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A ESTRÉIA DE FRANCISCA JÚLIA Em 1895, apareceria primeiro livro de Francisca Júlia, “Mármores”, reunindo sonetos publicados na revista “A Semana” de 1893 até aquele ano, obra custeada pelo editor Horácio Belfort Sabino. Prefaciado por João Ribeiro, consagrado crítico da época, o livro causou sensação nas rodas culturais de São Paulo e Rio de Janeiro. Francisca Júlia, no verdor dos seus 24 anos, realizava o grande sonho de infância. Olavo Bilac, já então festejado poeta, numa crônica emocionada, destacou:
"Em Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa, – não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada pela pena dessa meridional, – que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura.”
“A Semana” era uma das revistas mais conceituadas que então se editava no Rio. Dirigida por Valentim Magalhães, tinha como redatores ilustres escritores da época: João Ribeiro, Araripe Júnior e Lúcio de Mendonça. A estréia de Francisca Júlia na revista provocou grande alvoroço: os redatores não acreditavam que uma mulher pudesse escrever versos tão perfeitos. Não foi sem razão que João Ribeiro exclamou: “Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correa!...”
Em carta dirigida a Max Fleuiss, em 9 de abril de 1894, Francisca Júlia faz um retrospecto de seu trabalho poético:
“Devo à ´Semana´ (e creio que especialmente a V.) algum nome que tenho. Até há pouco tempo eu não tinha provado, a não ser muito de leve, o sabor deliberado de um elogio. Às vezes, muito raramente, um cronista cá da terra (S. Paulo) se lembrava de arriscar, com timidez, algumas palavras de encômios. Quase sempre não passavam de ´poetisa esperançosa se bem que pouco inspirada, mas sem pretensões artísticas´... E eu devorava essas palavras, com avidez, saboreando-as longamente. Quando publiquei a minha primeira poesia, uma balada à antiga, um dos nossos poetas, Severiano de Rezende, que, falemos a verdade, nunca fez bons versos, dedicou-me algumas linhas pela imprensa, em que me aconselhava que não escrevesse assim, se não me falha a memória: ´Minha senhora, há ocupações mais úteis, dedique-se aos trabalhos de agulha´. É inútil dizer que não aceitei o gentilíssimo conselho... Depois tive ocasião de ler um artigo de Valentim Magalhães em que estavam, com profusão, nomes femininos. O meu passou em branco. Fiquei triste. Foi essa a razão porque, acostumada a não me julgar nada, mesmo entre os versejadores da última plana, sempre me conservei arredia de todos os certames. E, entretanto, nestes últimos tempos, o meu nome já é citado nas rodas literárias com certo respeito e deferência. A quem o devo? Quero crer que à ´Semana´ e particularmente a V."
Encantado com esse talento literário que emergia, João Ribeiro, prefaciador de “Mármores”, ombreou Francisca Júlia à “trindade parnasiana”:
“Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa.”
João Ribeiro não poupa elogios, recordando a estréia da poetisa em “A Semana”: “Foi, pois, principalmente nas páginas de ´A Semana´ que a reputação de Francisca Júlia da Silva se tornou durável, válida e indestrutível. E quando ela vinha todos os sábados com o fulgor e a pontualidade de um planeta, era logo cercada da admiração e do aplauso com que todos nós a recebíamos. A sua poesia enérgica, vibrante, trazia a veemência de sonoridades estranhas, nunca ouvidas, uma música nova que as cítaras banais do nosso Olimpo nos haviam desacostumado.”
