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Uma cidade à procura de sua vocação Luigi Pirandello (1867-1936), festejado escritor italiano, escreveu, em 1921, uma peça que se tornou antológica: “Seis personagens à procura de um autor”, onde, num ensaio de teatro, seis personagens, rejeitados por seu autor, invadem o local e tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas. A princípio, o diretor fica meio perturbado. Mas, quando as personagens começam a encenar suas vidas, o diretor percebe que merecem ter uma chance. Assim, as personagens acabam convencendo o diretor a tornar-se autor. Daí partem para discussões filosóficas que fogem ao escopo desta crônica. Poderia fazer um paralelo entre a cidade de Iguape e os seis personagens de Pirandello. Há muitas décadas que Iguape está à procura de sua vocação. Durante a sua existência quase cinco vezes secular, a antiga Vila de Nossa Senhora das Neves atravessou diversos e importantes ciclos econômicos. A começar pelo ciclo do ouro, entre os séculos XVII e XVIII, quando aqui se descobriram as primeiras minas auríferas do país, dado histórico que é completamente desconhecido do grande público. Ali, no antigo “Funil”, foi construído o austero sobrado que serviu de sede para a primeira oficina de fundação de ouro da Colônia, pomposamente chamada de “Casa de Oficina Real da Fundição do Ouro”. Com o declínio da mineração, a vila conheceu outro ciclo econômico de envergadura representado pela indústria da construção naval, quando estaleiros estabelecidos às margens dos rios iguapenses construíam embarcações de pequeno, médio e grande portes, encomendadas por armadores do Rio de Janeiro, Santos e Sul da Colônia. A partir de fins do século XVIII e início do século XIX, a Vila de Iguape atravessou o seu ciclo econômico mais significativo, o ciclo do arroz, quando, a julgar pelas estatísticas disponíveis, transformou-se num dos mais importantes pólos exportadores do Império. Boa parte dos casarões senhoriais construídos no Centro Histórico datam desse período faustoso. Declinando o ciclo do arroz, veio nova decadência, que foi suavizada a partir da década de 1930 com o surgimento das atividades ligadas à bananicultura, à pesca, ao palmito e à caixeta, ciclos que, de maneira intermitente, persistiram, aproximadamente, até a década de 1970, quando se verificou o “boom” imobiliário em Ilha Comprida. O que se convencionou chamar de “turismo iguapense” teve um golpe mortal em 1992, quando o seu antigo bairro se emancipou. Dessa época para cá, podemos, sem sombra de dúvida, associar Iguape àqueles seis personagens à procura de um autor. Isso exposto, vem a pergunta que não quer calar: e hoje, qual é a principal atividade econômica de Iguape? Quem responder que é o turismo talvez erre feio. Iguape não é uma cidade que vive exclusivamente de seu turismo. Turistas, atualmente, apenas passam pela cidade em direção à Ilha Comprida. Por outro lado, a agricultura é incipiente e recebe poucos incentivos. A pesca da manjuba, talvez pela explosão de número de pescadores e, quem sabe, pela pesca predatória, há tempos não apresenta os índices de décadas passadas. Comentou-se, recentemente, sobre a construção de um porto em Iguape. Comentou-se, em seguida, sobre um porto em Peruíbe. Comenta-se, ainda, dos “royalties” a serem pagos ao município pela exploração petrolífera da Bacia de Santos. Enquanto os comentários se avolumam e se multiplicam, Iguape continua à procura de sua verdadeira vocação.
Escrito por Roberto Fortes às 11h35
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O tesouro de Cananeia O escritor Afonso Frederico Schmidt nasceu em Cubatão em 1894 e faleceu em São Paulo em 1964. Autor de livros consagrados, Schmidt sempre teve estreita ligação com o Vale do Ribeira, que lhe serviu de inspiração para diversos contos. Um de seus livros tem o curioso título de “Tesouro de Cananeia”. Em visita a essa histórica cidade, palco de tantas glórias para História do Brasil, Afonso Schmidt teve a oportunidade de entabular longa prosa com o velho caiçara seu Lolô, figura muita conhecida à época. Seu Lolô era tão velho que nem ele mesmo sabia a própria idade. Sabia reconhecer as pegadas das pessoas na areia da praia, e dizia se eram de conhecidos ou de “gente de fora”. Tinha olhos de bugre. Naquela época, Cananeia já era uma cidade em decadência. O fausto do tempo das armações de baleias ou dos estaleiros de navios já se perdera na pátina do tempo. Afonso Schmidt escreveu: “Às vezes o marasmo é tão profundo que dói, o silêncio tão profundo que aflige”. Mas demonstrou o seu amor por Cananéia: “A cidade é velha, humilde e tem pitiú de maresia. Mas boa, boa como o pão!”. Schmidt fala da velha figueira que, segundo os antigos, fora mandada plantar pelo próprio Martim Afonso. A colossal figueira emitia eco de seu robusto tronco. A molecada chegava perto dela e gritava: “Você me quer bem?”, ao que a figueira “respondia”: “Bem”. Ou então: “Não gosta de anão?”, e a figueira: “Não”. Coisas antigas de Cananeia. Sobre o lendário tesouro da Ilha do Bom Abrigo, Schmidt ouviu do velho Lolô a seguinte história. A galera “Havelock”, comandada pelo capitão Bow-Legged, tinha vindo do Pacífico, depois de aventuras na Argélia. Ao se aproximar do Bom Abrigo, a galera bateu nas pedras e ficou encalhada. Salvaram-se apenas o capitão, o grumete Sharp (de uma escuna inglesa saqueada) e meia dúzia de marinheiros. O velho Lolô garantia que a galera naufragara na Ponta de Leste, onde, nos tempos de dantes, existiam armações de baleias. O avó de Lolô, de alcunha Piropava (curiosamente semelhante a “Peroupava”, antigo bairro de Iguape) encontrara os destroços da galera. Os pescadores chamavam o local de “Saco da Galera”. De pistola em punho, Bow-Legged obrigou os marujos a transportarem as arcas para a praia. Segundo pelo jundu, chegaram a um barranco, onde o capitão obrigou a marujada a escavar um túnel de duas braças de profundidade, no qual as arcas foram depositadas. À noite, quando todos dormiam, menos Sharp, o capitão se livrou dos grumetes à machadinha. Sharp conseguiu fugir para o continente. Depois seguiu para o Rio Grande do Sul. Registrou todos os detalhes do esconderijo do tesouro em um pergaminho. No ano seguinte, doente e prevendo morte próxima, procurou um medico, que tratou dele por alguns meses. Em agradecimento, Sharp deu ao médico o pergaminho que, mesmo guardando-o, não lhe deu grande importância. Casando uma filha, o médico presenteou-a com o pergaminho. Passados cinqüenta anos, viúva, a senhora visitou, em São Paulo, o professor Eduardo Pereira, que ficou com o documento. Em 1910, o Dr. Carlos Pereira, filho de Eduardo, foi até a Ilha do Bom Abrigo, acompanhado pelo coronel Meireles, da Secretaria da Justiça, de juízes e um ministro do Tribunal. De pergaminho em punho, localizaram o local do tesouro, mas, para a decepção geral, não conseguiram localizar o dito cujo... A Ilha do Bom Abrigo é cheia de lendas. Dizem que vagam por lá assombrações, fantasmas com grilhões, ouvem-se soluços profundos, cochichos, rezas, pragas, uivos, gritos lancinantes. Certa feita, marinheiros de um navio norueguês decidiram pernoitar na ilha. Viram e ouviram coisas monstruosas, que os deixaram apavorados. Não pensaram duas vezes e voltaram ao mar. No antigo farol, contam que vultos misteriosos subiam pelas escadarias sob a luz bruxuleante do luar... São histórias da velha Cananeia.
