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Morre anos 87 anos o historiador Paulo Laragnoit 
O historiador Paulo Laragnoit, em 2007.
Faleceu aos 87 anos, no dia 4 de dezembro último, o historiador, professor e artista plástico Paulo de Castro Laragnoit, um dos maiores vultos da inteligência valerribeirense de todos os tempos. Nascido na antiga Prainha no dia 24 de dezembro de 1923, o professor Paulo de Castro Laragnoit era filho de Pedro Laragnoit e dona Clara de Castro Laragnoit. Pelo ramo paterno, é bisneto do fundador de Miracatu, o francês Pedro Laragnoit, que doou as terras onde foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Prainha. Aos seis anos, aprendeu a ler e a escrever com o seu primo Salú, que era professor formado pela Escola Normal de Itapetininga. Aos oito anos, entrou na Escola Mista de Prainha. Ao completar 13 anos, foi estudar em São Carlos. Estudou na Escola de Comércio São Carlos, do francês Julien Fauvel, de vasta bagagem intelectual. Formou-se em Ciências Contábeis no ano de 1943. Na cidade de São Carlos, Paulo Laragnoit trabalhou no Escritório de Contabilidade do sr. Bento Carlos de Arruda Botelho, descendente dos fundadores de São Carlos, e na Casa Schiavone. Ingressou no funcionalismo público em 1946, como escrivão, na Coletoria Estadual de Miracatu. Foi responsável pelo expediente do Posto Fiscal anexo à Coletoria e pela Caixa Econômica Estadual, também anexa. Aposentou-se após 35 anos de serviço, no cargo de coletor estadual. Foi convidado para chefiar a Inspetoria de Arrecadação, mas não aceitou o convite porque teria que se transferir para Santos, e não desejava deixar a sua velha Prainha. Pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Registro diplomou-se em Estudos Sociais. Lecionou na Escola Estadual “Prof. Armando Gonçalves”, na Faculdade de Registro e em escolas de Juquiá e Miracatu. Na política, exerceu o mandato de vereador no período legislativo de 1957-1960, ocupando o cargo de presidente da Câmara. Como vereador liderou uma campanha para a construção do primeiro jardim público de Miracatu. Quando se cogitou, em 1957, do fechamento da Escola Estadual “Armando Gonçalves”, cujo prédio estava em condições precárias, na qualidade de presidente da Câmara, o vereador Paulo Laragnoit, num encontro em Pariquera-Açu, solicitou ao governador Jânio Quadros para que construísse um prédio destinado ao ginásio. Jânio Quadros despachou favoravelmente. Mas não havia terreno nem dinheiro. Aí então começou a campanha do “Conto de Réis”: cada família miracatuense que tivesse condições emprestava à Prefeitura Municipal um conto de réis. Foi dessa maneira que a Prefeitura pagou ao cidadão Kahei Nakamura a primeira prestação do terreno do ginásio. Foram elaboradas duas listas (Biguá e Miracatu), sendo responsáveis Paulo Laragnoit e Seijó Onaga. Como historiador, Paulo Laragnoit esmiuçou os cartórios da região, o Fórum de Iguape, os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Arquivo do Estado e Cúria Metropolitana de São Paulo. Publicou os seguintes livros: “A Vila de Prainha” (1961); “A Vila de Prainha”, 2ª edição, revista e ampliada (1984); e “Histórias do Vale da Esperança” (1991), que faz parte da biblioteca da Seção Genealógica do Grupo Air France-Paris; “Laurindo de Almeida e a Vila de Prainha” (2006); “Centenário da Imigração Japonesa - 1908-2008” (2008); “Quatro mãos... Duas Cabeças... Um Só Coração” (2011), em coautoria com João Joaquim Vicente Leite; além de inúmeros artigos publicados nos jornais da região. Como pintor, Paulo Laragnoit participou de diversas exposições, entre as quais: I Exposição de Pintura na Escola “Armando Gonçalves” (1978); Exposição de Fotografias Antigas, no Banco do Brasil (1983); Exposição de Pinturas “Memória de Uma Cidade”, também no Banco do Brasil (1983); Exposição do Lions de Artes Plásticas no Memorial da América Latina. Em 1973, promoveu a Exposição Comemorativa do Centenário da Paróquia de Miracatu. Participou ainda dos três Salões de Artes Plásticas realizados pela Prefeitura de Miracatu, em diferentes ocasiões, além de outras mostras no Vale do Ribeira. Em abril de 1977, Paulo Laragnoit e sua esposa, a saudosa professora Marina Natal Laragnoit, elaboraram a bandeira de Miracatu, que foi hasteada pela primeira vez no dia 17 de abril daquele ano, por ocasião da inauguração do novo edifício do Fórum de Miracatu. Um dos pontos culminantes da carreira de Paulo Laragnoit foi a criação do Museu Municipal “Pedro Laragnoit”, oficializado pela Prefeitura de Miracatu em 1983, quando o historiador doou, por escritura pública, todo o acervo que constitui o patrimônio do museu. Antes de ser oficializado, o museu funcionou, em caráter particular, por mais de 20 anos. Paulo Laragnoit exerce a função de diretor vitalício do museu, honraria mais do que merecida. Muitas foram as homenagens que lhe foram conferidas ao longo de sua vida pública. Em 1978, o deputado Vicente Botta consignou na ata da Assembleia Legislativa “um voto de congratulações com a população de Miracatu pela criação do Museu Municipal”. Note-se que nessa época o museu ainda era particular. Escritor e poeta dos mais inspirados, em 1984, tomou posse na Academia Eldorado de Letras, passando a integrar a Casa de Francisca Júlia, sob os auspícios do poeta João Albano Mendes da Silva (J. Mendes). Também nesse ano ingressou na Academia de Letras Municipais do Brasil. A segunda edição de seu livro “A Vila de Prainha”, mereceu, em 1984, da Câmara Municipal de São Carlos, “um voto de calorosos aplausos”. Sobre o seu livro “Histórias do Vale da Esperança”, escreveu, em 1992, o embaixador da França no Brasil: “Espero que esse livro desperte o interesse, alcance e sucesso que merece, e que Miracatu conserve, graças ao senhor, a memória de suas raízes francesas”. A família Laragnoit é originária da cidade de Nay, na França, onde se acha radicada desde 1385. Desde 1986, Paulo Laragnoit é comendador, recebendo o grau cavalheiresco da Câmara Brasileira de Difusão das Ciências Sociais e Internacionais, conjuntamente com o Centro de Estudos de Ciências Jurídicas e Sociais do Brasil. Dessas entidades recebeu também o troféu “Gente Humana Internacional”. Ainda em 1986, recebeu da Câmara Municipal de Miracatu a medalha de honra ao mérito “Prefeito Joaquim Dias Ferreira”. Desde 1991, é “grande oficial” do Centro de Estudos de Ciências Jurídicas e Sociais do Brasil. Em 1993, passou a fazer parte da Associação Pró-Casa do Pinhal, que tem por finalidade dar apoio à conservação e manutenção da sede da antiga Fazenda Pinhal, célula-mater do município de São Carlos, preservando e divulgando o importante acervo historiográfico e paisagístico nela contido. Genealogista emérito, Paulo Laragnoit é sócio do Instituto Genealógico Brasileiro, de São Paulo, e do Colégio Brasileiro de Genealogia, do Rio de Janeiro. Em 1996, iniciou a elaboração de um livro sobre a vida de Laurindo de Almeida, consagrado violonista brasileiro, nascido em Miracatu, que ganhou por cinco vezes o “Grammy”, o maior prêmio da música nos Estados Unidos. O livro está prestes a ser publicado. Foi casado com a professora Marina Natal Laragnoit, já falecida, não deixando filhos desse casamento. Descanse em paz, querido amigo Paulo Laragnoit, guerreiro da história e da cultura valerribeirense! 
