pouco nobres àquele que passava quase toda a vida de cócoras, apoiado nos calcanhares. Destacando a letargia de nosso caipira, escreve: “No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas”. E conclui: “Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive...”
Curiosamente, poucos meses antes do lançamento de “Urupês”, mais precisamente em maio de 1918, Monteiro Lobato visitou, às pressas, a cidade de Iguape, desembarcando no Porto Grande. Chovia aos cântaros. Reza a crônica que ninguém fora recepcionar o ilustre jornalista de O Estado de S. Paulo. Talvez por isso, o escritor tenha publicado no jornal um ácido artigo sobre a cidade e seu povo, “descendo a lenha” no iguapense. Basta dizer que, em certo trecho do artigo, Lobato escreve: “O povo não ri, não brinca, não canta, não dança”, além de outros trechos virulentos, que pretendiam reduzir à pó o brio iguapense.
Só que o destemido semanário Tribuna de Iguape, que circulava em toda a zona do Ribeira, então dirigido pelo desassossegado Major Mingute, não deixou por menos e, em vibrante editorial (“Monteiro Lobato: as explosões do seu despeito”) deu a resposta: “O povo não ri, não brinca, não canta, não dança” e... não faz recepções de literatos à laia dos arraiais, a toques de música e estrugidos de foguetes. Neste particular há de conceder o ilustre dr. Lobato”.
Diretamente de São Paulo, onde vivia, o jornalista Paulo Moutinho, nascido em Iguape, no artigo “Pessimismo Mesquinho”, publicado em A Gazeta, de Cásper Líbero, lamentou os excessos de Lobato: “O Brasil é a terra clássica do pessimismo: nada a ele escapa nem consegue fugir: A própria natureza exuberante, a fertilidade mesma do solo, os recursos naturais infindáveis e indiscutíveis, encontram espíritos demolidores, cérebros que os depreciam, inteligências falhas, se não de outros sentimentos ao menos de patriotismo, que os espezinham, e ferem rijamente. A imprensa escoa, de vez em quando, esse vírus de um demagogismo anticívico e antipatriótico, que ameaça a cada passo as instituições, abalança as mais caras tradições do povo, chega até à própria família”.
Faz tempo que venho me perguntando qual seria a relação entre a criação do Jeca Tatu e a visita de Lobato a Iguape. Apesar de minhas incessantes pesquisas e reflexões, ainda não cheguei a uma conclusão satisfatória...
O sorriso do edil
Mudando de caipira para político, nesse mesmo livro, no conto “O engraçado arrependido”, Monteiro Lobato faz este interessante comentário sobre a figura do vereador: “O cargo mais modesto da administração, uma simples vereança, requer na cara a imobilidade da idiotia que não ri. Não se concebe vereador risonho. Falta ao dito de Rabelais uma exclusão: o riso é próprio à espécie humana, fora o vereador”.
Também ainda não cheguei a uma conclusão satisfatória sobre o que levou o imortal criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo a ter essa impressão dos vereadores brasileiros.
“Horrorosa Felicidade”
Falecido no último dia 5 de maio, o músico e escritor Benevides Teixeira foi um dos vultos mais destacados no cenário cultural vale-ribeirense. Em 1980, lançou o romance “Horrorosa Felicidade”, onde conta a história de Nhonhô, um negro que, nascido num berço humilde, com muito sacrifício consegue amealhar o respeito da sociedade registrense (a história se passa na então pequena Registro). Benevides não tinha papas na língua: à maneira de Jorge Amado, escrevia o que lhe vinha à cabeça, caprichando, principalmente, nos detalhes picantes, onde Nhonhô demonstra toda sua energia erótica com belas parceiras. “Horrorosa Felicidade”, que se lê de uma tacada só, antes de ser um romance, é uma comovente história de vida. Benevides Teixeira deu provas de ser um excelente contador de histórias. O livro está à espera de uma merecida segunda edição.
Alzira Pacheco
Falando em escritores vale-ribeirenses, dias desses, navegando em sebos da internet, garimpei a obra “Sonegação de Ternura” (1968), o segundo livro de poemas da poetisa Alzira Pacheco Lomba Kotona, figura das mais respeitadas, em nossa região, quer na Literatura como no Direito. O livro havia recebido menção honrosa no “Prêmio Governador do Estado”, em 1965, quando ainda era inédito. Artífice incomparável na arte de burilar versos perfeitos, Alzira Pacheco apresenta, nessa obra, uma bela seleta de poemas, que levam o leitor ao devaneio, à reflexão, ao encanto. Reparem neste soneto, todo ele escrito em letras minúsculas:
“Sonegação de Ternura”
“inútil é rolar em descaminho/ e ao desencanto de si mesmo opor/ a suavidade mansa de um carinho/ e o vício sensual do próprio amor.// é desencanto vão andar sozinho/ por estradas de ódio ou de rancor./ é preciso saber ser o caminho/ para as sombras do antigo desamor.// inútil aprender o desencanto/ da chuva estagnada em nosso pranto/ sem roubar do horizonte céus secretos:// há um caminho de sal e onda, impreciso,/ entre a algidez de areia do teu riso/e a brancura hibernal dos meus sonetos”.