Tanto confete lançado em torno de sua estréia literária parece não ter subido a cabeça da jovem e já consagrada poetisa. Ao contrário, cada vez mais incentivada por amigos de peso, dedica-se integralmente à atividade poética, traduzindo para o português versos do poeta alemão Heine. A leitura dos românticos alemães, principalmente Goethe e Heine, marcaram a juventude de Francisca Júlia. A profª Maria de Lourdes Eleutério sintetiza muito bem essa sua predileção:
“Francisca lia versos, muitos versos, gostava dos românticos, dando preferência a Goethe e Heine, os quais traduzia, possivelmente do francês, e os publicava. Ela não copiava os versos do irmão. Na verdade, mesmo tendo publicado alguns livros, ele não era um bom poeta. Mas era jornalista e ajudou Francisca a lançar seus próprios poemas pela imprensa. Depois escreveram juntos um volume para crianças. Traduzir como fazia Francisca era um expediente muito usado e consentido. Uma atividade que ficava na penumbra, que nunca se divulgava, podia-se fazer no mais recôndito do lar”. (“Vidas de Romance”, Maria de Lourdes Eleutério, Doutora em Sociologia pela USP)
Há aqui uma injustiça quanto ao irmão de Francisca Júlia, o também poeta Júlio César da Silva. Ao contrário do que escreveu a professora Eleutério, Júlio César foi um dos mais importantes poetas de sua geração, sendo ombreado a Vicente de Carvalho. Apesar de parnasiana na forma, Francisca Júlia também teve passagem pelo simbolismo, introduzido no Brasil na última década do Século XIX, e que teve no catarinense Cruz e Souza o seu mais destacado representante.
Escrito por Roberto Fortes às 13h23
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O TREM DE JUQUIÁ A história da Estrada de Ferro Santos-Juquiá começa em 1906, quando o Governo do Estado autorizou a primeira de duas concessões para a construção de duas estradas de ferro com destino a Juquiá, partindo a primeira de São Paulo, e a segunda de Santos.
A primeira concessão foi autorizada pela Lei nº 1.034, de 17 de dezembro de 1906, sendo concessionária a Empresa de Colonização Sul Paulista, para a linha São Paulo-Juquiá. A segunda, em 24 de dezembro de 1907, ao engenheiro Felippe Nery Ewbank da Câmara, para a linha Santos-Juquiá (esta concessão passou, depois, para a Brazilian Railway Construction e, em seguida, para a legendária Southern São Paulo Railmay)). Ambas as concessões gozavam de garantia de juros, cessão gratuita de terras devolutas e outros favores.
Para evitar os encargos do Tesouro com o pagamento de garantias de juros (ou seja, cobrir o prejuízo) a duas estradas com o mesmo fim, o Governo do Estado promoveu um acordo entre as duas concessionárias: a Sul Paulista desistiria de sua concessão mediante indenização de 100 mil libras esterlinas, paga pela Brazilian. Estabelecido o acordo, foi assinado o contrato, em 26 de julho de 1910, aprovado pela Lei nº 1.219-A, de 24 de novembro daquele ano. A garantia de juros à Estrada de Juquiá foi fixada sobre o capital de 72:000$000 (setenta contos de réis) por quilômetro, incluído nesse preço todas as obras, aquisições e despesas necessárias tanto à construção da via férrea quanto para a abertura ao tráfego. O prazo da garantia de juros foi prorrogado por mais dez anos.
Pela leitura de algumas edições do semanário “Tribuna de Iguape” do ano de 1913, que então circulava em todo o Vale do Ribeira, conseguimos obter importantes informações sobre os trabalhos de construção dessa ferrovia.
Com data de 2 de março de 1913, o correspondente em Juquiá do jornal enviou a seguinte nota, publicada na edição nº 21, de 17-3-1913: “Com a aproximação da ponta dos trilhos da Estrada de Ferro de Santos a Santo Antônio do Juquiá, nota-se grande animação nesta villa, que será o ponto terminal dessa estrada. Vários e importantes terrenos já tem sido adquiridos aqui e nos arredores da villa, estando em construcção vários prédios, entre os quais, um que está sendo levantado pelo cap. Sylvio da Costa e Silva, especialmente para a installação de um hotel.”