Museu Histórico de Miracatu. 
Acervo do Museu de Miracatu. 
Acervo do Museu de Miracatu.
Escrito por Roberto Fortes às 21h33
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O acendedor de lampiões 
Acendedor de lampiões no RJ. O sino da igreja anunciou a hora da Ave Maria. Os primeiros raios do crepúsculo começavam a cair sobre a pacata cidade. Pelo Largo da Matriz caminhava um homem magro, o bigode generoso, à cabeça um boné surrado, arrastando os passos de uma vida cansada. Com uma das mãos, carregava às costas pequena escada de madeira; na outra mão, levava sacola com os petrechos de seu mister. Ao passar em frente ao Bar do Chaves, o dono fez sinal para ele entrar e tomar um café. Declinou do convite com um manear de cabeça que poderia significar “agora não posso’ ou “deixe pra mais tarde”. Estava atrasado.
Saíra cabisbaixo de casa, a companheira novamente lhe cobrara um metro de chita para o vestido da primeira comunhão da filha. O dinheiro, mal entrava, já ficava no armazém do Collaço. A Câmara Municipal pagava o serviço de iluminação pública a cada dois meses, após o envio das contas à comissão competente para ser votada em sessão ordinária. Ele desconfiava que os vereadores adiavam de propósito o pagamento de suas contas.
Decerto pensassem que era peixinho do Coronel Biallé. Negava isso a todos. Não era peixinho de coronel nenhum. Nem do Coronel Jeremias, que mandava na cidade desde 1900. Pobre não tem que ser peixinho de ninguém. Tem é que morder a isca no anzol que lhe atiram. Não viera de Paranaguá há quinze anos para, em Iguape, se meter em disputas de facções políticas. Ficava quieto em seu canto e só abria a boca para pitar seu fumo de corda ou para beber uma dose de “Cristiano”.
Começou pelo poste em frente ao palacete do Capitão Moutinho. Encostou a escada no poste, abriu o saco de petrechos, pegou o vasilhame de querosene e um pavio novo. Retirou o globo de vidro, despejou um pouco de querosene no reservatório do lampião, trocou o pavio, riscou um fósforo, que o vento leste logo apagou, riscou outro e, agora com êxito, acendeu o pavio.
De poste em poste, foi acendendo, um a um, todos os lampiões do Largo da Matriz, até chegar ao sobrado do Coronel Jeremias. Tratou de caprichar na quantidade de querosene para que o lume durasse até o amanhecer, e colocou um pavio encorpado para que a luz iluminasse melhor o entorno. Na sacada do sobrado, o coronel cumprimentou-o formalmente, levantando a aba da cartola com um dedo.
Terminado o serviço no Largo da Matriz, seguiu para a rua da Palha, dali para a rua do Campo, de onde desembocou no Largo do Rosário; voltou pela rua da Glória e dali foi para o Beco dos Quatro Cantos e Largo de São Benedito. A noite já caíra por completo.
Na descida dos Quatro Cantos, após acender o lampião da esquina, sentou-se na calçada de pedra para descansar. Ouviu, ali por perto, os tambores do jongo que dona Marica Bruno e amigas dançavam, depois da dura lida diária batendo arroz no engenho do Capitão Hipólito. Acompanhou o jongo com os pés, ao mesmo tempo em que se lembrava da congada que, em menino, acompanhava desde as bandas da Folha Larga e que parava em frente à Igreja de São Benedito. A festa do santo era no dia 26 de dezembro.
Levantou-se e desceu o beco. No Largo de São Benedito, acendeu todos os lampiões. Só o que ficava em frente ao Sobrado dos Toledo deixou sem lume – esquecera de trazer mais pavios novos.
Lá pelas nove horas da noite, retornou para casa, nos lados da Misericórdia. A companheira e a filha já haviam jantado, dormiam sono avançado, acomodadas nas esteiras de piri. Comeu o resto do peixe frito que sobrara, acompanhado de um punhado de arroz. Deu umas pitadas e se deitou na esteira, ao lado da companheira. Estava cansado. Amanhecendo o dia, sairia pela cidade, seguindo o mesmo trajeto de todos os dias, de segunda a domingo, para apagar o lume dos lampiões que ainda estivessem acesos.
Antes de pegar no sono, lembrou que amanhã à tarde haveria sessão da Câmara. Era bem possível que autorizassem o pagamento do serviço do mês retrasado. Se saísse o dinheiro, passaria na loja do Capitão Floramante e compraria não um, mas dois metros de boa chita para o vestido de comunhão da filha.
Escrito por Roberto Fortes às 11h52
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Waldemar de Assis Freitas No início da década de 1980, eu era assíduo colaborador da sempre lembrada “A Tribuna do Ribeira”, um grande jornal, feito com muito profissionalismo, que pertencia ao grupo “A Tribuna”, de Santos. Mesmo não passando de um mero gastador de tinta, até que eu tinha fiéis leitores, que semanalmente liam as edições do jornal. Entre eles, estava o sr. Waldemar de Assis Freitas, então morador em Jacupiranga. Em 1983, Waldemar publicou na “A Tribuna do Ribeira” o artigo “Os coronéis do Vale”, no qual traçou um ligeiro painel sobre o assunto, citando, inclusive nominalmente, diversos vultos do Vale do Ribeira que foram agraciados com esse título concedido pela extinta Guarda Nacional. Em edição posterior, escrevi o artigo “Ainda os coronéis”, no qual complementava as informações de Waldemar. Foi o bastante para ele me enviar uma carta, datada de 23 de abril daquele ano, onde agradecia as minhas considerações e dava início a uma troca de correspondências que se estenderia por alguns anos. Note o leitor que “naquele tempo” (expressão mais saudosista, hein, leitor? será que estou envelhecendo?...) as correspondências eram exclusivamente à base de cartas escritas a mão ou à máquina de escrever e remetidas via Correio. Não existiam essas modernidades como e-mail, msn, facebook e outras parafernálias virtuais que nos aproximam rapidamente das pessoas, mas que também nos deixam quase loucos pelo ritmo alucinado que imprimem às relações entre seus usuários. Nessa primeira carta, Waldemar falava de sua genealogia. Natural da Barra do Batatal, na velha Xiririca, descendia das famílias Freitas e Castro e Canto. Sua avó materna era da família Castro e Canto (a mesma da Marquesa de Santos, Domitília de Castro e Canto Melo), e se casou com um jovem italiano da família Giani. Waldemar morou em Iguape quase dois anos, lá pelos idos de 1918/1919, tendo estudado no Grupo Escolar local, que naquela época ainda não se chamava “Vaz Caminha”. “Lembro-me bem de Iguape”, escreveu Waldemar, “que naquele tempo era uma cidade muito movimentada e bonita. Ficamos aí até depois da Festa do Bom Jesus em 1919, e então retornamos para a Barra do Batatal, onde nasci; por motivo de saúde, não pudemos nos dar com o clima daí. (...) Conheci Neco Fortes; seu Eurico Moutinho e sua mulher dona Adélia eram muitos amigos de nossa família. Conheci o coronel Jeremias Júnior e família, enfim muitas pessoas daí. A família Giani, de dona Iaiá, todos eram nossos parentes. Conheci muito os França (Melico, Onésio, Esbelto). Conheci José Giani, que era casado com Sinhá, filha do Augusto Rollo. (...)” Em carta datada de 10 de maio, Waldemar se espanta com a minha juventude: “Fiquei surpreso com a sua idade. Julguei que fosse mais velho. Você está na plenitude da vida, em que o homem começa a ter visão das grandezas de Deus, que fez este mundo maravilhoso. 