Escrito por Roberto Fortes às 11h34
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O "Credo" de Dostoiévski 
Quando pensamos na figura de um homem atormentado vem-nos à mente, invariavelmente, o escritor russo Fiódor Dostoievski. Autor de obras-primas da literatura universal – cito apenas “Crime e Castigo”, a minha preferida, apesar de todos os seus romances serem impecáveis –, Dostoiévski teve uma vida mais cheia de baixos do que de altos.
Na literatura, ainda em vida, obteve a consagração. Na vida íntima, seu primeiro casamento foi um fracasso. Libertário, amargou anos de exílio na Sibéria, entre 1849 a 1854, de cuja experiência sofrida resultou o autobiográfico “Recordações da Casa dos Mortos”. Partidário do círculo Petrashevsky, grupo de intelectuais liberais que lutava contra o regime opressor do czar Nicolau I, quando estava encerrado na Fortaleza Pedro e Paulo, ainda em São Petersburgo, Dostoiévski escreveu uma “Explicação” para a sua prisão:
“Mas de que sou acusado? Evidentemente de ter falado em política, no Ocidente, na censura, etc. Mas quem não falou e não pensou nesses assuntos em nossa época? Por que estudei, por que o conhecimento despertou minha curiosidade, se não tenho o direito de expressar minha opinião?
Antes de serem enviados à Sibéria, Dostoiévski e seus companheiros tiveram que passar por uma simulação de fuzilamento. Foram todos colocados em posição, mas na hora do “fogo”, não houve fuzilamento. Foi uma maneira de o czar humilhá-los ainda mais e demonstrar uma duvidosa “clemência”. Momentos antes, Dostoiévski (um cristão sincero, mas hesitante) disse ao seu amigo Nikolay Speshnev: “Estaremos em Cristo”. Seu amigo, ateu convicto, respondeu: “Acabaremos como um punhado de pó”.
Quando ainda prestava serviços no 7º Batalhão, na Fortaleza de Semipalatinski, no Cazaquistão, escreveu uma carta para sua amiga Natalya Fonvizinha, onde testifica sua crença em Cristo e fala de seu “Credo”:
“Digo-lhe que sou um filho do século, um filho da descrença e da dúvida. Sou isso hoje (e sei disso), assim serei até o túmulo. Quanta terrível tortura esta sede de fé me custou e me custa ainda agora, tornando-se ainda mais forte em minha alma quanto mais argumentos descubro contra ela. No entanto, às vezes Deus envia-me momentos em que me sinto totalmente calmo; nesses momentos, amo e sinto-me amado por outros e é nesses momentos que moldei para mim um Credo onde tudo é claro e sagrado para mim. Este Credo é muito simples, ei-lo: acreditar que nada é mais belo, profundo, solidário, razoável, viril e mais perfeito do que Cristo; e digo a mim mesmo com um amor ciumento não só que não há nada, mas que não pode haver nada. Mais ainda, se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo do que com a verdade.”
Palavras de Dostoievski.
Escrito por Roberto Fortes às 16h02
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"Cananeia, o primeiro povoado do Brasil" O escritor e pesquisador Ídolo de Carvalho, autor de “Aconteceu em Cananeia” (2006), acaba de lançar mais um livro: “Cananeia, o primeiro povoado do Brasil – A Saga do Bacharel – A Verdadeira História”, pela Editora Solis. O livro, ao longo de suas 132 páginas, em primorosa edição, cativa o leitor do princípio ao fim, pela prosa fluente e muito em embasada historicamente de Ídolo de Carvalho, que pesquisou imensa bibliografia aqui no Brasil e em Portugal. O livro pode ser adquirido no site da editora: http//:solislivraria.com.br, ao preço de R$ 29,90. Contato com o autor: idolodecarvalho@yahoo.com.br. 
Escrito por Roberto Fortes às 12h59
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Roberto Fortes toma posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo Em concorrida cerimônia realizada no Salão Nobre do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), no dia 25 de janeiro, em comemoração aos 458 anos de fundação da cidade de São Paulo e dos 450 anos da morte do cacique Martim Afonso Tibiriçá, o jornalista, historiador e escritor Roberto Fortes, editor da Tribuna de Iguape, tomou posse como sócio titular dessa centenária instituição.
Juntamente com nosso editor, tomaram posse outros doze novos sócios: Alfredo Duarte dos Santos, Carmen Lúcia Vergueiro Midaglia, Douglas Rodolfo Nascimento, Eduardo Conde, Érico Storto Padilha, Hagop Kechichian, João Tomás do Amaral, Luiz Carlos Pacheco e Silva, Manuel Alceu Affonso Ferreira, Marcos da Costa, Milton Luiz Festa Basile, Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, Rogério Lindenmeyer Vidal Gandra da Silva Martins e Tales Castelo Branco e Rui Miguel da Costa Pinto (de Portugal).
A solenidade teve como mestre de cerimônias Pedro Paulo Penna Trindade, sendo o Hino Nacional cantado em guarani pelo mestre Robson Miguel. Usaram da palavra a presidente Nelly Candeias, o ex-embaixador José Gregori, Rui Miguel da Costa Pinto, Manuel Alceu Affonso Teixeira, em nome dos sócios empossados, e Hernâni Donato. O belo poema “Oração à Cidade de São Paulo”, do poeta Paulo Bonfim, foi declamado por Penna Trindade.
Presidido pela Profª Nelly Martins Ferreira Candeias e tendo o historiador Hernâni Donato como presidente de honra, o IHGSP foi fundado no dia 1ª de novembro de 1894 e reuniu entre seus fundadores a nata da intelectualidade paulistana da época, entre os quais, Alfredo Ellis, Antônio da Silva Prado, Carlos de Campos, Carlos Botelho, Cincinato Braga, Domingos Jaguaribe, Estevão Bourroul, Ramos de Azevedo, Rodrigues Alves, Francisco Glicério, Von Ihering, Horace Lane, Campos Salles, Orville Derby, Prudente de Moraes, etc.
O IHGSP tem como propósito o estudo e o desenvolvimento da História e Geografia do Brasil e principalmente do Estado de São Paulo e, bem assim, ocupar-se de questões e assuntos literários, científicos, artísticos e industriais, que possam interessar o país sob qualquer ponto de vista; publicar uma revista anual dando conta da vida da associação e na qual são publicados trabalhos de incontestável importância histórica, literária e cultural; manter correspondência e relações com as sociedades congêneres, nacionais e estrangeiras.