Já com data de 31 de março, o correspondente registrava a presença do Dr. Fernando Paes Leme, engenheiro construtor da Estrada de Ferro no trecho entre a vila e a barra do Juquiá, que veio abastecer de víveres à turma a seu cargo. O Dr. Leme encontrava-se, então, nas proximidades da paragem Pedra Cavalo, à margem do Juquiá. Apesar do mau tempo, o engenheiro morava numa simples barraca, ao lado de seus auxiliares. O Dr. Leme era justo, mas rígido. Mantinha uma aula noturna para ensinar aos seus camaradas. “Os trabalhos da construcção da estrada no referido trecho vão bastante adiantados”, conforme lemos na Tribuna de Iguape.
Para o trecho entre Juquiá e Prainha, empreitado pelo sr. João Veloso, eram esperados uma turma de cem trabalhadores e vinte toneladas de materiais para construção.
Alguns meses mais tarde, o correspondente, escreveu: “Acha-se bastante adiantado o leito da Estrada de Ferro de Santos a Santo Antônio do Juquiá, devendo por estes dias ficar concluído o trecho desta villa ao primeiro morro do sítio Pouso Alto, tendo alli diversos cortes que logo serão terminados. O Dr. C. M. Ingledew e seus auxiliares muito tem contribuído para o adiantamento das obras, empregando todos os esforços, e com muita boa vontade remunera os seus operários, fazendo-lhes bons ordenados, que são pagos com muita pontualidade no final de cada mez; pois actualmente os ordenados variam de 4$000 a 5$000 diários.”
A linha Santos-Juquiá foi inaugurada em 5 de janeiro de 1914, quando um pequeno trem da Southern São Paulo Railway, composto de locomotiva a vapor e duas galeras (vagões abertos, tipo gôndola) chegava a Juquiá, inaugurando a Estrada de Ferro Santos-Juquiá. A estrada possuía trilhos com bitola de um metro, numa extensão de 161,5 quilômetros.
Em 1917, foram registrados três descarrilamentos de trens de carga, que resultaram em avaria do material.
Nos dias 27 e 28 de janeiro de 1922, em virtude de inundação no rio Juquiá, o trecho nas proximidades do Km 158,7, numa extensão de 100 metros, ficou sujeito a baldeação. Também devido à inundação pelo rio Itariri, no Km 121, numa extensão de 500 metros, no dia 2 de março daquele ano, o trem M-2 chegou a Santos com atraso. Ainda devido a inundações, correram os trens com irregularidade, sendo o tráfego normalizado em fins de março de 1922.
Essa ferrovia, a julgar pelas receitas e despesas de seus primeiros anos, era deficitária. Por exemplo, em 1921, a receita foi de 614:140$174 réis contra uma despesa de 896:593$420, o que levou o Governo a pagar uma garantia de juros no valor de 282:453$246. Já em 1922, a situação piorou: para uma receita de 648:950$456, uma despesa de 1:016:126$463, com uma garantia de juros de 367:176$007 réis. (continua)
Escrito por Roberto Fortes às 22h36
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Prosseguindo a nossa série sobre a Estrada de Ferro Santos-Juquiá, vejamos o que escreveu “A Tribuna”, de Santos, em sua edição de 5 de janeiro de 1986, em comemoração aos 72 anos da inauguração dessa ferrovia:
“A ferrovia, projetada e construída por engenheiros ingleses, tinha por objetivo o transporte da produção agrícola da região – principalmente banana, mandioca, arroz, café e chá – destinada aos grandes centros consumidores (como a Província de São Paulo) e à exportação via Porto de Santos.