20 anos, idade em que o nosso coração começa a expandir seus sentimentos com relação ao sexo frágil. Amar, que sentimento sublime. Nossa alma torna-se um grande manancial de esperanças, de alegria, de um desejo ardente de vencer na vida. Que idade linda, eu também já tive a ventura de viver esse tempo feliz de nossa existência. Chega, meu amigo, puxa, hoje amanheci inspirado...” “Impossível comparar minha idade com a sua, mas isso não vai impedir de sermos amigos e, de agora em diante, mantermos relações culturais por carta. Ainda tenho muito a te contar de minha vida, que dava para escrever um livro... Mas eu, modéstia à parte, não pareço ter a idade que tenho, todos me dão menos 30 anos. Ainda mantenho o entusiasmo da mocidade, e parece que meu espírito é jovem. Acontece que tenho um espírito meio infantil, enfrentei a vida e venci todos os obstáculos sem muito me preocupar com o dia de amanhã. Dizem que a preocupação na vida do homem é que o desgasta. Tem também diversos fatores que influem na minha vida para me deixar sempre moço e entusiasmado. Vivi 50 anos no campo, respirando o ar puro das matas, sempre levantei cedo e dormi cedo. Sempre pratiquei esportes, gosto muito de nadar; lá onde morava tinha o ribeiro com seu afluente rio Batatal, que cortava nossa propriedade, onde eu, todas as manhãs, exceto quando chovia ou o rio enchia, dava meus mergulhos, pulando da prôa de uma canoa, recebendo um choque maravilhoso das águas geladas, mesmo no inverno. Sempre fiz minhas caminhadas logo cedo, às vezes até de madrugada, andava 4 km e depois mergulhava. Dizem que isso prolonga a vida. Fui bem criado; meu saudoso pai nos tratava a pão e leite.” Na época em que mantínhamos constante correspondência, Waldemar morava no Porto do Lameu, em Jacupiranga. Até que um dia ele deixou de me escrever e nunca mais tive notícias a seu respeito e, devido à correria da época (faculdade, jornal, trabalho, etc), e também devido à deficiência das comunicações, não tive condições de localizar o seu paradeiro. Se algum leitor de Eldorado ou Jacupiranga souber algo de Waldemar ou de sua família, peço a gentileza de entrar em contato pelo e-mail no alto desta coluna.
Escrito por Roberto Fortes às 12h13
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Do diário inconcluso de Ary Giani Ary de Moraes Giani foi um dos maiores vultos do Vale do Ribeira. Nasceu na velha Xiririca (hoje Eldorado) em 1913, viveu muitos anos em Iguape, onde foi comerciante e publicou jornais e revistas, e veio a faleceu em Santos, onde também teve destaque, em 2005. Jornalista, historiador, político, agitador cultural, através de seus contatos políticos e de seus artigos publicados nos jornais de Santos, conseguiu diversos melhoramentos para a região. Durante muitos anos mantive constante correspondência com esse ilustre valerribeirense, através de cartas onde sempre tratávamos, além da história regional, também de seus problemas antigos e atuais. Durante vários anos, Ary Giani publicou na “Tribuna de Iguape”, da qual sou editor, capítulos de seu livro “Iguape, Cidade da Fé, Morada da Esperança”, publicado originalmente nas colunas do jornal “O Diário”, de Santos, em 1956. Pouco tempo antes de falecer, Ary Giani me doou o seu valioso arquivo histórico, constituído de jornais, documentos e fotografias de Iguape e região, material que sempre utilizo para minhas pesquisas históricas e que também disponibilizo a outros pesquisadores. Dentre esses documentos estava um esboço de diário que Ary Giani começou, mas que, por razões que desconheço, não deu prosseguimento. Como uma homenagem ao bravo guerreiro do Vale do Ribeira publico aqui as notas esparsas sobre a sua infância e juventude. “Meus netos, aqui procurei registrar uma história que começou há mais de um século e meio. A razão talvez esteja ligada à morte física que se aproxima. Quem, após setenta e três anos bem vividos, não tem por objetivo esperar o fim de seus dias neste palco imenso cumprindo como uma obrigação, [mas] terminar antes um objetivo maior? Pois assim é para mim: meu grande desejo, meu maior objetivo, sempre foi deixar como lembrança uma síntese do que mais gostei de fazer. (...) “Você lembra do seu primeiro dia na escola? O meu primeiro dia foi no longínquo 1921, mesmo ano em que mudamos do Largo do Rosário para a Rua Paulo Moutinho. Nesse dia, lembro bem, vestia uma calça nova que ia até os joelhos e uma blusa com gola de crochê engomada circundando [o pescoço]. Estava ansioso. Queria ver por dentro o prédio do Grupo Escolar Vaz Caminha. As carteiras eram de madeira envernizadas com pés de ferro. (...) “Da esquina da Rua Capitão Dias para o Funil de Cima e voltando até a esquina da Rua Tiradentes, antiga da Palha, e desta fechando o cerco da Paulo Moutinho, tinha a loja de papai [Francisco Giani], Antônio Collaço, residência do Cordeiro, açougue, tabelião J. Santos [etc]. (...) “Meu pai, carioca nascido, conservador agora, mas [era] temido como inimigo político nos idos de 1909 a 1925, quando se situava entre os adversários dos governantes. (...) “Sempre fui um péssimo jogador de futebol. O treinador do “Esperança Futebol Club” era o Satyro [de Oliveira], funcionário da oficina Matarazzo, que a esse tempo mantinha em Iguape uma filial e uma indústria de beneficiamento de arroz. O campo era ali perto, na Praça do Rosário (Duque de Caxias), em frente ao campo do “Iguape F. Club”. Certa tarde, fui chamado pelo Satyro para treinar entre os componentes do primeiro time. (...) “Em julho de 1921, lembro muito bem, mudamos para a nova casa à rua Paulo Moutinho (antiga General Glicério), nº 1. Papai, desde fevereiro, vinha acompanhando a reforma geral que ordenara na antiga residência do Joaquim César da Rosa Peniche (o capitãozinho). O prédio, de construção sólida, tinha a mesma altura do sobrado do outro lado da rua.” (...) As anotações de Ary Giani terminam aqui. Lamento que o notável jornalista não tenha dado continuidade a esses apontamentos. Por outro lado, ele deixou a história de sua vida muito bem registrada no anais do Vale do Ribeira.