“Para mim é uma grande honra poder fazer parte dessa histórica entidade, tão cara a São Paulo e ao Brasil’, disse Roberto Fortes. “Quero dedicar essa honraria à minha querida Iguape, que sempre foi tema de minhas investigações históricas. Que a história de Iguape e do Vale do Ribeira, possa, a partir de agora, através do IHGSP, ser melhor conhecida em nosso país e no resto do mundo”. 
Roberto Fortes com Hernâni Donato, presidente de honra do IHGSP.

Roberto Fortes com Nelly Candeias, presidente do IHGSP.

Roberto Fortes, ao lado de outros sócios e, ao fundo, grande público que prestigiou o evento.
Escrito por Roberto Fortes às 19h47
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Morre anos 87 anos o historiador Paulo Laragnoit 
O historiador Paulo Laragnoit, em 2007.
Faleceu aos 87 anos, no dia 4 de dezembro último, o historiador, professor e artista plástico Paulo de Castro Laragnoit, um dos maiores vultos da inteligência valerribeirense de todos os tempos. Nascido na antiga Prainha no dia 24 de dezembro de 1923, o professor Paulo de Castro Laragnoit era filho de Pedro Laragnoit e dona Clara de Castro Laragnoit. Pelo ramo paterno, é bisneto do fundador de Miracatu, o francês Pedro Laragnoit, que doou as terras onde foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Prainha. Aos seis anos, aprendeu a ler e a escrever com o seu primo Salú, que era professor formado pela Escola Normal de Itapetininga. Aos oito anos, entrou na Escola Mista de Prainha. Ao completar 13 anos, foi estudar em São Carlos. Estudou na Escola de Comércio São Carlos, do francês Julien Fauvel, de vasta bagagem intelectual. Formou-se em Ciências Contábeis no ano de 1943. Na cidade de São Carlos, Paulo Laragnoit trabalhou no Escritório de Contabilidade do sr. Bento Carlos de Arruda Botelho, descendente dos fundadores de São Carlos, e na Casa Schiavone. Ingressou no funcionalismo público em 1946, como escrivão, na Coletoria Estadual de Miracatu. Foi responsável pelo expediente do Posto Fiscal anexo à Coletoria e pela Caixa Econômica Estadual, também anexa. Aposentou-se após 35 anos de serviço, no cargo de coletor estadual. Foi convidado para chefiar a Inspetoria de Arrecadação, mas não aceitou o convite porque teria que se transferir para Santos, e não desejava deixar a sua velha Prainha. Pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Registro diplomou-se em Estudos Sociais. Lecionou na Escola Estadual “Prof. Armando Gonçalves”, na Faculdade de Registro e em escolas de Juquiá e Miracatu. Na política, exerceu o mandato de vereador no período legislativo de 1957-1960, ocupando o cargo de presidente da Câmara. Como vereador liderou uma campanha para a construção do primeiro jardim público de Miracatu. Quando se cogitou, em 1957, do fechamento da Escola Estadual “Armando Gonçalves”, cujo prédio estava em condições precárias, na qualidade de presidente da Câmara, o vereador Paulo Laragnoit, num encontro em Pariquera-Açu, solicitou ao governador Jânio Quadros para que construísse um prédio destinado ao ginásio. Jânio Quadros despachou favoravelmente. Mas não havia terreno nem dinheiro. Aí então começou a campanha do “Conto de Réis”: cada família miracatuense que tivesse condições emprestava à Prefeitura Municipal um conto de réis. Foi dessa maneira que a Prefeitura pagou ao cidadão Kahei Nakamura a primeira prestação do terreno do ginásio. Foram elaboradas duas listas (Biguá e Miracatu), sendo responsáveis Paulo Laragnoit e Seijó Onaga. Como historiador, Paulo Laragnoit esmiuçou os cartórios da região, o Fórum de Iguape, os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Arquivo do Estado e Cúria Metropolitana de São Paulo. Publicou os seguintes livros: “A Vila de Prainha” (1961); “A Vila de Prainha”, 2ª edição, revista e ampliada (1984); e “Histórias do Vale da Esperança” (1991), que faz parte da biblioteca da Seção Genealógica do Grupo Air France-Paris; “Laurindo de Almeida e a Vila de Prainha” (2006); “Centenário da Imigração Japonesa - 1908-2008” (2008); “Quatro mãos... Duas Cabeças... Um Só Coração” (2011), em coautoria com João Joaquim Vicente Leite; além de inúmeros artigos publicados nos jornais da região. Como pintor, Paulo Laragnoit participou de diversas exposições, entre as quais: I Exposição de Pintura na Escola “Armando Gonçalves” (1978); Exposição de Fotografias Antigas, no Banco do Brasil (1983); Exposição de Pinturas “Memória de Uma Cidade”, também no Banco do Brasil (1983); Exposição do Lions de Artes Plásticas no Memorial da América Latina. Em 1973, promoveu a Exposição Comemorativa do Centenário da Paróquia de Miracatu. Participou ainda dos três Salões de Artes Plásticas realizados pela Prefeitura de Miracatu, em diferentes ocasiões, além de outras mostras no Vale do Ribeira. Em abril de 1977, Paulo Laragnoit e sua esposa, a saudosa professora Marina Natal Laragnoit, elaboraram a bandeira de Miracatu, que foi hasteada pela primeira vez no dia 17 de abril daquele ano, por ocasião da inauguração do novo edifício do Fórum de Miracatu. Um dos pontos culminantes da carreira de Paulo Laragnoit foi a criação do Museu Municipal “Pedro Laragnoit”, oficializado pela Prefeitura de Miracatu em 1983, quando o historiador doou, por escritura pública, todo o acervo que constitui o patrimônio do museu. Antes de ser oficializado, o museu funcionou, em caráter particular, por mais de 20 anos. Paulo Laragnoit exerce a função de diretor vitalício do museu, honraria mais do que merecida. Muitas foram as homenagens que lhe foram conferidas ao longo de sua vida pública. Em 1978, o deputado Vicente Botta consignou na ata da Assembleia Legislativa “um voto de congratulações com a população de Miracatu pela criação do Museu Municipal”. Note-se que nessa época o museu ainda era particular. Escritor e poeta dos mais inspirados, em 1984, tomou posse na Academia Eldorado de Letras, passando a integrar a Casa de Francisca Júlia, sob os auspícios do poeta João Albano Mendes da Silva (J. Mendes). Também nesse ano ingressou na Academia de Letras Municipais do Brasil. A segunda edição de seu livro “A Vila de Prainha”, mereceu, em 1984, da Câmara Municipal de São Carlos, “um voto de calorosos aplausos”. Sobre o seu livro “Histórias do Vale da Esperança”, escreveu, em 1992, o embaixador da França no Brasil: “Espero que esse livro desperte o interesse, alcance e sucesso que merece, e que Miracatu conserve, graças ao senhor, a memória de suas raízes francesas”. A família Laragnoit é originária da cidade de Nay, na França, onde se acha radicada desde 1385. Desde 1986, Paulo Laragnoit é comendador, recebendo o grau cavalheiresco da Câmara Brasileira de Difusão das Ciências Sociais e Internacionais, conjuntamente com o Centro de Estudos de Ciências Jurídicas e Sociais do Brasil. Dessas entidades recebeu também o troféu “Gente Humana Internacional”. Ainda em 1986, recebeu da Câmara Municipal de Miracatu a medalha de honra ao mérito “Prefeito Joaquim Dias Ferreira”. Desde 1991, é “grande oficial” do Centro de Estudos de Ciências Jurídicas e Sociais do Brasil. Em 1993, passou a fazer parte da Associação Pró-Casa do Pinhal, que tem por finalidade dar apoio à conservação e manutenção da sede da antiga Fazenda Pinhal, célula-mater do município de São Carlos, preservando e divulgando o importante acervo historiográfico e paisagístico nela contido. Genealogista emérito, Paulo Laragnoit é sócio do Instituto Genealógico Brasileiro, de São Paulo, e do Colégio Brasileiro de Genealogia, do Rio de Janeiro. Em 1996, iniciou a elaboração de um livro sobre a vida de Laurindo de Almeida, consagrado violonista brasileiro, nascido em Miracatu, que ganhou por cinco vezes o “Grammy”, o maior prêmio da música nos Estados Unidos. O livro está prestes a ser publicado. Foi casado com a professora Marina Natal Laragnoit, já falecida, não deixando filhos desse casamento. Descanse em paz, querido amigo Paulo Laragnoit, guerreiro da história e da cultura valerribeirense! 