“Em Juquiá, os trilhos chegavam às margens do rio que dava nome ao lugar, ´um grande bananal com alguns milhares de pés da musácea, plantados nas encostas, até onde dava para se ver sem o uso de binóculos´, segundo os cronistas da época. Na outra ponta, em Santos, a ferrovia estava assentada com trilhos de bitola métrica, no Bairro do Macuco, entre as ruas João Guerra e Borges, passando ao lado da Linha Forte Augusto (pequena ferrovia da Cia. Docas que transportava lixo e aterro entre o Morro do Jabaquara e o Bairro do Pau Grande, denominação antiga dada ao Estuário) e do vulcão calado do manguezal da Mortona. Para chegar ao cais e aos navios atracados no Paquetá, ao lado do cemitério dos ingleses, na rampa do mercado, as mercadorias seriam transportadas em carroças puxadas por muares, ´numa viagem que durava hora e meia, sem paradas para descanso, que era feita duas vezes por dia, menos nos domingos e dias santos da igreja´.
“O traçado da ferrovia, a partir do Macuco, contornava os morros e devido a um litígio de terras com a família Martini, no José Menino, foi feito pequeno desvio junto ao Morro do José Menino, onde foi construído um túnel de cerca de 100 metros, desembocando nas proximidades da Pedra dos Ladrões, já em São Vicente.
“A obra mais demorada, entretanto, foi a construção da ponte sobre o rio Barreiros, estaqueada com eucaliptos vindos do Paraná por via marítima. Esse mesmo tipo de construção de ponte foi adotado na travessia do Rio Itanhaém. "A Santos-Juquiá operou como ferrovia particular e isolada até o final da década de 1920 [mais exatamente em 1927] , quando foi encampada por 600 mil libras esterlinas, incorporando-se à E. F. Sorocabana, hoje Fepasa. Para cobrir a despesa, o então governador da Província de São Paulo, Júlio Prestes, emitiu títulos da Dívida Pública naquele valor.” Uma tragédia na linha de Prainha Poucos sabem que a Estrada de Ferro Santos-Juquiá foi palco de uma tragédia que sensibilizou toda a região. Vamos à história, resgatada graças às edições do antigo semanário “Tribuna de Iguape”, que então circulava em todo o Vale do Ribeira.
Em 23 de maio de 1913, o jornaleiro (que recebia por dias trabalhados) Carlos Casemiro, de nacionalidade polonesa, assassinou a revólver o jovem Eduardo Costa, administrador-chefe dos trabalhos da construção da Estrada de Ferro de Santos a Santo Antônio do Juquiá, no trecho da antiga Prainha (Miracatu), cujo empreiteiro das obras era o sr. João Veloso.
Logo pela manhã, ao ouvirem os disparos, acorreram ao local o capitão Roldão Constâncio Ferreira, subdelegado de polícia; o alferes Quintiliano de Oliveira, comandante do destacamento local; e muitos populares. Encontraram a vítima tombada no Largo da Matriz, “mortalmente ferido por balas na cabeça e no peito, vindo a falecer meia hora depois”.
O criminoso fugiu, sendo perseguido durante seis horas pelo alferes Quintiliano e seus praças, que não encontraram a pista do fugitivo. Auxiliares do escritório dirigido por Eduardo Costa formaram uma escolta, penetraram no sertão e alcançaram o assassino no Porto da Serra, às dez horas da noite. Houve resistência armada da parte de Carlos Casemiro. Mas a escolta conseguiu capturá-lo e conduzi-lo à vila, onde foi apresentado à autoridade policial no dia seguinte e recolhido ao xadrez. O capitão Roldão Constâncio Ferreira fez o auto de corpo de delito e abriu o inquérito policial, apurando a autoria do crime. Carlos Casemiro trabalhava como jornaleiro no serviço de abertura da estrada na paragem denominada Três Irmãos. Viera à Vila de Prainha no dia 22 de maio, “junto com outros jornaleiros para regularizarem seus negócios no escritório”.
Os jornaleiros foram atendidos pelo administrador e receberam seus pagamentos, “uns, dinheiro corrente e outros, ordens à vista para serem pagas em S. Paulo”. Todos? Não. Menos Carlos Casemiro. Por quê? Por não ter “apresentado sua caderneta devidamente visada pelo administrador da secção, não porque este se recusasse a deitar o visto, mas sim porque Casemiro não havia terminado sua tarefa”. Movido pelo ódio e vingança, o assassino decidiu tirar a vida de seu chefe. Lemos na “Tribuna de Iguape”: “E só por esse motivo, levantou-se o braço do homicida para abater uma vida necessária”. Eis a trágica história que manchou de sangue os trilhos da quase centenária Estrada de Ferro Santos Juquiá.