Escrito por Roberto Fortes às 12h12
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Machado de Assis, hoje e sempre Estou relendo os principais livros de Machado de Assis, aqueles da fase realista, iniciada com o saboroso “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), que recebeu rasgados elogios de Harold Bloom, de “O Cânone Ocidental”, considerado o mais importante crítico literário da atualidade. Na sequência, reli “Quincas Borba” (1891), que é quase uma continuação do anterior (mas menos inspirado); “Dom Casmurro” (1899); “Esaú e Jacó” (1904); e “Memorial de Aires” (1908), este o derradeiro trabalho do recatado e recluso “Bruxo do Cosme Velho”. Machado de Assis tem momentos de rara inspiração e outros próximos a mais pura divagação. Mesmo não sendo um crítico literário, creio que Machado, antes de ser um ótimo romancista, é um inigualável contista. Aliás, tenho para mim que, excetuando “Memórias Póstumas”, os demais romances, extirpadas as divagações, dariam contos excelentes, entre os melhores da literatura universal. Cada escritor tem a sua maneira peculiar de escrever. Uns são rebuscados, preciosistas; outros têm na simplicidade do estilo a chave para conquistar os leitores. Na virada do século XIX para o século XX, Coelho Neto era um dos escritores mais festejados, e dividia com Machado de Assis os louros do público e da crítica. O primeiro era castiço ao extremo, conforme podemos comprovar pelo parágrafo inicial de seu livro “O Paraíso” (1898): “Feliciano Themistocles Sardinha, neto de ferrador e filho de tamanqueiro, teria continuado a tradição calcante de seus maiores, apurando-a ao tambo, diante da tripeça, com a sola e a sovelha, o bisegre e a bucha, se a mãe, zarelho feixe d´ossos ligado a nervos, não o houvesse subtraído ao meio achavascado das falcas e das maravalhas, matriculando-o em uma escola pública da vizinhança, com recomendação ao mestre, caolho mal encarado, para que ´puxasse por ele, cascando-lhe sem pena quando fosse preciso´”. Já Machado de Assis, com seu estilo despojado, inicia assim “Dom Casmurro” (1899): “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso”. Resumindo: Machado de Assis, com seu estilo simples, mas refinado, transformou-se num clássico da língua portuguesa. Já o castiço Coelho Neto foi atirado ao limbo, junto com suas tripeças, sovelhas e bisegres... Falando em Machado de Assis, adquiri há tempos, num sebo da internet, o livro “Conceitos e Pensamentos de Machado de Assis” (1925), uma seleção de frases lapidares e interessantes do “Bruxo do Cosme Velho”, compiladas, dentre todos os livros de Machado, pelo escritor e poeta Júlio César da Silva (1872-1936), o talentoso e tão injustamente esquecido irmão de Francisca Júlia. Fruto de exaustivo e metódico estudo da obra machadiana, esse livro é uma prova inquestionável do aparato intelectual do escritor valerribeirense, que venho lutando para reabilitar como um dos principais autores da Belle Époque paulistana. O interessante na vida de Júlio César que é ele foi seminarista, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, mas nunca advogou. Largou tudo, foi ser artista de circo e trabalhou nos palcos da Argentina e Uruguai. Ingressou, mais tarde, na Prefeitura de São Paulo, onde se aposentou. Militou na imprensa paulistana por mais de trinta anos, colaborando com inúmeros jornais e revistas. Monteiro Lobato o tinha em alta conta, e dedicou-lhe sincero artigo quando de sua morte, inserido mais tarde num de seus livros.
Escrito por Roberto Fortes às 12h11
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Quando o assunto é falta de assunto... Quando um cronista não tem assunto para escrever sua crônica semanal, vê-se obrigado a gastar tinta com trivialidades, banalidades, que, na verdade, são a própria essência da vida. Dizem os doutos que a quase totalidade de nossas vidas é permeada pela mesmice, havendo pouquíssimos fatos ou acontecimentos que retiram à vida toda sua rotina cotidiana. Ou seja, somos filhos da rotina, netos da mesmice, bisnetos do repeteco. O Eclesiastes, fonte de fina sabedoria, reza que tudo o que vivemos, hoje, já foi vivido por nossos ancestrais, e que tudo não passa de “vaidades das vaidades, e tudo é vaidade” (“Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”). Proust, no seminal, mas chatíssimo, “Em Busca do Tempo Perdido”, gastou nada menos que trinta páginas para descrever o ato de o personagem levantar-se da cama. Joyce “enrolou”, ao longo de 800 páginas, em “Ulisses”, a trajetória da personagem central, durante 24 horas, pelas ruas de Dublin. Parece que foi Borges quem disse que não escreveria um romance se poderia muito bem escrever um conto; ou seja, para que “enrolar” ao longo de centenas de páginas aquilo que poderia ser dito (e escrito), no máximo, em cem páginas? Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”, escreve sobre as trivialidades de suas personagens em pouquíssimas linhas, em minicontos, ou mesmo microcontos, que, por menores que sejam, não deixam de nos impactar. Alguns críticos, ferinamente, ou despeitadamente, dizem que o romance “O Alquimista”, de Paulo Coelho, daria um excelente conto; “espichado” para duas centenas de páginas, teria perdido o seu encanto. Tenho quase todos os livros de Coelho (que comprei, numa promoção, em banca de jornal) e, se não li todos, ao menos gostei de um deles, “Onze Minutos”, uma boa história, muito bem conduzida. Agora, “Diário de Um Mago”, “Brida” ou “O Demônio e a Srta. Pimm”, não consegui passar dos primeiros capítulos. Bem, não sejamos tão trágicos. Nem sempre os contos são tão bons quanto os romances. O menor conto do mundo, atribuído a Augusto Monterroso, não pode ser considerado nenhuma obra-prima: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Agora, podemos perceber toda a tragédia que salta deste miniconto de Hemingway: “Vendem-se: sapatos de bebê, sem uso”. Ou neste de Dalton Trevisan: “Ao ver o pacote de bala azedinha na mão da mulher:/ – Assim não há dinheiro que chegue./ E um pontapé na traseira do piá de três aninhos”. Também já escrevi vários minicontos, que por respeito ao estômago do prezado leitor, prefiro deixar muito bem guardados dentro da gaveta de minha escrivaninha. Um deles é este: “No envelope perfumado que o carteiro enfiou debaixo da porta, reconheceu a caligrafia que ela tentou falsificar”. E também este, que já fez parte de antologia literária virtual, intitulado “O eu no espelho”: “Seria mais um dia como tantos outros. Mas aquele dia não foi como os outros. Ao acordar, sentiu que algo diferente estava se passando com ele. Saltou da cama, correu até o espelho. Ficou petrificado. Já não era mais ele. Estava agora dentro do espelho. E de dentro do espelho observava o outro que acabara de saltar da cama e plantar-se atônito diante do espelho”. Rascunhei, ainda, outros contos (ou aspirantes a contos), que não passaram das primeiras linhas, quer por falta de inspiração, ou mesmo por uma bem-vinda autocrítica, que não permitiu o término de textos tão mal escritos. E ficamos hoje por aqui.