Museu Histórico de Miracatu. 
Acervo do Museu de Miracatu. 
Acervo do Museu de Miracatu.
Escrito por Roberto Fortes às 21h33
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O acendedor de lampiões 
Acendedor de lampiões no RJ. O sino da igreja anunciou a hora da Ave Maria. Os primeiros raios do crepúsculo começavam a cair sobre a pacata cidade. Pelo Largo da Matriz caminhava um homem magro, o bigode generoso, à cabeça um boné surrado, arrastando os passos de uma vida cansada. Com uma das mãos, carregava às costas pequena escada de madeira; na outra mão, levava sacola com os petrechos de seu mister. Ao passar em frente ao Bar do Chaves, o dono fez sinal para ele entrar e tomar um café. Declinou do convite com um manear de cabeça que poderia significar “agora não posso’ ou “deixe pra mais tarde”. Estava atrasado.
Saíra cabisbaixo de casa, a companheira novamente lhe cobrara um metro de chita para o vestido da primeira comunhão da filha. O dinheiro, mal entrava, já ficava no armazém do Collaço. A Câmara Municipal pagava o serviço de iluminação pública a cada dois meses, após o envio das contas à comissão competente para ser votada em sessão ordinária. Ele desconfiava que os vereadores adiavam de propósito o pagamento de suas contas.
Decerto pensassem que era peixinho do Coronel Biallé. Negava isso a todos. Não era peixinho de coronel nenhum. Nem do Coronel Jeremias, que mandava na cidade desde 1900. Pobre não tem que ser peixinho de ninguém. Tem é que morder a isca no anzol que lhe atiram. Não viera de Paranaguá há quinze anos para, em Iguape, se meter em disputas de facções políticas. Ficava quieto em seu canto e só abria a boca para pitar seu fumo de corda ou para beber uma dose de “Cristiano”.
Começou pelo poste em frente ao palacete do Capitão Moutinho. Encostou a escada no poste, abriu o saco de petrechos, pegou o vasilhame de querosene e um pavio novo. Retirou o globo de vidro, despejou um pouco de querosene no reservatório do lampião, trocou o pavio, riscou um fósforo, que o vento leste logo apagou, riscou outro e, agora com êxito, acendeu o pavio.
De poste em poste, foi acendendo, um a um, todos os lampiões do Largo da Matriz, até chegar ao sobrado do Coronel Jeremias. Tratou de caprichar na quantidade de querosene para que o lume durasse até o amanhecer, e colocou um pavio encorpado para que a luz iluminasse melhor o entorno. Na sacada do sobrado, o coronel cumprimentou-o formalmente, levantando a aba da cartola com um dedo.
Terminado o serviço no Largo da Matriz, seguiu para a rua da Palha, dali para a rua do Campo, de onde desembocou no Largo do Rosário; voltou pela rua da Glória e dali foi para o Beco dos Quatro Cantos e Largo de São Benedito. A noite já caíra por completo.
Na descida dos Quatro Cantos, após acender o lampião da esquina, sentou-se na calçada de pedra para descansar. Ouviu, ali por perto, os tambores do jongo que dona Marica Bruno e amigas dançavam, depois da dura lida diária batendo arroz no engenho do Capitão Hipólito. Acompanhou o jongo com os pés, ao mesmo tempo em que se lembrava da congada que, em menino, acompanhava desde as bandas da Folha Larga e que parava em frente à Igreja de São Benedito. A festa do santo era no dia 26 de dezembro.
Levantou-se e desceu o beco. No Largo de São Benedito, acendeu todos os lampiões. Só o que ficava em frente ao Sobrado dos Toledo deixou sem lume – esquecera de trazer mais pavios novos.
Lá pelas nove horas da noite, retornou para casa, nos lados da Misericórdia. A companheira e a filha já haviam jantado, dormiam sono avançado, acomodadas nas esteiras de piri. Comeu o resto do peixe frito que sobrara, acompanhado de um punhado de arroz. Deu umas pitadas e se deitou na esteira, ao lado da companheira. Estava cansado. Amanhecendo o dia, sairia pela cidade, seguindo o mesmo trajeto de todos os dias, de segunda a domingo, para apagar o lume dos lampiões que ainda estivessem acesos.
Antes de pegar no sono, lembrou que amanhã à tarde haveria sessão da Câmara. Era bem possível que autorizassem o pagamento do serviço do mês retrasado. Se saísse o dinheiro, passaria na loja do Capitão Floramante e compraria não um, mas dois metros de boa chita para o vestido de comunhão da filha.