(Soneto de Alzira Pacheco, in “Sonegação de Ternura” (1968), Livraria 4 Artes Editora).
(JORNAL REGIONAL, nº 775, 23-5-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 13h26
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Ao correr da pena...
Terra violenta
O artigo abaixo foi publicado na sempre lembrada “A Tribuna do Ribeira”, em sua edição de 8 de janeiro de 1983. Passados vinte e cinco anos, parece que o cenário da violência em nossa região pouco mudou. Vamos ao texto:
“Ao ler este jornal, sempre deparo com notícias de crimes, assassinatos, furtos, estupros e outros atos de violência desenrolados no Vale do Ribeira.
“A cada dia que passa, noto que o índice de criminalidade cresce assustadoramente em nossa região. Revólveres, foices, machados, facas, são quase constantes em nosso cotidiano. É incrível como uma terra, outrora tão pacífica e humana, vem gradativamente se transformando num assustador palco de crimes hediondos, assaltos a bancos, assassinatos políticos, tráfico de entorpecentes, etc.
“Fico a me perguntar o que está acontecendo com o Vale: qual a causa do aumento da violência, o que está, enfim, tornando o Ribeira uma região altamente violenta?
“Mudou o Ribeira ou mudamos nós? Será a violência o prenúncio de uma nova era, dantesca, que já está se iniciando por aqui? Não há resposta plausível a essas indagações, infelizmente.
“O que estamos certos é que, se algo de concreto objetivando conter a violência no Vale não for colocado urgentemente em prática, muito brevemente não teremos mais coragem de sair às ruas, pois a morte estará à espreita em cada esquina, em cada bairro, em cada cidade da região.
“A meu ver, torna-se imprescindível cortar o mal pela raiz. Para isso, entretanto, necessário se faz saber quais as origens da violência em nossa terra. Medidas urgentes devem ser tomadas, tanto a nível regional, como (e principalmente) a âmbito nacional, pois somente podando a violência pela raiz é que poderemos erradicá-la completamente.”
Líder frustrado
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“A América Latina está parecendo aquelas reuniões políticas, em que há mais caciques do que índios: todos querem mandar. Chávez vive arrotando ordens pra todo lado, desafiando os EUA, brigando com os vizinhos, dando conselhos aos políticos brasileiros. Evo Morales aliou-se a Chávez e tomou uma refinaria de petróleo do Brasil. Fidel Castro, moribundo, mas ainda teimoso, é o anjo inspirador desses caciques de araque. No meio deles, Lula, esquecendo que é o presidente da maior e mais rica nação latino-americana, ficou de quatro para Evo Morales e faz reverências a Chávez. Essa submissão encoraja os vizinhos mais fracos. Agora até o Paraguai ronca feio para o Brasil. Só falta o Brasil perder essa nova “Guerra do Paraguai”, pela represa do Itaipu. O Brasil parece um leão velho que não consegue defender sua caça do ataque das hienas”. (http://beneditomachado.zip.net).
Profª Zely Alves Fortes
Recebi do professor e sociólogo Antônio Rochael, meu particular amigo e assíduo leitor, o seguinte comentário sobre a não aprovação, pela Câmara de Iguape, de projeto de lei que conferia o nome da saudosa professora Zely Alves Fortes a uma escola do município:
“Não posso acreditar e nem imaginar que vereadores iguapenses votaram contra um Projeto de Lei que dava o nome da senhora professora Zely Alves Fortes, que todos conhecíamos, à Escola Municipal “Nova” do Bairro do Rocio. Não sabem eles, os nobres edis, que “Nova” não significa nome e nem convence patronear instituições sociais. Que infelicidade! Que injustiça! Que ingratidão! Que incompreensão!. Será que eles estão esperando morrer algum “nobre” cidadão da situação política? Só aqui em Iguape mesmo!”
“Debut”
Um jovem aspirante a escritor enviou-me o micro-conto abaixo. Não sou nenhum crítico literário, mas reconheço que o rapaz tem jeito para o ofício. Senão vejamos:
“Naquela manhã, quando completou dezessete anos, mandou às favas seu insuportável professor de Física. Diante da classe estupefata, levantou-se da carteira, disse a quem quisesse ouvir que iria ao banheiro e nem reparou na cara bestificada do professor, mas supôs que tenha ficado bestificado. Afinal, nunca abrira a boca durante todo o ciclo escolar, e justamente naquele dia fizera o seu debut. A outra escola secundária da cidade o veria concluir o curso colegial, pois da que estudava fora expulso, não antes de ouvir o insuportável professor gritar pelos corredores: “Ninguém fala assim comigo! Ninguém fala assim comigo!”. Ele falou.”
Apocalipse now
No “Apocalipse”, o mais enigmático e inquietante livro da Bíblia, o evangelista João vaticinou que “o tempo está próximo”. Dois mil anos depois, mesmo os mais céticos não deixam de notar que algo de estranho está acontecendo com o nosso planeta. Ciclones, furacões, tornados, terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas – são evidências de que a Terra está dando sinais de cansaço (ou seria a tão propalada “revolta da mãe-natureza”, tão alardeada pelos “verdes” de plantão?). Pelo sim, pelo não, convém nos aprecatarmos.