Escrito por Roberto Fortes às 12h10
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11 de setembro e a ameaça terrorista Alguns historiadores acreditam que o século XX começou apenas em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, conflito que se estendeu até 1918, período em que o mundo entrou em turbulências que resultaram em mudanças radicais na sociedade, nos costumes, na moda, na tecnologia, na filosofia, na forma de se encarar o mundo e a vida propriamente dita. Outro divisor de tempo pode ser associado ao ataque terrorista às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, quando, na opinião de muitos, teve início o século XXI. Com o fim da chamada “guerra fria” entre as duas potências mundiais (Estados Unidos e União Soviética), esse atentado chamou a atenção do mundo a um mal que vinha se infiltrando em vários países do mundo há décadas: o terrorismo internacional. Não se considera aqui que vidas inocentes serão subtraídas. Importa apenas os fins, seja religioso ou político, pouco sendo relevante que os meios utilizados para conseguir seus intentos sejam bárbaros, desumanos, insensíveis. Já escrevemos aqui que a barbárie humana remonta ao Éden, quando Caim matou Abel por motivo fútil: teve inveja do irmão porque a oferta que este ofereceu a Deus foi aceita, ao passo que a sua não caiu nas boas graças Daquele que deu origem a ambos. Por inveja, por ressentimento, Caim foi responsável pelo primeiro assassinato. Desde então, os exemplos, bíblicos ou históricos, não deixam de ser inúmeros e diversificados. Mesmo tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano, depois da Queda, talvez não entendeu ou não aceitou que “Deus é amor”, portanto ele mesmo, o Homem, também deveria ser amor. O ódio parece que sempre teve primazia na história da Humanidade. Regimes ditatoriais vem sendo derrubados no Oriente Médio, dando origem a um momento histórico que é chamado de “Primavera Árabe”. Quem ainda não caiu é o presidente da Líbia, Muamar Gaddafi (ou Kadhafi), que já disse que só morto deixaria o poder. Os rebeldes estão dominando todo o país, Gaddafi já não tem mais controle da situação, pode estar escondido em algum “bunker” e, caso seja capturado, deve ter o mesmo fim que Saddam Hussein. É o triste fim dos ditadores. Mussolini foi um triste exemplo: depois de assassinado, seu corpo ficou exposto, amarrado pelos pés, durante alguns dias, em praça pública. Vivemos hoje num mundo turbulento. Revoltas, guerras, guerrilhas explodem em diversas zonas do planeta. O terrorismo internacional possui seus tentáculos em muitos países, não sendo nada improvável que terroristas também estejam infiltrados em nosso país, quem sabe articulando planos para a defesa de suas causas, políticas ou religiosas. Num país como o Brasil, com milhares de quilômetros de fronteiras e pouco efetivo militar para defendê-las da entrada ou saída de pessoas suspeitas, é de bom alvitre que fiquemos prevenidos. Dez anos depois da explosão das torres gêmeas, sempre paira no ar a pergunta que não quer calar: qual será o próximo atentado que mudará o curso da História?
Escrito por Roberto Fortes às 12h09
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Repensando a Festa de Agosto Muitos acreditam que o atual formato da “parte comercial” da Festa de Agosto, em Iguape, já está esgotado e ultrapassado. Sendo uma atividade meramente comercial (pois a parte religiosa é feita na Basílica do Bom Jesus), deveria ser tratada com mais profissionalismo. O lado religioso da festa, desde 1647, é simbolizado pela fé sincera de católicos devotos. Quanto ao lado comercial, não é tão antigo assim, datando das primeiras décadas do século XX. Infelizmente, pelo que se nota hoje, para muitos, o aspecto comercial assume maior relevo do que a religiosidade, sendo que boa parte dos visitantes limita-se a passear nas barracas, esquecendo-se de visitar a imagem entronizada na Basílica, que deu origem a essa grande Festa de Agosto.
Uma ideia que vem tomando vulto e ganhando adeptos na cidade é que seja aproveitada toda a área do Centro de Eventos, inclusive a área do fundo, que anos atrás serviu de estacionamento de ônibus, para ali instalar as barracas padronizadas da festa, talvez em menor número. O local seria todo calçado, com a construção de banheiros e dotado da devida infraestrutura.
No tocante à recepção aos visitantes, muitos romeiros reclamaram da cobrança dos ônibus que os transportaram até esta cidade para a Festa do Bom Jesus. O posto de cobrança foi instalado na entrada da cidade. No início, o valor cobrado era de R$ 250,00, depois baixou para R$ 125,00 por ônibus. Há lei municipal que dispõe sobre essa cobrança de ônibus de romaria. Entretanto, se os usuários trouxessem carta do pároco de origem nada seria cobrado. Interessante, porém, é que foi distribuído, nos dias da festa, folheto onde vereadores, ironicamente, desejavam “boas vindas aos romeiros”. “Barbaridade chê”, como diz o gaúcho.
O trânsito da cidade ficou caótico nos dias da Festa devido à grande quantidade de veículos que chegou. Como não houve bloqueio das ruas por onde passam as procissões, ocorreu o estacionamento de muitos veículos nas mesmas, sendo necessário grande esforço para a retirada nos dias 5 e 6 de agosto, em virtude das procissões.
Na Praça General Marcondes Salgado (em frente ao Sobrado do Santo), ficaram estacionados vários veículos atrapalhando as procissões. Para piorar ainda mais, não se “levantou” mão e contramão de várias ruas do Canto do Morro, dificultando o tráfego de veículos para a Ilha Comprida, Icapara e Barra do Ribeira por vias entulhadas.
Carretas que transportaram equipamentos pesados de parque de diversão perto da Concha Acústica (Orla do Mar Pequeno) destruíram o piso em mosaico português em vários lugares e o gramado adjacente. Havia tanta gente no chamado “apoio” andando para lá e para cá, mas ninguém impediu que essas enormes carretas subissem à praça e causassem a destruição ainda visível por quem passar por ali.
Eventos desse tipo devem ser realizados em locais fechados e dotados de infraestrutura. Isto é ponto pacífico. Ninguém aceita amadorismo hoje em dia. Mudando-se a parte comercial da festa para o Centro de Eventos, a Orla do Mar Pequeno não seria mais destruída a cada ano, nem o Lagamar serviria de depósito de lixo.
A remodelação da Festa de Agosto torna-se uma questão de honra, até mesmo para a própria permanência dessa histórica festa. A Administração Municipal precisa repensar esse evento com coragem e vontade política.