Escrito por Roberto Fortes às 11h52
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Waldemar de Assis Freitas No início da década de 1980, eu era assíduo colaborador da sempre lembrada “A Tribuna do Ribeira”, um grande jornal, feito com muito profissionalismo, que pertencia ao grupo “A Tribuna”, de Santos. Mesmo não passando de um mero gastador de tinta, até que eu tinha fiéis leitores, que semanalmente liam as edições do jornal. Entre eles, estava o sr. Waldemar de Assis Freitas, então morador em Jacupiranga. Em 1983, Waldemar publicou na “A Tribuna do Ribeira” o artigo “Os coronéis do Vale”, no qual traçou um ligeiro painel sobre o assunto, citando, inclusive nominalmente, diversos vultos do Vale do Ribeira que foram agraciados com esse título concedido pela extinta Guarda Nacional. Em edição posterior, escrevi o artigo “Ainda os coronéis”, no qual complementava as informações de Waldemar. Foi o bastante para ele me enviar uma carta, datada de 23 de abril daquele ano, onde agradecia as minhas considerações e dava início a uma troca de correspondências que se estenderia por alguns anos. Note o leitor que “naquele tempo” (expressão mais saudosista, hein, leitor? será que estou envelhecendo?...) as correspondências eram exclusivamente à base de cartas escritas a mão ou à máquina de escrever e remetidas via Correio. Não existiam essas modernidades como e-mail, msn, facebook e outras parafernálias virtuais que nos aproximam rapidamente das pessoas, mas que também nos deixam quase loucos pelo ritmo alucinado que imprimem às relações entre seus usuários. Nessa primeira carta, Waldemar falava de sua genealogia. Natural da Barra do Batatal, na velha Xiririca, descendia das famílias Freitas e Castro e Canto. Sua avó materna era da família Castro e Canto (a mesma da Marquesa de Santos, Domitília de Castro e Canto Melo), e se casou com um jovem italiano da família Giani. Waldemar morou em Iguape quase dois anos, lá pelos idos de 1918/1919, tendo estudado no Grupo Escolar local, que naquela época ainda não se chamava “Vaz Caminha”. “Lembro-me bem de Iguape”, escreveu Waldemar, “que naquele tempo era uma cidade muito movimentada e bonita. Ficamos aí até depois da Festa do Bom Jesus em 1919, e então retornamos para a Barra do Batatal, onde nasci; por motivo de saúde, não pudemos nos dar com o clima daí. (...) Conheci Neco Fortes; seu Eurico Moutinho e sua mulher dona Adélia eram muitos amigos de nossa família. Conheci o coronel Jeremias Júnior e família, enfim muitas pessoas daí. A família Giani, de dona Iaiá, todos eram nossos parentes. Conheci muito os França (Melico, Onésio, Esbelto). Conheci José Giani, que era casado com Sinhá, filha do Augusto Rollo. (...)” Em carta datada de 10 de maio, Waldemar se espanta com a minha juventude: “Fiquei surpreso com a sua idade. Julguei que fosse mais velho. Você está na plenitude da vida, em que o homem começa a ter visão das grandezas de Deus, que fez este mundo maravilhoso. 20 anos, idade em que o nosso coração começa a expandir seus sentimentos com relação ao sexo frágil. Amar, que sentimento sublime. Nossa alma torna-se um grande manancial de esperanças, de alegria, de um desejo ardente de vencer na vida. Que idade linda, eu também já tive a ventura de viver esse tempo feliz de nossa existência. Chega, meu amigo, puxa, hoje amanheci inspirado...” “Impossível comparar minha idade com a sua, mas isso não vai impedir de sermos amigos e, de agora em diante, mantermos relações culturais por carta. Ainda tenho muito a te contar de minha vida, que dava para escrever um livro... Mas eu, modéstia à parte, não pareço ter a idade que tenho, todos me dão menos 30 anos. Ainda mantenho o entusiasmo da mocidade, e parece que meu espírito é jovem. Acontece que tenho um espírito meio infantil, enfrentei a vida e venci todos os obstáculos sem muito me preocupar com o dia de amanhã. Dizem que a preocupação na vida do homem é que o desgasta. Tem também diversos fatores que influem na minha vida para me deixar sempre moço e entusiasmado. Vivi 50 anos no campo, respirando o ar puro das matas, sempre levantei cedo e dormi cedo. Sempre pratiquei esportes, gosto muito de nadar; lá onde morava tinha o ribeiro com seu afluente rio Batatal, que cortava nossa propriedade, onde eu, todas as manhãs, exceto quando chovia ou o rio enchia, dava meus mergulhos, pulando da prôa de uma canoa, recebendo um choque maravilhoso das águas geladas, mesmo no inverno. Sempre fiz minhas caminhadas logo cedo, às vezes até de madrugada, andava 4 km e depois mergulhava. Dizem que isso prolonga a vida. Fui bem criado; meu saudoso pai nos tratava a pão e leite.” Na época em que mantínhamos constante correspondência, Waldemar morava no Porto do Lameu, em Jacupiranga. Até que um dia ele deixou de me escrever e nunca mais tive notícias a seu respeito e, devido à correria da época (faculdade, jornal, trabalho, etc), e também devido à deficiência das comunicações, não tive condições de localizar o seu paradeiro. Se algum leitor de Eldorado ou Jacupiranga souber algo de Waldemar ou de sua família, peço a gentileza de entrar em contato pelo e-mail no alto desta coluna.
Escrito por Roberto Fortes às 12h13
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Do diário inconcluso de Ary Giani Ary de Moraes Giani foi um dos maiores vultos do Vale do Ribeira. Nasceu na velha Xiririca (hoje Eldorado) em 1913, viveu muitos anos em Iguape, onde foi comerciante e publicou jornais e revistas, e veio a faleceu em Santos, onde também teve destaque, em 2005. Jornalista, historiador, político, agitador cultural, através de seus contatos políticos e de seus artigos publicados nos jornais de Santos, conseguiu diversos melhoramentos para a região. Durante muitos anos mantive constante correspondência com esse ilustre valerribeirense, através de cartas onde sempre tratávamos, além da história regional, também de seus problemas antigos e atuais. Durante vários anos, Ary Giani publicou na “Tribuna de Iguape”, da qual sou editor, capítulos de seu livro “Iguape, Cidade da Fé, Morada da Esperança”, publicado originalmente nas colunas do jornal “O Diário”, de Santos, em 1956. Pouco tempo antes de falecer, Ary Giani me doou o seu valioso arquivo histórico, constituído de jornais, documentos e fotografias de Iguape e região, material que sempre utilizo para minhas pesquisas históricas e que também disponibilizo a outros pesquisadores. Dentre esses documentos estava um esboço de diário que Ary Giani começou, mas que, por razões que desconheço, não deu prosseguimento. Como uma homenagem ao bravo guerreiro do Vale do Ribeira publico aqui as notas esparsas sobre a sua infância e juventude. “Meus netos, aqui procurei registrar uma história que começou há mais de um século e meio. A razão talvez esteja ligada à morte física que se aproxima. Quem, após setenta e três anos bem vividos, não tem por objetivo esperar o fim de seus dias neste palco imenso cumprindo como uma obrigação, [mas] terminar antes um objetivo maior? Pois assim é para mim: meu grande desejo, meu maior objetivo, sempre foi deixar como lembrança uma síntese do que mais gostei de fazer. (...) “Você lembra do seu primeiro dia na escola? O meu primeiro dia foi no longínquo 1921, mesmo ano em que mudamos do Largo do Rosário para a Rua Paulo Moutinho. Nesse dia, lembro bem, vestia uma calça nova que ia até os joelhos e uma blusa com gola de crochê engomada circundando [o pescoço]. Estava ansioso. Queria ver por dentro o prédio do Grupo Escolar Vaz Caminha. As carteiras eram de madeira envernizadas com pés de ferro. (...) “Da esquina da Rua Capitão Dias para o Funil de Cima e voltando até a esquina da Rua Tiradentes, antiga da Palha, e desta fechando o cerco da Paulo Moutinho, tinha a loja de papai [Francisco Giani], Antônio Collaço, residência do Cordeiro, açougue, tabelião J. Santos [etc]. (...) “Meu pai, carioca nascido, conservador agora, mas [era] temido como inimigo político nos idos de 1909 a 1925, quando se situava entre os adversários dos governantes. (...) “Sempre fui um péssimo jogador de futebol. O treinador do “Esperança Futebol Club” era o Satyro [de Oliveira], funcionário da oficina Matarazzo, que a esse tempo mantinha em Iguape uma filial e uma indústria de beneficiamento de arroz. O campo era ali perto, na Praça do Rosário (Duque de Caxias), em frente ao campo do “Iguape F. Club”. Certa tarde, fui chamado pelo Satyro para treinar entre os componentes do primeiro time. (...) “Em julho de 1921, lembro muito bem, mudamos para a nova casa à rua Paulo Moutinho (antiga General Glicério), nº 1. Papai, desde fevereiro, vinha acompanhando a reforma geral que ordenara na antiga residência do Joaquim César da Rosa Peniche (o capitãozinho). O prédio, de construção sólida, tinha a mesma altura do sobrado do outro lado da rua.” (...) As anotações de Ary Giani terminam aqui. Lamento que o notável jornalista não tenha dado continuidade a esses apontamentos. Por outro lado, ele deixou a história de sua vida muito bem registrada no anais do Vale do Ribeira.