Frase
“A terra ensina-nos mais acerca de nós próprios do que todos os livros. Porque ela nos resiste”. (Antoine de Saint-Exupéry)
(http://alfarrabiosjr.zip.net)
(JORNAL REGIONAL, nº 774, de 16-5-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 10h54
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OSVALDO MATSUDA LANÇA NOVO LIVRO

O artista plástico e escritor Osvaldo Matsuda, que durante muitos anos lecionou em escolas de Miracatu, acaba de lançar o livro "FP ou PF e PF", pela editora All Print. Leiam apresentação do livro:
- Então, preparada para o Lançamento PF e PF? - Amigo quem estaria de fato? - Acho que ninguém. - Mas o que levou a esta decisão? - Acho que a eternidade. - No fundo todos queremos ser Deus. - Não sei se esta é a razão, mas o fato é que não tenho certeza do por quê. - Sabemos que tudo é escuridão. A certeza é uma real incerteza, mas saber que há uma chance de luz... - Realmente! Poder abrir os olhos e olhar a eternidade que maravilha! - A senhora acredita que será realmente assim? - O fato é que não acredito! Acho que nenhum resultado nós conseguiremos na nossa tentativa de olhar a eternidade. - Apesar da descrença... - ... Não desistirei da PF e PF.
Serviço:
"FP ou PF e PF" Osvaldo Matsuda São Paulo - SP ISBN: 978 85 7718 207 7 Preço: R$ 35,00 Acabamento: Brochura Edição: 1ª Número de páginas: 264 Editora: ALL PRINT Tamanho: 14 x 21 cm
Prestigiem esse talentoso representante da cultura vale-ribeirense.
Escrito por Roberto Fortes às 10h34
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AO CORRER DA PENA...
Alves Carneiro
João Batista Alves Carneiro, considerado um dos mais importantes poetas vale-ribeirenses de todos os tempos, nasceu em Iguape no dia 8 de junho de 1837, filho do político e comerciante Joaquim Alves da Silva Carneiro e dona Rosa Francisca Alves. Desde cedo, já dava provas de sua inteligência superior. Aprendendo com o pai os rudimentos essenciais da língua vernácula, freqüentou, em seguida, as aulas particulares que então ministrava em Iguape o conceituado advogado Francisco Augusto de Oliveira Muniz, com quem aprendeu as noções preliminares de Latim e Francês. Sempre teve o espírito perturbado pela melancolia e pela dor, o que pode ser explicado pelas várias decepções que teve em sua vida particular, com o falecimento prematuro de seus entes mais próximos. Em 1856, perdia o pai, que muito o incentivara em sua vocação de poeta; menos de dois anos depois, falecia sua mãe e, logo em seguida, uma de suas irmãs.
Com a perda de seus pais, a posição de poeta mudara. Já não podia se dedicar apenas aos estudos e à poesia. Chefe de família, outros deveres reclamavam sua atenção. Mas, ainda assim, encontrava tempo para criar versos admiráveis. Alves Carneiro estudou com afinco as ciências jurídicas, tornando-se um advogado de grande conceito na cidade. Em sua vida pública, exerceu vários cargos, como juiz municipal, vereador e juiz de paz. A vida do poeta sempre foi marcada pelo fatalismo, que o acompanhou durante toda sua existência, até em seus derradeiros momentos. Acometido de grave doença na laringe, que se tornou crônica, os recursos médicos da época foram insuficientes para a sua cura. A conselho médico, seguiu para Serra Acima, poucos meses antes de morrer. Assim, no dia 10 de setembro de 1870, quando contava apenas 33 anos, falecia o grande poeta, cujas poesias estão entre as mais lindas páginas da literatura vale-ribeirense. O soneto abaixo, datado de junho de 1857, tem claros traços ultra-românticos:
“Minha mãe”
“A minha terna mãe roubaste, oh! Morte!/ E por que, para que poupas a mim?/ Ah! por que és tão cruel, tirana assim/ Comigo, oh! injusta, oh! iníqua sorte?!// Descarrega sobre mim teu braço forte/ Finaliza minha vida, oh! parca, sim!/ Aos tristes dias meus – breve dá fim,/ Que seja a última dor qu´inda suporte!// Em morrendo, se existe eternidade/ Talvez com minha mãe, no céu me veja/ Tão feliz como fui na tenra idade.// Morrer, seguir sua mãe, é quanto almeja/ O triste filho que suplica a Divindade/ Por sua alma para que no céu esteja!”
(Soneto de Alves Carneiro, in “Almanach Litterario-Recreativo”, Iguape, 1899).
Lixo no lixo
Diz uma antiga lenda que Iguape é uma cidade turística, apesar de alguns estudiosos da mitologia brasílica discordarem em alguns pontos nebulosos. Mas deixemos esses pormenores conflitantes aos nossos doutos historiógrafos. Mudando de alho para bugalho, uma campanha institucional da Prefeitura de Santos fala assim: “Lixo no lixo, cidade no capricho”. Uma localidade turística não pode, isso é claro, ficar atolada na sujeira. Recipientes apropriados – as ditas lixeiras – devem ser colocadas em pontos estratégicos para que os transeuntes ali depositem as coisas inservíveis, ou aquilo que se convencionou chamar de lixo diário.