Escrito por Roberto Fortes às 12h08
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Eu e o Jornal Regional Conta a história familiar que aos quatro anos eu já desenhava o meu primeiro nome. Aos seis, entrei no Jardim da Infância, no então Grupo Escolar “Vaz Caminha”, antigo educandário fundado em 1894. Curiosamente, nesse grupo estudaram meus pais e avós, além de irmãos, primos e colaterais. Entre os meus primeiros professores estavam Mariazinha Young, Celinha Sant´Anna, Rita Paiva e Marise Trigo. Desde então, ficava observando meu pai ler as edições diárias de “O Estado de S. Paulo”, que ele assinou durante toda a vida. Meu pai pode ser definido como um autêntico intelectual, apesar de autodidata, pois encerrou seus estudos com o Curso Normal. Leitor ávido, tudo o que lhe caía às mãos era lido vorazmente: livros, revistas, jornais. Gostava principalmente de ler aqueles livros bojudos, de mais de 500 páginas, pois os de poucas páginas ele lia num piscar de olhos. Nada lhe escapava do conhecimento: tudo ele lia e tudo ele sabia. Desde literatura, política, humanidades, relações internacionais, e, principalmente, filosofia de vida. Muito do que ele dizia à época, e que eu não levava em conta, hoje percebo que ele estava certíssimo. Era tudo verdade, e eu é que ainda não tinha entendimento da vida. Já no Primário, eu apreciava de escrever redações, gosto que foi se aprimorando durante o Ginásio, quando escrevia pequenos contos que eram lidos por meus colegas. Escrevia em folhas de caderno, e até mesmo em papel de pão. Aos doze anos, ganhei de meu avô Paulo uma bela e bojuda máquina de escrever Remington. Quase morri de tanto contentamento. Sentia-me um verdadeiro escritor, apesar de ainda não saber lidar com as complexidades de nossa língua (aliás, até hoje ainda não consigo dominar esse bicho de sete cabeças que é a Língua Portuguesa...). Depois das aulas, sempre corria até a Biblioteca da Escola Estadual “Coronel Jeremias Júnior”, então chamada de CENE. A bibliotecária era dona Renata Carvalho e Silva, com quem eu sempre conversava e que me recomendava muitos livros. Certa vez, eu estava bisbilhotando a estante onde ficava uma coleção completa de Shakespeare. Dona Renata chegou e disse: “Ele escreve dramas, leia esse que você vai gostar”. E me passou às mãos a peça “Romeu e Julieta”, que eu li de uma tacada só. Depois, devorei as coleções de “Malba Tahan”, “As Mil e Uma Noites”, “Os Segredos de Taquara Poca”, além de outros títulos. E, a partir daí, fui montando a minha própria biblioteca, com os livros que meu pai me dava e com aqueles que eu encomendava pelo Correio, como a coleção de Machado de Assis, que eu li com redobrado prazer, apesar de achar o estilo meio pesado para a minha tenra idade. O que eu adorava mesmo era Monteiro Lobato. Lia com regalo as aventuras de Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia e outros. Meu pai também tinha o hábito de comprar livros pelo Correio e nas bancas de jornais. Durante muitos anos, ele foi sócio do Círculo do Livro. Quando ele faleceu, tive a felicidade de herdar todos os seus livros, que hoje ocupam lugar de destaque nas estantes de meu escritório. Aos 16 anos, comecei a colaborar com o “Jornal de Iguape”. Escrevia reportagens, artigos históricos e tinha até uma coluna de variedades chamada, muito propriamente, “Notas & Variedades”. Aos 18, passei a colaborar com “A Tribuna do Ribeira”, na qual assinava uma coluna, ao lado de J. Mendes e outros colaboradores. Em 9 de dezembro de 1994, comecei a colaborar com o Jornal Regional. Escrevia, com certa regularidade, crônicas e pequenos contos. Em 1995, passei a editar a “Tribuna de Iguape”, que circula até hoje. Em 1998, estreei a Alfarrábios, aqui no JR. Portanto, há muitos, muitos anos que venho abusando da sua paciência, caro leitor, você mesmo, que, na falta de melhor ocupação para seus momentos de ócio, lê estas mal traçadas linhas. Neste mês em que o nosso querido JR completa sua maioridade, a data merece ser comemorada com muitos vivas! e hurras! Ao JR, a você, leitor, a nós todos!
Escrito por Roberto Fortes às 12h06
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O Poeta dos Cemitérios Talvez o leitor estranhe este título um tanto insólito. Acostumado que está a ler amenidades nesta coluna, pode ser que o objeto da crônica de hoje lhe cause algum desconforto. Desconforto... Estranheza... Pasmo... Talvez sejam essas as palavras que definam um poeta singular, esquecido há quase cem anos e que só agora começa a ser reabilitado. É possível que o leitor ainda não tenha ouvido falar em Augusto dos Anjos. Ou melhor, o “Poeta dos Cemitérios”, como ficou conhecido, já que em suas poesias evoca obsessivamente temas como morte, cemitérios, coveiros, decomposição da matéria e outros assuntos, digamos, um tanto ou quanto mórbidos. Abusando de termos médicos e científicos, de pouco uso em nosso dia-a-dia, o poeta conseguiu criar uma obra que, se não é bela ou lírica, sem dúvida não passa indiferente ao leitor. Suas construções verbais, a rudeza de seus conceitos, o apego à morte e aos vermes, etc, não ficam sem o nosso olhar de espanto e de admiração. A constatação é inequívoca: Augusto dos Anjos, tirando de lado a morbidez de suas poesias, é um de nossos maiores poetas. E ponto. Nascido na Paraíba a 20 de abril de 1884 e falecido aos 30 anos no Rio de Janeiro a 22 de julho de 1914, vitimado por uma gripe fulminante, Augusto dos Anjos passou para o papel todo o drama de sua vida. A morte do pai logo cedo, a mãe perturbada mentalmente, a perda do filho que nasceu morto e outras negatividades talvez tenham influenciado o gosto desse poeta, que foi encontrar na quietude dos cemitérios, no cavoucar das pás dos coveiros, no voejar macabro dos morcegos e no horripilante banquete dos vermes a inspiração maior para os seus escritos. O leitor bem sabe que nem só de Bilac ou Bandeira vive a nossa poesia. Deixando o lirismo de lado, conheçamos um pouco do mundo angustiante desse notável e tão esquecido poeta, Augusto dos Anjos – ou o “Poeta dos Cemitérios”, como queira –, neste insólito soneto, “Psicologia de um vencido”: Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!
Escrito por Roberto Fortes às 12h26
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Recordações de um escrevinhador Na era da informática, do ciberespaço e da internet sem fio, já caiu em desuso as correspondências na base de cartas escritas à mão e enviadas pelo correio. Eu mesmo, que já fui um prolixo escrevinhador de cartas, hoje apenas me correspondo com amigos e conhecidos através de e-mails. Lá de vez em quando (mais em quando do que em vez), digito uma carta, em formato Word, no computador, imprimo numa impressora a jato de tinta e remeto-a via correio. Mas é coisa rara. Tudo, hoje, gira em torno do computador, que parece comandar as ações humanas. Apesar de toda essa modernidade, ainda não renunciei completamente à correspondência manuscrita e remetida via correio. Vez ou outra, troco cartas com os escritores e historiadores Hernâni Donato e Paulo de Castro Laragnoit. Na contramão do chamado “progresso”, vamos mantendo a velha tradição epistolar. Comecei a escrever bem cedo. Já no curso primário gostava de rascunhar pequenas histórias, que eu lia para os meus amiguinhos, quando estudávamos no antigo Grupo Escolar “Vaz Caminha”. Sempre fascinado pela arte de escrever, aos 16 anos, comecei a colaborar com o “Jornal de Iguape”, um quinzenário editado em minha cidade, com o qual colaborei assiduamente durante os seus dez anos de heroica existência. Eu era uma espécie de faz-tudo. Escrevia reportagens, artigos históricos e, de quebra, ainda assinava a coluna “Notas & Variedades”. Certa vez, lembro que tirei uma nota baixa em Matemática (que nunca foi meu forte). Meu professor, brincando, disse para eu escrever menos e estudar mais. Nem é preciso dizer que não dei atenção ao conselho do dedicado mestre. Aos 18 anos, comecei a colaborar com a “A Tribuna do Ribeira”, então o mais influente jornal da região e, acredito, um dos mais importantes que já circulou por aqui em toda a história do jornalismo valerribeirense. Basta dizer que nesse jornal trabalharam jornalistas do quilate de Roberto Sassi, Valdir Dias, Rafael Guelta, Sueli Correa, Mônica Nogueira Lima, Geni Lopes Fernandes, além dos colaboradores J. Mendes, Ipê, Kagê, Noziel e Sesary, entre outros que me escapam da memória, já não tão boa como antigamente. Para um jovem mal saído da adolescência era a glória poder colaborar com um jornal de renome do porte de “A Tribuna do Ribeira”. Certa vez, escrevi uma crônica (“Governo do povo”), defendendo a democracia, no período em que o então vice-presidente Aureliano Chaves assumiu a presidência da República. O saudoso cidadão registrense Eiro Hirota (1907-1983), então com 74 anos de idade, vulto dos mais proeminentes da colônia japonesa da região, enviou ao jornal uma carta intitulada “Para Roberto Fortes ler”, na qual, entre outras passagens, escreveu: “Pela primeira vez na minha restrita leitura em jornais, vejo a palavra ´Governo do Povo´ proferida na boca de um brasileiro”, completando: “Entusiasmado, espero suas crônicas acertadas nas futuras páginas do jornal ´A Tribuna do Ribeira´”. São coisas desse tipo que animam este pouco inspirado escrevinhador a cansar a sua paciência, benévolo leitor, todas as semanas, aqui, na página dois de nosso destemido “JR”.