Escrito por Roberto Fortes às 12h12
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Machado de Assis, hoje e sempre Estou relendo os principais livros de Machado de Assis, aqueles da fase realista, iniciada com o saboroso “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), que recebeu rasgados elogios de Harold Bloom, de “O Cânone Ocidental”, considerado o mais importante crítico literário da atualidade. Na sequência, reli “Quincas Borba” (1891), que é quase uma continuação do anterior (mas menos inspirado); “Dom Casmurro” (1899); “Esaú e Jacó” (1904); e “Memorial de Aires” (1908), este o derradeiro trabalho do recatado e recluso “Bruxo do Cosme Velho”. Machado de Assis tem momentos de rara inspiração e outros próximos a mais pura divagação. Mesmo não sendo um crítico literário, creio que Machado, antes de ser um ótimo romancista, é um inigualável contista. Aliás, tenho para mim que, excetuando “Memórias Póstumas”, os demais romances, extirpadas as divagações, dariam contos excelentes, entre os melhores da literatura universal. Cada escritor tem a sua maneira peculiar de escrever. Uns são rebuscados, preciosistas; outros têm na simplicidade do estilo a chave para conquistar os leitores. Na virada do século XIX para o século XX, Coelho Neto era um dos escritores mais festejados, e dividia com Machado de Assis os louros do público e da crítica. O primeiro era castiço ao extremo, conforme podemos comprovar pelo parágrafo inicial de seu livro “O Paraíso” (1898): “Feliciano Themistocles Sardinha, neto de ferrador e filho de tamanqueiro, teria continuado a tradição calcante de seus maiores, apurando-a ao tambo, diante da tripeça, com a sola e a sovelha, o bisegre e a bucha, se a mãe, zarelho feixe d´ossos ligado a nervos, não o houvesse subtraído ao meio achavascado das falcas e das maravalhas, matriculando-o em uma escola pública da vizinhança, com recomendação ao mestre, caolho mal encarado, para que ´puxasse por ele, cascando-lhe sem pena quando fosse preciso´”. Já Machado de Assis, com seu estilo despojado, inicia assim “Dom Casmurro” (1899): “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso”. Resumindo: Machado de Assis, com seu estilo simples, mas refinado, transformou-se num clássico da língua portuguesa. Já o castiço Coelho Neto foi atirado ao limbo, junto com suas tripeças, sovelhas e bisegres... Falando em Machado de Assis, adquiri há tempos, num sebo da internet, o livro “Conceitos e Pensamentos de Machado de Assis” (1925), uma seleção de frases lapidares e interessantes do “Bruxo do Cosme Velho”, compiladas, dentre todos os livros de Machado, pelo escritor e poeta Júlio César da Silva (1872-1936), o talentoso e tão injustamente esquecido irmão de Francisca Júlia. Fruto de exaustivo e metódico estudo da obra machadiana, esse livro é uma prova inquestionável do aparato intelectual do escritor valerribeirense, que venho lutando para reabilitar como um dos principais autores da Belle Époque paulistana. O interessante na vida de Júlio César que é ele foi seminarista, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, mas nunca advogou. Largou tudo, foi ser artista de circo e trabalhou nos palcos da Argentina e Uruguai. Ingressou, mais tarde, na Prefeitura de São Paulo, onde se aposentou. Militou na imprensa paulistana por mais de trinta anos, colaborando com inúmeros jornais e revistas. Monteiro Lobato o tinha em alta conta, e dedicou-lhe sincero artigo quando de sua morte, inserido mais tarde num de seus livros.
Escrito por Roberto Fortes às 12h11
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Quando o assunto é falta de assunto... Quando um cronista não tem assunto para escrever sua crônica semanal, vê-se obrigado a gastar tinta com trivialidades, banalidades, que, na verdade, são a própria essência da vida. Dizem os doutos que a quase totalidade de nossas vidas é permeada pela mesmice, havendo pouquíssimos fatos ou acontecimentos que retiram à vida toda sua rotina cotidiana. Ou seja, somos filhos da rotina, netos da mesmice, bisnetos do repeteco. O Eclesiastes, fonte de fina sabedoria, reza que tudo o que vivemos, hoje, já foi vivido por nossos ancestrais, e que tudo não passa de “vaidades das vaidades, e tudo é vaidade” (“Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”). Proust, no seminal, mas chatíssimo, “Em Busca do Tempo Perdido”, gastou nada menos que trinta páginas para descrever o ato de o personagem levantar-se da cama. Joyce “enrolou”, ao longo de 800 páginas, em “Ulisses”, a trajetória da personagem central, durante 24 horas, pelas ruas de Dublin. Parece que foi Borges quem disse que não escreveria um romance se poderia muito bem escrever um conto; ou seja, para que “enrolar” ao longo de centenas de páginas aquilo que poderia ser dito (e escrito), no máximo, em cem páginas? Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”, escreve sobre as trivialidades de suas personagens em pouquíssimas linhas, em minicontos, ou mesmo microcontos, que, por menores que sejam, não deixam de nos impactar. Alguns críticos, ferinamente, ou despeitadamente, dizem que o romance “O Alquimista”, de Paulo Coelho, daria um excelente conto; “espichado” para duas centenas de páginas, teria perdido o seu encanto. Tenho quase todos os livros de Coelho (que comprei, numa promoção, em banca de jornal) e, se não li todos, ao menos gostei de um deles, “Onze Minutos”, uma boa história, muito bem conduzida. Agora, “Diário de Um Mago”, “Brida” ou “O Demônio e a Srta. Pimm”, não consegui passar dos primeiros capítulos. Bem, não sejamos tão trágicos. Nem sempre os contos são tão bons quanto os romances. O menor conto do mundo, atribuído a Augusto Monterroso, não pode ser considerado nenhuma obra-prima: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Agora, podemos perceber toda a tragédia que salta deste miniconto de Hemingway: “Vendem-se: sapatos de bebê, sem uso”. Ou neste de Dalton Trevisan: “Ao ver o pacote de bala azedinha na mão da mulher:/ – Assim não há dinheiro que chegue./ E um pontapé na traseira do piá de três aninhos”. Também já escrevi vários minicontos, que por respeito ao estômago do prezado leitor, prefiro deixar muito bem guardados dentro da gaveta de minha escrivaninha. Um deles é este: “No envelope perfumado que o carteiro enfiou debaixo da porta, reconheceu a caligrafia que ela tentou falsificar”. E também este, que já fez parte de antologia literária virtual, intitulado “O eu no espelho”: “Seria mais um dia como tantos outros. Mas aquele dia não foi como os outros. Ao acordar, sentiu que algo diferente estava se passando com ele. Saltou da cama, correu até o espelho. Ficou petrificado. Já não era mais ele. Estava agora dentro do espelho. E de dentro do espelho observava o outro que acabara de saltar da cama e plantar-se atônito diante do espelho”. Rascunhei, ainda, outros contos (ou aspirantes a contos), que não passaram das primeiras linhas, quer por falta de inspiração, ou mesmo por uma bem-vinda autocrítica, que não permitiu o término de textos tão mal escritos. E ficamos hoje por aqui.