Escrito por Roberto Fortes às 22h35
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Ao correr da pena... A Pedra da Paixão
Na coluna de 30 de janeiro último, escrevi sobre a tragédia da Pedra da Paixão, em Iguape, e prometi aos leitores contar detalhes sobre esse dramático caso de amor. Estamos no ano de 1923. João Teodoro (era assim chamado, mas seu nome de batismo era João Ribeiro de Aguiar) amava uma bela jovem chamada Teresa Fagundes. Mas existia entre ambos um detalhe cruel: João era pobre e Teresa, digamos, remediada. Nem é preciso falar que os pais da moça se colocaram frontalmente contrários a esse namoro. Teresa foi proibida de se encontrar com João. Para comunicar ao amado essa despótica determinação paterna, a jovem passou numa papelaria e comprou um vidro de tinta roxa (naquele tempo se escrevia à caneta-tinteiro). Escreveu uma carta a João contando sobre a proibição de seu namoro com ele. João ficou transtornado. Trabalhava como caixeiro na “Casa Lima”, que pertencia ao sr. José Ildefonso de Lima, mais conhecido por Juca Lifonso, vulto bastante conhecido e respeitado em seu tempo. Naquele dia, João faltou ao trabalho. Logo ele, que sempre fora um funcionário exemplar. Deram por sua falta. Cadê o João? Sua família ficou preocupada. Perguntam daqui, perguntam dali, e nada dele. O dono do bar contou que vendera ao moço duas garrafas de pinga (certamente, a “Cristiano”). O dono da farmácia disse que tinha vendido a ele dois frascos de arsênico, mas do homeopático. Sim, todos perceberam que João fizera uma loucura. Naquela noite, João não dormiu em casa. Logo ele, filho tão dedicado e responsável. Foram procurar o sr. Juca Lopes, tabelião, que era espírita. O médium disse que os espíritos lhe garantiam que o corpo de João estava sob a Pedra da Paixão. Foram todos para lá. O povo e os mergulhadores. Estes, sem escafandro, só nos pulmões. Na base da Pedra da Paixão encontraram as duas garrafas de pinga e os dois frascos de arsênico. Sim, todos concluíram. João fizera uma loucura. Os mergulhadores vasculharam a parte submersa da pedra. Numa reentrância encontraram o corpo de João. Todo comido de siris e com as unhas levantadas para trás. Talvez passado o desejo de morrer, mas desnorteado e já sem forças devido à pinga e ao arsênico, João tentou se agarrar na pedra. Tentou desesperadamente escalar as íngremes escarpas. Mas em vão. Cansado, bêbado e sonolento, submergiu às profundezas das águas. Seu corpo foi enterrado no cemitério da cidade. Quanto à Teresa, contam que vestiu luto fechado por algum tempo. Mas o tempo – em sua inexorável caminhada – passou. Teresa acabou se casando com um dono de barco e foi embora da cidade. Tudo voltou à normalidade. E a Pedra da Paixão ainda lá se encontra, a se debruçar sobre o Mar Pequeno, guardando em suas entranhas a história shakesperiana de João e Teresa. A enchente
O rio enche.
De suas margens, a água transborda num furor endoidecido, levando tudo o que se encontra pela frente. No céu, a chuva é uma só; há muitos dias que cai sem parar. Tantos meses de seca, tanta lavoura perdida, e agora, de repente, aparece esse mundo de água que não acaba mais. Vingança da natureza? Mas que mal o ribeirinho lhe fizera, se sempre soubera se utilizar de seus recursos com sabedoria e parcimônia?