Ao atento cidadão que ande pela Praça da Basílica, em Iguape, não deixará de notar as assépticas lixeiras que foram colocadas em todos os quadrantes do logradouro, bem como em várias ruas da cidade. Alguns acharam exagerado o número desses recipientes; em trechos de menos de cem metros existem até quatro lixeiras. A iniciativa, no entanto, não deixa de ser louvável. Pelo menos as lixeiras não foram chumbadas nas calçadas de pedra, como costuma acontecer freqüentemente. Outros só estranharam que, até agora, ainda não foram colocadas lixeiras na (outrora bela) Orla do Mar Pequeno, que hordas de godos, visigodos e ostrogodos fizeram o favor de destruir e que continua abandonada pelo poder público.
Balaio de gatos
Com a saída definitiva do ex-alcaide cassado de Iguape; com a rejeição, pelo Tribunal de Contas e pela Câmara Municipal, das contas de outro ex-prefeito; com a acusação que paira sobre o presidente da Câmara de contratação irregular de assessoria jurídica; com o processo contra vereadora que se utilizou de carro da Câmara para fins de promoção pessoal (e que, segundo a juíza, utilizou quilometragem suficiente para dar quatro voltas ao redor do globo); enfim, com esse balaio de gatos em que se transformou a política iguapense, é ponto pacífico para os analistas que nunca, na centenária história da cidade, existiu um quadro pré-eleitoral tão indefinido como o atual. Evidentemente, quem perde com isso é Iguape, que ultimamente vem sendo tão vilipendiada por seus maus políticos. Alguns acreditam que possa até dar uma “zebra” nas próximas eleições. Como em Iguape tudo pode acontecer (segundo os gozadores de plantão, Dias Gomes se inspirou na cidade para escrever “Saramandaia”), vamos acompanhar o andar da carruagem e ver no que vai dar esse balaio de gatos.
Concorrência
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“Segundo comentaristas econômicos, a “profissão” de “Sem-Terra” está sofrendo forte concorrência do programa Bolsa Família ou, como é mais conhecido, o Bolsa-Voto. Afinal, ficar em casa recebendo uma ajudazinha do Governo, complementada com algum “bico” maneiro, é muito mais cômodo do que morar em barracos, arriscar-se a levar um tiro na invasão de uma fazenda para, afinal, ganhar um terreninho onde vai se trabalhar duro, à moda antiga, concorrendo com os tratores dos ricaços “Com-Terra”, que, além do mais, contam com os empréstimos do Banco do Brasil e BNDS. Os desistentes estão voltando para suas favelas e outros arraiais da pobreza brasileira, os grandes fornecedores de “mão-de-obra” para os revolucionários profissionais, Stédile e José Rainha”. (http://beneditomachado.zip.net)
(JORNAL REGIONAL, nº 773, de 9-5-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 22h31
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AO CORRER DA PENA...
Traiu ou não traiu?
Dando prosseguimento à polêmica de ter Capitu traído ou não Bentinho, recebi de meu amigo Benedito Machado o seguinte comentário:
“O mais famoso caso de infidelidade feminina da Literatura Brasileira já “deu muito pano pra manga” e continua dando. Esse último comentário de nosso amigo Wilson Almeida Lima, repassando informação de Carlos Heitor Cony, que por sua vez cita, em abono da notícia, uma fofoca de Humberto de Campos, me deu o que pensar. Virando o caso ao contrário, Humberto de Campos, nos seus últimos dias de vida, sofreu de uma doença incurável para a época: acromegalia. Seja pela doença, seja por outro desgosto qualquer, no seu penúltimo ano de vida (1933), Humberto de Campos publicou suas Memórias, republicadas, mais tarde, em periódicos, como uma espécie de Diário, nas quais ele desancava seus inimigos, reais ou imaginários, e outras pessoas ilustres das letras. Pelos poucos capítulos que li, deu pra perceber que ele não estava mais se dando bem com a humanidade em geral. Assim, não é de admirar que tenha dado curso a essa tremenda fofoca de Machado de Assis “pulando cerca”. Com isso ele atingiu, “com uma só cajadada” três ilustres escritores brasileiros”.
Iluminação Subterrânea
Um nosso assíduo leitor nos afirmou que técnico da companhia de eletricidade esteve no Centro Histórico de Iguape medindo a distância entre as beiradas das calçadas e as casas na proposta de iluminação subterrânea das praças e ruas. Houve preocupação do cidadão porque o técnico declarou que teria de haver mexidas nas calçadas de pedras. Ora, o patrimônio da arquitetura colonial, além das casas e sobradões, inclui as calçadas de pedras. Não há separação entre uma coisa e outra. De que adianta fazer iluminação subterrânea no Centro Histórico destruindo as históricas calçadas?
Não é de duvidar que isso se passe na cabeça de técnicos dessa companhia de eletricidade, achando que a iluminação por si só é mais do que a arquitetura colonial que pretende revitalizar! Há três anos, empreiteira dessa companhia de eletricidade veio destruindo calçadas de pedras para a colocação de gigantescos postes. Fica o aviso aos abusados: se vierem com essa idéia o Ministério Público será acionado para proceder ao devido embargo.