Escrito por Roberto Fortes às 12h10
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11 de setembro e a ameaça terrorista Alguns historiadores acreditam que o século XX começou apenas em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, conflito que se estendeu até 1918, período em que o mundo entrou em turbulências que resultaram em mudanças radicais na sociedade, nos costumes, na moda, na tecnologia, na filosofia, na forma de se encarar o mundo e a vida propriamente dita. Outro divisor de tempo pode ser associado ao ataque terrorista às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, quando, na opinião de muitos, teve início o século XXI. Com o fim da chamada “guerra fria” entre as duas potências mundiais (Estados Unidos e União Soviética), esse atentado chamou a atenção do mundo a um mal que vinha se infiltrando em vários países do mundo há décadas: o terrorismo internacional. Não se considera aqui que vidas inocentes serão subtraídas. Importa apenas os fins, seja religioso ou político, pouco sendo relevante que os meios utilizados para conseguir seus intentos sejam bárbaros, desumanos, insensíveis. Já escrevemos aqui que a barbárie humana remonta ao Éden, quando Caim matou Abel por motivo fútil: teve inveja do irmão porque a oferta que este ofereceu a Deus foi aceita, ao passo que a sua não caiu nas boas graças Daquele que deu origem a ambos. Por inveja, por ressentimento, Caim foi responsável pelo primeiro assassinato. Desde então, os exemplos, bíblicos ou históricos, não deixam de ser inúmeros e diversificados. Mesmo tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano, depois da Queda, talvez não entendeu ou não aceitou que “Deus é amor”, portanto ele mesmo, o Homem, também deveria ser amor. O ódio parece que sempre teve primazia na história da Humanidade. Regimes ditatoriais vem sendo derrubados no Oriente Médio, dando origem a um momento histórico que é chamado de “Primavera Árabe”. Quem ainda não caiu é o presidente da Líbia, Muamar Gaddafi (ou Kadhafi), que já disse que só morto deixaria o poder. Os rebeldes estão dominando todo o país, Gaddafi já não tem mais controle da situação, pode estar escondido em algum “bunker” e, caso seja capturado, deve ter o mesmo fim que Saddam Hussein. É o triste fim dos ditadores. Mussolini foi um triste exemplo: depois de assassinado, seu corpo ficou exposto, amarrado pelos pés, durante alguns dias, em praça pública. Vivemos hoje num mundo turbulento. Revoltas, guerras, guerrilhas explodem em diversas zonas do planeta. O terrorismo internacional possui seus tentáculos em muitos países, não sendo nada improvável que terroristas também estejam infiltrados em nosso país, quem sabe articulando planos para a defesa de suas causas, políticas ou religiosas. Num país como o Brasil, com milhares de quilômetros de fronteiras e pouco efetivo militar para defendê-las da entrada ou saída de pessoas suspeitas, é de bom alvitre que fiquemos prevenidos. Dez anos depois da explosão das torres gêmeas, sempre paira no ar a pergunta que não quer calar: qual será o próximo atentado que mudará o curso da História?
Escrito por Roberto Fortes às 12h09
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Repensando a Festa de Agosto Muitos acreditam que o atual formato da “parte comercial” da Festa de Agosto, em Iguape, já está esgotado e ultrapassado. Sendo uma atividade meramente comercial (pois a parte religiosa é feita na Basílica do Bom Jesus), deveria ser tratada com mais profissionalismo. O lado religioso da festa, desde 1647, é simbolizado pela fé sincera de católicos devotos. Quanto ao lado comercial, não é tão antigo assim, datando das primeiras décadas do século XX. Infelizmente, pelo que se nota hoje, para muitos, o aspecto comercial assume maior relevo do que a religiosidade, sendo que boa parte dos visitantes limita-se a passear nas barracas, esquecendo-se de visitar a imagem entronizada na Basílica, que deu origem a essa grande Festa de Agosto.
Uma ideia que vem tomando vulto e ganhando adeptos na cidade é que seja aproveitada toda a área do Centro de Eventos, inclusive a área do fundo, que anos atrás serviu de estacionamento de ônibus, para ali instalar as barracas padronizadas da festa, talvez em menor número. O local seria todo calçado, com a construção de banheiros e dotado da devida infraestrutura.
No tocante à recepção aos visitantes, muitos romeiros reclamaram da cobrança dos ônibus que os transportaram até esta cidade para a Festa do Bom Jesus. O posto de cobrança foi instalado na entrada da cidade. No início, o valor cobrado era de R$ 250,00, depois baixou para R$ 125,00 por ônibus. Há lei municipal que dispõe sobre essa cobrança de ônibus de romaria. Entretanto, se os usuários trouxessem carta do pároco de origem nada seria cobrado. Interessante, porém, é que foi distribuído, nos dias da festa, folheto onde vereadores, ironicamente, desejavam “boas vindas aos romeiros”. “Barbaridade chê”, como diz o gaúcho.
O trânsito da cidade ficou caótico nos dias da Festa devido à grande quantidade de veículos que chegou. Como não houve bloqueio das ruas por onde passam as procissões, ocorreu o estacionamento de muitos veículos nas mesmas, sendo necessário grande esforço para a retirada nos dias 5 e 6 de agosto, em virtude das procissões.
Na Praça General Marcondes Salgado (em frente ao Sobrado do Santo), ficaram estacionados vários veículos atrapalhando as procissões. Para piorar ainda mais, não se “levantou” mão e contramão de várias ruas do Canto do Morro, dificultando o tráfego de veículos para a Ilha Comprida, Icapara e Barra do Ribeira por vias entulhadas.
Carretas que transportaram equipamentos pesados de parque de diversão perto da Concha Acústica (Orla do Mar Pequeno) destruíram o piso em mosaico português em vários lugares e o gramado adjacente. Havia tanta gente no chamado “apoio” andando para lá e para cá, mas ninguém impediu que essas enormes carretas subissem à praça e causassem a destruição ainda visível por quem passar por ali.