As últimas notícias davam conta que Ribeira-acima as coisas estão bem piores. Xiririca está sob as águas e todas as orações se voltam para a protetora Nossa Senhora da Guia, que em seu altar lança o olhar benevolente sobre a cidade como se para impedir que as águas flagelem ainda mais seus fiéis. Na canoa, o ribeirinho vaga pelos espaços de seu pequeno domínio, posse herdada dos antepassados, tentando resgatar as criações poupadas pelas águas. No fundo da canoa, a mulher tem os olhos vermelhos, mas não verte uma lágrima; sabe que o esposo e os quatro filhos precisam dela firme e forte. Ele recolhe algumas galinhas e vê os corpos boiando na correnteza de seus porcos e bois; tudo perdido. Da plantação, só avista as pontas que balançam sob o caminhar furioso das águas. Nada restou, além dele e a família e aquele pouco de criação. Em seus quarenta e tantos anos morando naquelas terras jamais vira tanto água junta. Verdade que o Ribeira sempre foi um rio caprichoso, protagonista de enchentes espetaculares. O avô lhe contara que, pelos idos de 1807, a Vila de Xiririca fora completamente destruída pelas águas e teve que ser transferida para o local atual. Notava as lágrimas que escorriam dos olhos marejados do velho quando ele narrava essa história. Logo se desvia desses pensamentos e continua a remar sob a chuva que insiste em cair. Talvez vá para o abrigo da cidade, onde outros já se encontram há dias, longe de suas terras, distantes de suas casas destruídas e de suas mobílias levadas pelas águas. Enquanto rema, olha desgostoso para a mulher e os filhos, e nem sequer pensa em chorar. Seu choro, por certo, de nada adiantaria contra a fúria do rio. (JORNAL REGIONAL, nº 814, de 20-2-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 13h41
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Ao correr da pena... “Sortilégios e Tesouros” Sábado, dia 7, fui a Miracatu prestigiar o lançamento do livro “Sortilégios e Tesouros”, de meu prezado amigo e grande poeta Júlio César da Costa. Muita gente, amigos, escritores, artistas abrilhantaram a concorrida noite de autógrafos. Cultura, poesia, boa música. Encantei-me especialmente com “Tucano de Ouro”, música que Antônio de Lara Mendes compôs tendo como tema a conhecida lenda da Juréia. Lara e Júlio interpretaram a música, que arrancou calorosos aplausos do público. Júlio declamou vários de seus poemas, provando que, além de poeta e declamador, também é um excelente ator. Fiquei feliz com a promessa da prefeita Déa de dar todo o apoio à futura Academia Valerribeirense de Letras. Com a colaboração de todos os que acreditam na cultura, essa idéia logo dará os seus frutos. Afinal, cultura não é coisa supérflua: é parte integrante do ser humano. Parabéns, amigo Júlio! E fico esperando pelo seu próximo livro. Academia de Letras No último sábado, recebi a visita dos poetas Jehoval Júnior e Osvaldo Matsuda. Conversamos sobre cultura e literatura do Vale do Ribeira. E enfatizamos o acalentado projeto da fundação da Academia Valerribeirense de Letras. A idéia parece que já nasceu vitoriosa, haja vista o número de escritores, poetas, músicos, jornalistas e divulgadores culturais que vem aderindo. Para setembro ou outubro está previsto um fórum cultural para discutir e formatar o projeto. Se tudo correr bem – e tudo está correndo de acordo – a previsão é que a Academia Valerribeirense de Letras seja oficialmente fundada no dia 31 de agosto de 2010. A data é bem representativa. Francisca Júlia nasceu nesse dia. Avante, literatos! Fechando bares Em Goiás, a Polícia fechou grande quantidade de bares que funcionavam sem alvará. Essa medida acertada, com certeza, concorrerá para a diminuição da violência naquela Capital. É notório que comerciantes