Profª Zely Alves Fortes
Os vereadores iguapenses votaram contra projeto de lei de autoria do vereador Tony Ribeiro dando o nome da saudosa professora Zely Alves Fortes à Escola Municipal “Nova” do Rocio, em Iguape. Aquele escola foi chamada de “Nova” para distinguir da outras que existiam há mais tempo no bairro. “Nova” não é patronímico. Alegaram os vereadores contrários que tal escola é municipal, mas o prédio é estadual. Desculpa esfarrapada ou de gente “que não sabe onde o galo está cantando”. O patronímico de um estabelecimento não é sobre o prédio imobilizado, mas sobre a instituição escolar em função de seu mantenedor, no caso, uma escola municipalizada. Se essa regra defendida pelos “nobres” edis valesse, a Escola “Professor Eulálio de Arruda Mello” não teria sido substituído por outro que também a honra. Como se diz: “aumente, mas não invente”. Chega de desculpas!
Alô, alô, responde
A Companhia de telefonia desta região instalou um telefone público no bairro de Subauma (também chamado de Sabauna), em Iguape. É, sem dúvida, um melhoramento interessante para a localidade e antiga reivindicação dos moradores. Surpreendente, no entanto, é que a tarifação entre Iguape e aquele bairro se faz no valor de interurbano, como se fossem municípios separados. Essa companhia de telefones não sabe que o Subauma é bairro de Iguape e que não pode haver tarifa interurbana?
Adolpho Carneiro
Adolpho Augusto Carneiro nasceu em 2 de setembro de 1846, filho de Francisco Carneiro da Silva Braga Júnior e Cândida Maria de Oliveira Xavier. Foi 2º tenente da 2ª Companhia da 2ª Seção do Batalhão de Artilharia da Guarda Nacional. Exerceu também o magistério e teve negócio. Assinava seus trabalhos como A. Carneiro. Publicou suas produções poéticos em diversos periódicos, entre os quais, o Commércio de Iguape, na década de 1890.
“A esmo”
“Ou foi em Santos, ou na Paulicéia/ Eu tenho uma idéia de falhar-lhe até;/ Sim; foi na Rua Quinze de Novembro/ Agora me lembro, ao sair da Sé.// Trajava funério, parecia um monge/ Porém eu de longe que a conheço bem// Corri pressuroso a cumprimentá-la/ Cheguemos à fala, passemos além./ Falou-me de tudo, de tudo falou-me/ Afinal contou-me que voltar queria;/ Pus-me ao seu dispor com toda franqueza/ Por delicadeza fiz o que devia.// Tudo agradeceu-me com frases douradas/ Palavras tiradas do seu coração;/ Então vi que tinha, com sinceridade,/ Na realidade feito um papelão...”
(Poema de Adolpho Carneiro, in Commercio de Iguape, nº 1.024, 12-7-1896).
(JORNAL REGIONAL, nº 772, de 2-5-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 19h21
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AO CORRER DA PENA...

Machado de Assis, na juventude.
Traiu ou não traiu?
Recebi do meu amigo Wilson Almeida Lima este interessante comentário sobre a polêmica de ter Capitu traído ou não Bentinho:
“Capitu, a mulher com ´olhos de ressaca´, traiu ou não seu marido Bentinho? Tempos atrás, na Veja (ecoando Carlos Heitor Cony na Folha), a questão foi dada por ´esclarecida´, resolvendo o grande mistério de nossa literatura, como ainda, por tabela, expondo uma passagem escandalosa da vida do maior escritor brasileiro. Segundo Cony, a traição do livro é baseada num episódio da vida do próprio Machado de Assis, que cobiçou a mulher de um próximo, assim como o personagem Escobar de ´Dom Casmurro´, e com ela gerou um filho, que Cony identificou com as iniciais M. de A. ´Eles tinham a mesma testa, o mesmo cabelo crespo e alguns tiques iguais´, escreveu Cony, acrescentando que M. de A. sofria de epilepsia, como Machado. Mas quem seria o filho gerado por Machado na vida real? Nada menos que o escritor Mário de Alencar, filho do romancista José de Alencar e de Georgiana Cochrane. Em outras palavras: dois dos principais literatos do século XIX teriam sido vértices de um triângulo amoroso.
“Se verdadeira a hipótese, não foi só no campo da literatura que o realismo de Machado deu cabo do romantismo de Alencar. O relacionamento entre Mário de Alencar, autor de pouca notoriedade (mas que Machado guindou à ABL), e Machado realmente era próximo. ´Mário, que não se dava bem com José de Alencar, até se referia a Machado como pai em suas cartas´. Como ninguém vai se dispor a fazer um teste de DNA nos restos mortais dos escritores, a afirmação de Cony (partindo, diga-se, de uma insinuação antiga de Humberto de Campos), dificilmente será provada. De qualquer forma, não deixa de ser uma ironia que se levante uma suspeita dessas em relação a Machado de Assis, um escritor que dizia que jamais escreveriam uma boa biografia sua, ´porque ninguém é mais reservado nessa matéria do que eu´”.