Escrito por Roberto Fortes às 19h39
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As reinações do Saci 
Quem registrou este interessantíssimo caso – apesar de rotulado como “lenda”, realmente ocorreu, lá pelos idos do Segundo Império – , foi o historiador Waldemiro Fortes, que resgatou muitas e interessantes histórias da região. Numa das margens do rio Ribeira, mais precisamente no local denominado Volta do Saraiva, em Iguape, existia, em meados do século XIX, uma pequena casa de palha, onde morava o casal de caboclos Batata e Nhá Tuca. Certa manhã, Batata se levantou bem cedo e, pretendendo passarinhar, pegou sua espingarda pica-pau e a sacola de munição, partindo logo em seguida para a mata virgem. Caminhou durante horas pela floresta até se deparar com uma frondosa figueira, carregada com frutos maduros, que eram saboreados por uma incrível quantidade de pássaros. Vez ou outra, Batata empunhava sua pica-pau e, em certeira pontaria, derrubava pássaros previamente escolhidos. Por fim, tendo abatidos muitos passarinhos, e havendo acabado a munição, o tabarano cortou um forte cipó e atou-os pelo pescoço à sua cintura. Nessa ocasião – mais ou menos em 1876 -, o vapor “São Pedro”, repleto de seletos passageiros, singrava pela primeira vez as águas do rio Ribeira, soltando, a intervalos regulares, um estridente apito. Quando a embarcação se aproximou da casa de Batata, Nhá Tuca, que nunca ouvira semelhante som, pôs-se a correr afoitamente pelo mato, bradando pelo marido. Batata, igualmente assustado pelo apito do vapor, que cada vez mais se aproximava, disparou em louca correria pela floresta. O casal, extremamente supersticioso, acreditou que tal ruído fosse emitido por um "saci" endemoninhado. Correndo pelo mato, Batata foi encontrar Nhá Tuca, que estava com as roupas totalmente rasgadas e o corpo bastante machucado, ajoelhada próxima a uma touceira de carapiás, que dizem ter o poder de espantar o coisa-ruim. Daí a pouco, o vapor “São Pedro”, já em demanda do porto de Iguape, apitou novamente e, em virtude da distância, o som ia se tornando gradativamente mais fraco. O casal, ingenuamente, pensou que o “saci” estava indo embora. Foi então que Batata, que perdera a espingarda durante a correria, olhando em volta da cintura, viu um amontoado de cabeças de pássaros. É que, de tanto correr, cair e se levantar pelo mato, os corpos das aves ficaram espalhados pelo caminho... E, assim, os dois, machucados e com as vestes em farrapos, voltaram para casa, amaldiçoando o travesso “saci” que tanto susto lhes havia causado.
(JORNAL REGIONAL, de 15-07-2011, pág. 2)
Escrito por Roberto Fortes às 17h32
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A história revisitada 
Tiradentes revisitado.
O revisionismo é o assunto do momento. Historiadores de toda a parte estão reestudando e reescrevendo a história mundial, levados pela certeza de que muitos conceitos e fatos que temos como incontestáveis, na realidade, nada mais seriam do que formidáveis embustes. Não é de hoje que a corrente revisionista vem garimpando os anais da história, na tentativa de escrever a verdadeira História e, assim, colocar por terra a história oficial que, no decorrer dos milênios, nos foi imposta pelos vencedores e recheada por disparates históricos. Muito se poderia citar a cerca do trabalho nada agradável desses pesquisadores. Fatos que hoje consideramos sagrados, se recuarmos no passado à luz de documentos fidedignos, talvez se nos apresentem bastante diferente daquilo que sempre imaginamos… Tomemos como exemplos as Cruzadas. A idéia que temos delas é que cristãos bem intencionados deslocaram-se até o Oriente, à custa de muito sacrifício, para resgatarem aos mouros os lugares sagrados pisados por Jesus Cristo. Ou seja, tudo que os cruzados fizeram foram atos abençoados por Deus. Como a história é escrita pelos vencedores, as cruzadas são mostradas como a grande luta dos discípulos de Cristo contra os inimigos da fé. O que pouca gente sabe é que os “cristãos”, na defesa de sua fé, muitas vezes, e com requintado sadismo, cozinhavam milhares de muçulmanos em grandes tachos de óleo fervente!… Cristóvão Colombo, o grande navegador genovês, teria sido o descobridor do Novo Mundo, ou o responsável pelo extermínio de milhões de ameríndios? Quando foi comemorado o 500° aniversario da “descoberta” da América (que talvez devesse se chamar, com mais propriedade, Colômbia ou Colúmbia), a figura decantada de Colombo foi contestada por grande numero de respeitáveis pesquisadores. O Colombo sensato, justo, magnânimo, que os livros escolares sempre nos pintaram, teria sido, na realidade um grande tirano, déspota sanguinário, cruel assassino de índios americanos? As novas evidências a respeito do grande genovês estão dando ao mundo uma visão diferente de quem foi realmente o “descobridor” do Novo Mundo. Colombo, segundo os adeptos do revisionismo, teria apenas redescoberto o que os vikings – Leif Ericson que o diga – já haviam descoberto séculos antes, por sinal o mesmo continente para o qual, há milhares de anos, os primitivos ameríndios imigraram (estes sim, os verdadeiros descobridores da América!). Não precisamos ir muito longe para nos admirar com essas novas versões dadas a fatos consagrados. A história brasileira é um prato cheio para o pesquisador serio que queira escrever a verdadeira história do País. Tiradentes é um exemplo clássico, até hoje considerado o mártir da liberdade pátria. Só que poucos sabem que essa imagem foi forjada no início da República, que precisava de um símbolo (de preferência heróico e cristão) e foi buscá-lo no mineiro enforcado cem anos antes. Teria sido Joaquim José da Silva Xavier o “cabeça” da Inconfidência Mineira – eis aqui outro equívoco chamar de inconfidentes aos conspiradores, pois inconfidente (aquele que não guarda confidência, ou seja, um delator) foi apenas Joaquim Silvério dos Reis – ou serviu Tiradentes apenas de bode expiatório para livrar da morte os “inconfidentes” bem mais situados socialmente do que ele, simples alferes? A própria imagem de que temos dele em seus derradeiros momentos seria falsa: Tiradentes, sendo alferes, não podia usar barba ou cabelos compridos, e também, naquele tempo, não era uso comum os prisioneiros usarem barba ou cabelos compridos. Quer dizer, o Tiradentes real, nos seus últimos momentos, jamais teve a imagem que, erroneamente, temos dele! Quanta história fantástica ainda esta à espera de ser resgatada pelos pesquisadores!