Eventos desse tipo devem ser realizados em locais fechados e dotados de infraestrutura. Isto é ponto pacífico. Ninguém aceita amadorismo hoje em dia. Mudando-se a parte comercial da festa para o Centro de Eventos, a Orla do Mar Pequeno não seria mais destruída a cada ano, nem o Lagamar serviria de depósito de lixo.
A remodelação da Festa de Agosto torna-se uma questão de honra, até mesmo para a própria permanência dessa histórica festa. A Administração Municipal precisa repensar esse evento com coragem e vontade política.
Escrito por Roberto Fortes às 12h08
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Eu e o Jornal Regional Conta a história familiar que aos quatro anos eu já desenhava o meu primeiro nome. Aos seis, entrei no Jardim da Infância, no então Grupo Escolar “Vaz Caminha”, antigo educandário fundado em 1894. Curiosamente, nesse grupo estudaram meus pais e avós, além de irmãos, primos e colaterais. Entre os meus primeiros professores estavam Mariazinha Young, Celinha Sant´Anna, Rita Paiva e Marise Trigo. Desde então, ficava observando meu pai ler as edições diárias de “O Estado de S. Paulo”, que ele assinou durante toda a vida. Meu pai pode ser definido como um autêntico intelectual, apesar de autodidata, pois encerrou seus estudos com o Curso Normal. Leitor ávido, tudo o que lhe caía às mãos era lido vorazmente: livros, revistas, jornais. Gostava principalmente de ler aqueles livros bojudos, de mais de 500 páginas, pois os de poucas páginas ele lia num piscar de olhos. Nada lhe escapava do conhecimento: tudo ele lia e tudo ele sabia. Desde literatura, política, humanidades, relações internacionais, e, principalmente, filosofia de vida. Muito do que ele dizia à época, e que eu não levava em conta, hoje percebo que ele estava certíssimo. Era tudo verdade, e eu é que ainda não tinha entendimento da vida. Já no Primário, eu apreciava de escrever redações, gosto que foi se aprimorando durante o Ginásio, quando escrevia pequenos contos que eram lidos por meus colegas. Escrevia em folhas de caderno, e até mesmo em papel de pão. Aos doze anos, ganhei de meu avô Paulo uma bela e bojuda máquina de escrever Remington. Quase morri de tanto contentamento. Sentia-me um verdadeiro escritor, apesar de ainda não saber lidar com as complexidades de nossa língua (aliás, até hoje ainda não consigo dominar esse bicho de sete cabeças que é a Língua Portuguesa...). Depois das aulas, sempre corria até a Biblioteca da Escola Estadual “Coronel Jeremias Júnior”, então chamada de CENE. A bibliotecária era dona Renata Carvalho e Silva, com quem eu sempre conversava e que me recomendava muitos livros. Certa vez, eu estava bisbilhotando a estante onde ficava uma coleção completa de Shakespeare. Dona Renata chegou e disse: “Ele escreve dramas, leia esse que você vai gostar”. E me passou às mãos a peça “Romeu e Julieta”, que eu li de uma tacada só. Depois, devorei as coleções de “Malba Tahan”, “As Mil e Uma Noites”, “Os Segredos de Taquara Poca”, além de outros títulos. E, a partir daí, fui montando a minha própria biblioteca, com os livros que meu pai me dava e com aqueles que eu encomendava pelo Correio, como a coleção de Machado de Assis, que eu li com redobrado prazer, apesar de achar o estilo meio pesado para a minha tenra idade. O que eu adorava mesmo era Monteiro Lobato. Lia com regalo as aventuras de Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia e outros. Meu pai também tinha o hábito de comprar livros pelo Correio e nas bancas de jornais. Durante muitos anos, ele foi sócio do Círculo do Livro. Quando ele faleceu, tive a felicidade de herdar todos os seus livros, que hoje ocupam lugar de destaque nas estantes de meu escritório. Aos 16 anos, comecei a colaborar com o “Jornal de Iguape”. Escrevia reportagens, artigos históricos e tinha até uma coluna de variedades chamada, muito propriamente, “Notas & Variedades”. Aos 18, passei a colaborar com “A Tribuna do Ribeira”, na qual assinava uma coluna, ao lado de J. Mendes e outros colaboradores. Em 9 de dezembro de 1994, comecei a colaborar com o Jornal Regional. Escrevia, com certa regularidade, crônicas e pequenos contos. Em 1995, passei a editar a “Tribuna de Iguape”, que circula até hoje. Em 1998, estreei a Alfarrábios, aqui no JR. Portanto, há muitos, muitos anos que venho abusando da sua paciência, caro leitor, você mesmo, que, na falta de melhor ocupação para seus momentos de ócio, lê estas mal traçadas linhas. Neste mês em que o nosso querido JR completa sua maioridade, a data merece ser comemorada com muitos vivas! e hurras! Ao JR, a você, leitor, a nós todos!
Escrito por Roberto Fortes às 12h06
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O Poeta dos Cemitérios Talvez o leitor estranhe este título um tanto insólito. Acostumado que está a ler amenidades nesta coluna, pode ser que o objeto da crônica de hoje lhe cause algum desconforto. Desconforto... Estranheza... Pasmo... Talvez sejam essas as palavras que definam um poeta singular, esquecido há quase cem anos e que só agora começa a ser reabilitado. É possível que o leitor ainda não tenha ouvido falar em Augusto dos Anjos. Ou melhor, o “Poeta dos Cemitérios”, como ficou conhecido, já que em suas poesias evoca obsessivamente temas como morte, cemitérios, coveiros, decomposição da matéria e outros assuntos, digamos, um tanto ou quanto mórbidos. Abusando de termos médicos e científicos, de pouco uso em nosso dia-a-dia, o poeta conseguiu criar uma obra que, se não é bela ou lírica, sem dúvida não passa indiferente ao leitor. Suas construções verbais, a rudeza de seus conceitos, o apego à morte e aos vermes, etc, não ficam sem o nosso olhar de espanto e de admiração. A constatação é inequívoca: Augusto dos Anjos, tirando de lado a morbidez de suas poesias, é um de nossos maiores poetas. E ponto. Nascido na Paraíba a 20 de abril de 1884 e falecido aos 30 anos no Rio de Janeiro a 22 de julho de 1914, vitimado por uma gripe fulminante, Augusto dos Anjos passou para o papel todo o drama de sua vida. A morte do pai logo cedo, a mãe perturbada mentalmente, a perda do filho que nasceu morto e outras negatividades talvez tenham influenciado o gosto desse poeta, que foi encontrar na quietude dos cemitérios, no cavoucar das pás dos coveiros, no voejar macabro dos morcegos e no horripilante banquete dos vermes a inspiração maior para os seus escritos. O leitor bem sabe que nem só de Bilac ou Bandeira vive a nossa poesia. Deixando o lirismo de lado, conheçamos um pouco do mundo angustiante desse notável e tão esquecido poeta, Augusto dos Anjos – ou o “Poeta dos Cemitérios”, como queira –, neste insólito soneto, “Psicologia de um vencido”: Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!
Escrito por Roberto Fortes às 12h26
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