Sob nova direção
Com o final da novela protagonizada pelo ex-alcaide cassado de Iguape, a prefeita, agora efetiva, poderá começar a governar o município. Mas, para tanto, deverá ter a determinação necessária para demitir assessores e auxiliares que não estão em sintonia com a sua administração. Aliás, o que Iguape precisa, urgentemente, é de um “gerente da cidade”, ligado ao Executivo, ou seja, um profissional altamente qualificado cuja missão seja a de “ver” o município como um todo e que diagnostique as falhas e carências – por exemplo, lixo acumulado nas ruas, obras irregulares, mão de direção das ruas, mendicância às escâncaras, farra das bicicletas, saúde sucateada, destruição do calçamento, invasão do espaço público, patrimônio histórico abandonado, etc. Resumindo: é a solução das pequenas coisas do dia-a-dia que enseja a satisfação do cidadão.
A terra tremeu
O tremor sentido em alguns Estados, na última terça-feira, causou o espanto de uns e a incredulidade de outros. Até mesmo em Iguape – abençoada pelo Bom Jesus, mas infelicitada por alguns de seus políticos –, dizem que foi sentido o abalo sísmico. Apesar de que terremoto, na história da cidade, não é novidade. Senão vejamos o que noticiou o semanário “O Iguape”, nº 651, de 30 de julho de 1946, sob o impactante título “A trema tremeu”: “Precisamente às 4 horas, foi sentido nesta cidade um tremor de terra, que chegou a fazer trepidar portas, janelas e vidraças. O abalo foi precedido por um ronco surdo, semelhante de um trovão longínquo, perdurando mais ou menos um minuto”.
Mas, para o iguapense, gozador por natureza, terremoto, mesmo, foi a derrocada política do ex-alcaide cassado, haja vista o estrondoso foguetório que enfumaçou a cidade durante toda a noite de terça-feira, o que levou alguns incautos a acreditarem que o final dos tempos havia chegado, ao troar das trombetas dos anjos apocalípticos.
Disfunção orgástica
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“Pesquisa realizada pela dra. Ana C. Machado, médica clínica e obstetra do Hospital de Pariquera, revela que 48% das mulheres que vivem no Vale do Ribeira sofrem de alguma disfunção orgástica, relativa ou absoluta. A razão principal alegada pela médica são a desinformação geral, o preconceito, a submissão e o desconhecimento do próprio corpo. A médica está planejando seminários públicos para debater a questão”. Essa notícia é mais importante do que os 8 x 0, contra o prefeito de Iguape. Afinal, um prefeito pode facilmente ser substituído (às vezes até com vantagem), mas o prazer do sexo, esse não tem substituto. Atenção, maridos e amásios, esqueçam o prefeito e tratem melhor suas mulheres!” (http://beneditomachado.zip.net)
Urbano
Com esse pseudônimo, um criativo poeta, que viveu em Iguape no final do século XIX, escreveu diversos poemas enfocando cenas cotidianas da cidade. Apesar dos meus esforços, ainda não logrei descobrir a sua identidade. Numa série intitulada “Cenas”, Urbano deu provas de sua criatividade e bom humor. Eis a primeira “cena”:
“Cenas”
Brandamente iluminada/ A sala estava, me lembro./ Corria o mês de setembro/ E estava a noite gelada.// Um grupo se divertia/ Jogando o víspora contente,/ Enquanto que brandamente/ Chuva à janela batia.// Um míope então cantava/ (cujo monóculo era opaco)/ os números que separava.// Contente ria e falava/ Sacudindo bem o saco/ A ver se a sogra ganhava”.
(“Cenas I”, soneto de “Urbano”, in Commercio de Iguape, nº 1.132, de 18/09/1898).
(JORNAL REGIONAL, nº 771, de 25-4-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 23h11
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AO CORRER DA PENA...

Tibete. Foto: http://www.airsim.net/nc/kmetros/tibete4.jpg
Tibete “new age”
Slavo Zizek, um dos mais festejados filósofos da atualidade, em artigo publicado no suplemento “Mais” de domingo último (“O Tibete não é tudo isso”), escreveu que a China, durante todo o tempo em que vem ocupando o Tibete, tirou o país da extrema miséria, já que até então a terra do dalai-lama vivia num regime feudal.
“Antes de 1949, escreve Zizek, o Tibete não era nenhum Xangri-Lá, mas um país dotado de feudalismo extremamente rígido, miséria (a expectativa média de vida pouco passava dos 30 anos), corrupção endêmica e guerras civis (sendo que a última, entre duas facções monásticas, ocorreu em 1948, quando o Exército Vermelho já batia às portas do país). Por temer a insatisfação social e a desintegração, a elite governante proibia o desenvolvimento de qualquer tipo de indústria, de modo que cada pedaço de metal usado tinha que ser importado da Índia”.
Por outro lado, conforme frisa Zizek, “isso não impedia a elite de enviar seus filhos para estudar em escolas britânicas na Índia e transferir seus ativos financeiros a bancos britânicos, também na Índia”. Na opinião do filósofo, essa onda de protestos contra a China em todo o mundo é de natureza ideológica: “o budismo tibetano, habilmente propagado pelo dalai-lama, é um dos pontos de referência da espiritualidade hedonista “new age”, que está rapidamente se convertendo na forma predominante de ideologia nos dias atuais”.
Resumindo: que os tibetanos sejam espirituais por nós, diz Zizek, “em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado jogo consumista”. Para refletir.