Escrito por Roberto Fortes às 13h07
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Morro do Pogoçá 
Foto: http://www.flickr.com/photos/admiriam/page116/ O Morro do Pogoçá é um dos pontos encantados da Jureia. Nele se localiza a misteriosa pedra de igual nome, pelo qual os caiçaras daquelas paragens tem grande respeito. O morro situa-se nas margens do rio Una do Prelado e em seu sopé ainda podem ser observadas ruínas de algumas antigas fazendas de arroz. Dois caminhos conduzem até o morro. Por terra, pode ser atingido através da Trilha do Pogoçá, a partir de um caminho que sai da Estrada da Nuclebrás, que se inicia nas proximidades do Morro do Grajaúna. Segundo a tradição local, parte da trilha, que passa por manguezais, foi aterrada no passado pelos escravos. Outro meio de se chegar ao Pogoçá – talvez até mais “fácil” do que andar pelo mato – é através do rio Comprido, partindo-se do Porto do Prelado e vencendo-se a muito custo as incontáveis curvas que, com justiça, deram esse nome de “guerra” ao rio, cujo nome correto é Una do Prelado. Em virtude das curvas do rio, o Morro do Pogoçá, que se alça sobre a serrania circundante, parece dançar à vista do viajante, apresentando-se ora a frente, ora por detrás, ora à esquerda, ora à direita daquele que singra aquelas águas. Não é a toa que os caiçaras dali também chamam o Pogoçá de Morro Mágico. O Morro do Pogoçá guarda a fascinante lenda do “Tucano de Ouro”. Devido a sua formação rochosa estranha, e por ser bastante lisa, a Pedra do Pogoçá possui um significado quase místico para os praianos da Jureia, que não se atravessem a escalá-la, ainda porque, segundo afirmam, o sopé do morro é protegido por ferozes “mamangavas”. Diz a lenda que, a cada sete anos, na primavera, um tucano de ouro sai, através de uma janela natural na rocha, do “Dedo de Deus” – que é como os caiçaras chamam a Pedra do Pogoçá, em virtude de sua curiosa formação geológica – e voa até a serra dos Itatins, a uns 30 quilômetros dali, alçando-se a uma altura que nenhum outro tucano poderia alcançar. Quem consegue avistar a ave dourada, garante a lenda, recebe, como dádiva, sete anos de felicidade. Contam também que, do topo do Pogoçá, de vez em quando, sai uma gigantesca bola de fogo, que rola pelo morro abaixo e assusta aos que tem a ocasião de vê-la. Essa bola de fogo é chamada de “Mãe do Ouro” e, segundo a crença, ela sai do morro para indicar a existência de um fantástico tesouro que se encontra escondidos nas matas da Jureia. Depois de cruzar os céus da região, a “Mãe do Ouro” finalmente desaparece lá para as bandas da Serra dos Itatins, levando consigo, todo o seu mistério e só tornando a reaparecer sabe-se Deus quando. Outro local encantado na Jureia é o Morro do Grajaúna, que se lança de encontro ao oceano e é uma espécie de divisor natural das praias do rio Verde e do Una. Nesse morro, encontra-se a enigmática Pedra do Itacolomi, pela qual os caiçaras também tem grande respeito e admiração. Itacolomi, em tupi, significa: Ita = pedra e curumi = menino, de onde temos a tradução: “menino de pedra”, “filho da pedra” ou a “pedra e seu filho”. Contam que por ali, de vez em quando, aparece um sábio pescador, de uns 70 anos, que deixa sua choupana no meio do mato. Traz ao ombro sua rede de pesca e na mão o inseparável cajado de madeira. Caminha pela praia durante algum tempo, e depois, inexplicavelmente, sem dizer qualquer palavra, desaparece. Os pescadores falam que o misterioso homem vem com os bons ventos da maré, e acreditam que ele mora no Itacolomi. Segundo a crença, o dia de seu aparecimento por ali é dia de sorte e encanta a região por sete luas. Uma outra lenda sobre a Pedra do Itacolomi conta que, nessa pedra quase submersa nas encostas do Morro do Grajaúna, o legendário pirata francês Lafite teria escondido um formidável tesouro em pedras preciosas, durante uma de suas aventuras pelo litoral do país. Até hoje, no entanto, ninguém ainda encontrou qualquer vestígio desse tesouro lendário. Foi nas proximidades do Morro do Grajaúna que, nos anos de 1980, o governo brasileiro pretendeu construir algumas usinas nucleares, mas de concreto apenas foi aberta a Estrada da Nuclebrás. Felizmente, até hoje os morros do Pogoçá e do Grajaúna ainda se encontram preservados em toda a sua magia e esplendor natural.
Escrito por Roberto Fortes às 18h05
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Mas quem foi Mercedes Dolores? 
O leitor, com certeza, não conhece Mercedes Dolores. Sua ignorância é perfeitamente desculpável, tendo em vista que pouquíssimas pessoas tiveram acesso à vida privada dessa artista. Eu também não a conheço e, no entanto, alguma coisa nessa mulher me parece atrair. Foi folheando um jornal amarelado dos anos 40, que quase se decompôs em minhas mãos, que encontrei a única pista sobre a existência de nossa celebre e desconhecia cantora, que marcou seu tempo e conquistou muitos jovens corações. A breve nota publicada no rodapé da última página de um jornal de bairro, embaixo de um anúncio de desodorante, despertou-me a atenção pelo título um tanto sensacionalista: “Rainha do Tango Corta os Pulsos ao Som de Gardel”. Esse foi o fim trágico de Mercedes Dolores. Como nos tangos que cantava com toda dramaticidade. Passei os olhos rapidamente sem dar muita importância. Afinal, à primeira vista, tratava-se de mais uma nota policial sobre mais uma morte trágica, à semelhança das inúmeras mortes trágicas que são noticiadas pelos jornais. Só que aquela não era uma morte trágica de uma desconhecida qualquer. Tratava-se da morte da grande Mercedes Dolores. A única e insubstituível Mercedes Dolores, rainha da voz e do tango. É desculpável que o leitor não a conheça. Perdoo sua ignorância, pois, como já disse, poucos souberam de sua grandeza. Mercedes Dolores entrou para a história com seu obituário publicado no rodapé daquele jornal de bairro. E isso foi tudo o que se escreveu sobre sua vida. Seus trinta anos de carreira, todas suas glorias de rainha da voz e do tango, ali se resumiram, naquelas vinte linhas sob aquele titulo chamativo. Depois, nada mais se escreveu sobre ela. Pesquisei nos arquivos dos principais jornais publicados após sua morte e não encontrei uma linha sequer sobre a nossa célebre e desconhecida artista. Nos livros sobre a vida das grandes cantoras também nada encontrei a seu respeito. Parece incrível, mas é a verdade: Mercedes Dolores entrou para a história com aquela nota publicada no rodapé daquele jornal. E isso foi tudo o que se escreveu sobre ela durante toda sua vida, e mesmo depois de sua morte. O leitor se revoltará diante de tamanha injustiça contra essa grande artista. Tanto brilho, tanto talento, imortalizado apenas naquela nota. Essa foi a recompensa por uma vida inteira dedicada ao canto e às injúrias do amor. Talvez um dia consiga reabilitar sua memória. Então, todo o mundo saberá quem ela foi. Por enquanto, leitor, apenas eu e você sabemos sobre Mercedes Dolores, a rainha da voz e do tango. (Este texto foi publicado originalmente em 1994, sendo agora republicado a pedidos).
Foto: http://roberto-musikal.blogspot.com/2008/01/tita-merello-1904-2002.html
Escrito por Roberto Fortes às 11h20
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