Traiu ou não traiu?
Acabei de (re)ler “Dom Casmurro”. Quando estudava no colegial, aluno da professora Rosa Namba, li esse romance pela primeira vez. Na época, achei-o difícil e recheado de palavras antigas. O tempo e as leituras me deram, depois, alguma bagagem literária e, nas outras vezes em que o reli, passei a gostar da história. Só que, até então, achava que a traição de Capitu era coisa que Bentinho tinha colocado em sua cabeça. Nesta última (re)leitura notei alguns indícios que haviam passado despercebidos. Vamos a eles.
Bentinho e Capitu se casam, consumando um amor de infância. Durante dois anos Capitu não consegue engravidar. Numa ocasião, Capitu alega indisposição e Bentinho vai sozinho ao teatro. Volta no meio da peça e dá de cara com o seu amigo Escobar, que estava a entrar na casa e, calmamente, diz a Bentinho: “Vim ver-te”. Curiosamente, a partir daí, Capitu engravida e dá à luz a Ezequiel. Outra curiosidade: depois da morte de Escobar, a garota dos “olhos de ressaca” não mais torna a engravidar. A criança, Ezequiel, vai crescendo e, a cada dia, mais e mais se assemelha com Escobar. Já moço, ao retornar da Europa, Ezequiel causa profunda sensação no espírito de seu pretenso pai: era idêntico a Escobar quando tinha a sua idade!
Voltemos ao tempo em que Capitu e Bentinho eram casados. Capitu reclama a Bentinho que a mãe dele, dona Glória, andava estranha com ela, recebia-a friamente e coisas assim. (Será que a sogra desconfiava da nora?). Em vários momentos do romance, Machado de Assis sempre deixa claro que Capitu era dissimulada, esperta, conseguia manter a calma e a postura diante das situações mais desconcertantes. Não me alongarei em minhas impressões. Desta vez, tive a certeza de que Capitu, realmente, traiu Bentinho. Mas estou aberto a opinião contrária. Com a palavra, o leitor.
Família Kerr
Recebi um exemplar do livro “Vick, lembrança dos Kerr”, no qual o pesquisador Samuel Kerr (que mora em São Paulo e que é assinante do “Jornal Regional” e da “Tribuna de Iguape”) conta a história de seu pai e de sua família. Primorosamente impresso em papel especial, o livro é fruto de profunda investigação genealógica do autor, cujas origens são vale-ribeirenses, já que é descendente do francês Thiago Agibert, médico homeopata e fugitivo político de Napoleão III, que se fixou em Iporanga, em meados do século XIX. O livro também tem interessantes informações históricas sobre o Vale do Ribeira, principalmente sobre a chegada de norte-americanos à região. A leitura é prazerosa e, além do texto correto e elegante, tem belas fotografias históricas. Contato com o autor: smkerr@terra.com.br.
Sobre prefeitos
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“Qual será o profissional mais indicado para ser um bom prefeito? O prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão, é corretor de imóveis. Se alguém passou por lá, nos últimos tempos, pode constatar que aquela cidade “vai de vento em popa”. A Ilha Comprida foi “montada” por corretores de imóveis. Pode-se criticar sua administração, mas não se pode negar que eles “fizeram” uma cidade, o que não é fácil. Um prefeito precisa ser criativo, dinâmico, disposto a melhorar cada vez mais a cidade que administra. No caso de cidades com vocação turística, ele precisa saber “vender” a idéia de fazer turismo na sua cidade. Ou saber escolher alguém que possa fazer isso por ele. Qual é o critério de escolha dos auxiliares do prefeito? Aquele que tem um currículo adequado? O amigo? O correligionário? Essas são as perguntas que se deve fazer aos futuros candidatos a prefeito da cidade”. (http://beneditomachado.zip.net)
“Inundação no Ribeira”
“Chove diluvialmente... e o colossal Ribeira,/ De um modo extraordinário as águas avoluma,/ E rola no seu leito envolto em turva espuma,/ Com deleite sensual... beijando a ribanceira!// E vai sempre crescendo! e invade as margens, numa/ Vertiginosa, audaz e pérfida carreira,/ Do pobre lavrador matando a sementeira.../ Os campos submergindo, e habitações, em suma!// Do fenômeno, então, surpreso e amedrontado,/ Debanda para o outeiro – o gado – ansiosamente,/ E permanece ali, faminto e consternado!// Prossegue a inundação... e o dono, imprevidente,/ Quando vai socorrê-lo, encontra-o inanimado,/ Pois todo pereceu, à fome, pela enchente!...”
(Soneto de Leite de Magalhães, "escrito em viagem, no grande Rio Ribeira", in “Versos Dispersos”, 1909).
(JORNAL REGIONAL, nº 770, de 18-4-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 19h13
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AO CORRER DA PENA...

Machado de Assis e Júlio César da Silva.
Machado de Assis
Estou relendo os principais livros de Machado de Assis, aqueles da fase realista, iniciada com o saboroso “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), que recebeu rasgados elogios de Harold Bloom, de “O Cânone Ocidental”, considerado o mais importante crítico literário da atualidade. Na seqüência, reli “Quincas Borba” (1891), que é quase uma continuação do anterior (mas menos inspirado); “Dom Casmurro” (1899); “Esaú e Jacó” (1904); e “Memorial de Aires” (1908), este o derradeiro trabalho do recatado e recluso “Bruxo do Cosme Velho”. Machado de Assis tem momentos de rara inspiração e outros próximos à mais pura divagação. Mesmo não sendo um crítico literário, creio que Machado, antes de ser um ótimo romancista, é um inigualável contista. Aliás, tenho para mim que, excetuando “Memórias Póstumas”, os demais romances, extirpadas as divagações, dariam contos excelentes, entre os melhores da literatura universal.
Júlio César da Silva
Falando em Machado de Assis, adquiri há pouco tempo, num sebo da internet, o livro “Conceitos e Pensamentos de Machado de Assis” (1925), uma seleção de frases lapidares e interessantes do “Bruxo do Cosme Velho”, compiladas, dentre todos os livros de Machado, pelo escritor e poeta Júlio César da Silva (1872-1936), o talentoso e tão injustamente esquecido irmão de Francisca Júlia. Fruto de exaustivo e metódico estudo da obra machadiana, esse livro é uma prova inquestionável do aparato intelectual do escritor vale-ribeirense, que venho lutando para reabilitar como um dos principais autores da Belle Époque paulistana. O interessante na vida de Júlio César é que ele foi seminarista, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, mas nunca advogou. Largou tudo, foi ser artista de circo e trabalhou nos palcos da Argentina e Uruguai. Ingressou, mais tarde, na Prefeitura de São Paulo, onde se aposentou. Militou na imprensa paulistana por mais de trinta anos, colaborando com inúmeros jornais e revistas.
Dossiê e dengue
Mesmo com todas as evidências contrárias ao seu discurso insosso e previsível, dona Rouseff, a impávida ex-guerrilheira que Lula sonha em emplacar como sua sucessora na presidência da República, continua negando, pelo sinal da cruz e pelas barbas de Che Guevara, que tenha tido qualquer participação no dossiê montando para apurar os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. É claro que mais esse escândalo não abalará o prestígio do presidente Lula, cuja imagem vem im(PAC)tando por todos os quadrantes do país. Nenhum escândalo, por mais cabeludo, consegue comprometer a aprovação de Lula (só perde para o general Médici) perante esmagadora parcela do povo brasileiro. Das duas uma, ou o homem é um excelente presidente, ou os seus marqueteiros são os melhores do mundo. Enquanto isso, a dengue corre solto no Rio de Janeiro, e vem chegando a São Paulo...
O Porto de Iguape
Diretamente do blog do escritor Benedito Machado:
“Todo mundo faz gozação com o famoso “porto de Iguape”. Entretanto, até agora, nenhum desses gozadores se deu ao trabalho de ir até o Sindicato Rural e verificar os registros daquilo que já se fez e daquilo que está se fazendo. As coisas podem acontecer ou não. O ministro da Saúde vivia arrotando o grande trabalho que seu Ministério estava fazendo e nós estamos vendo aí, o resultado, nessa epidemia no Rio de Janeiro. Quer dizer, até um ministro pode falhar, mas ninguém riu das notícias positivas que ele dava, sobre seu trabalho. Em Iguape, o mais comum é desacreditar dos outros. É verdade que nossos políticos estão deixando muito a desejar. Mas nem por isso vamos ficar falando bobagem, sem verificar os fatos”. (http://beneditomachado.zip.net)
João Bonifácio
João Bonifácio da Silva nasceu em Iguape no dia 5 de junho de 1895, filho de Jesuíno Albano da Silva e Anna Rodrigues da Silva. Figura das mais notáveis em sua época, destacou-se como jornalista, poeta e cronista, prestando sua colaboração aos jornais locais, principalmente a Tribuna de Iguape. Após a Revolução de 1930, que apoiou, fundou, a 1 de janeiro de 1931, o jornal O Legionário, que foi um órgão destinado a dar sustentação ao movimento revolucionário na cidade. Exerceu o cargo de escriturário da Caixa Econômica Estadual e funcionário da Coletoria Federal. Foi nomeado prefeito de Iguape no período de 21 de fevereiro a 25 de dezembro de 1933. Em 1935, transferiu-se com a família para Santos, onde veio a falecer em 8 de novembro de 1957. Reparem no espirituoso soneto abaixo, claramente “inspirado” em “As Pombas”, de Raimundo Correa...
“As notas...”
Vai-se a primeira nota da carteira.../ Vai-se outra mais... Mais outra, enfim, dezenas/ De notas vão-se do meu bolso, apenas/ Começa o mês célere carreira...// E depois... Quando em plena quebradeira,/ Desenrolam-se, em casa, tristes cenas:/ Um pede livros, outros penas/ E a mulher quer dinheiro para a “feira”...// Os dias vão-se... volta o fim do mês:/ Repetem-se as cenas... outra vez/ Correm os dias, céleres, iguais...// Voltam as notas... (notas do açougueiro;/ As promissórias... contas do padeiro...)/ Mas as notas do bolso... nunca mais!...” (Soneto de João Bonifácio da Silva, in Jornal de Iguape, nº 63, de 2-10-1955).
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