inescrupulosos, na ânsia de ganhar uns trocados, não hesitam em vender álcool a menores de idade. E um jovem “turbinado” pelo excesso etílico (além de outros produtos pouco recomendáveis) é capaz de provocar brigas, arruaças, além de praticar roubos, furtos e até assassinatos. Essa medida salutar da Polícia bem que poderia ser copiada aqui no Vale do Ribeira. Basta andar pelas cidades da região e constatar que existe um bar em cada esquina. E a grande maioria desses estabelecimentos será que possui alvará de funcionamento? Cabe às Prefeituras, em parceria com a Polícia, fechar esses comércios ilegais que fomentam a degradação de nossa juventude. No retratista Adolpho Chator foi um retratista que viveu em Iguape em plena Belle Époque, ou seja, de fins do século XIX à primeira década do século seguinte. Era retratista. Nos dias atuais seria chamado, grosso modo, de fotógrafo. Depois da morte do naturalista Ricardo Krone, em 1917, Chator comprou a Pharmacia Popular, pertencente àquele, situada num belo sobrado, no Largo da Matriz. Mas voltemos ao lusco-fusco do século XIX, mais precisamente ao ano de 1898. Três matutos batem à porta da Photographia Chator. “Mecê é que pinta a gente?” – perguntou um deles. “Sou, sim, por quê?” – respondeu Chator. “Nós qué sê pintado tudo junto” – explicou o matuto. “Ah, já sei, querem em grupo?” – perguntou Chator. “É mêmo” – prosseguiu o matuto –, “assim em quadrúpede...”. Trabalhos de agulha “Quando publiquei a minha primeira poesia, uma balada à antiga, um dos nossos poetas, Severiano de Rezende, que, falemos a verdade, nunca fez bons versos, dedicou-me algumas linhas pela imprensa, em que me aconselhava que não escrevesse assim, se não me falha a memória: ´Minha senhora, há ocupações mais úteis, dedique-se aos trabalhos de agulha´. É inútil dizer que não aceitei o gentilíssimo conselho...” (Carta de Francisca Júlia a Valentim Magalhães, editor da revista “A Semana”, do Rio de Janeiro, em 9-4-1894). Nícia em Paris “Paris é bonito e sedutor. O movimento nas ruas é extraordinário. As casas artisticamente feitas são muito elegantes; as ruas muito direitas, largas e bem calçadas. As lojas e cafés são deslumbrantes, reinando em toda parte grande animação. Estamos no inverno. As árvores não têm uma única folha; amanhece às 8 horas e às 4 da tarde já é preciso luz! O sol aparece pálido e frio, e por vezes tenho visto cair neve. Tenho bastante saudade das minhas verdes árvores, do sol quente e claro do meu Brasil; enfim é preciso suportar tudo pela arte que tanto adoro!” (Carta de Nícia Silva, cantora lírica nascida no Vale, ao maestro iguapense Joaquim José Rebello, seu velho mestre, em 1904). Frase “Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” (Albert Camus, escritor argelino de expressão francesa, Nobel de Literatura em 1957) (JORNAL REGIONAL, nº 813, de 13-2-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 15h39
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Poeta Júlio Costa lança "Sortilégios e Tesouros" 
O poeta Júlio Céar da Costa. MIRACATU – Com o plenário da Câmara Municipal completamente lotado, o poeta Júlio César da Costa lançou, no sábado, dia 7 de fevereiro, o seu mais recente livro, “Sortilégios e Tesouros – Poemas, Causos e Lendas do Vale do Ribeira”. A noite de autógrafos foi prestigiada por vários poetas e escritores do Vale do Ribeira, além da prefeita Déa Fátima Leite Moreira da Silva. O Grupo Batucajé, do qual Júlio Costa faz parte, animou a noite com belíssimas apresentações musicais. Antônio de Lara Mendes, um dos fundadores do grupo, ao lado de Júlio, cantou a música “Tucano de Ouro”, que foi bastante aplaudida pelo público. Outros artistas, como Carlos Malungo, também deram um brilho todo especial ao evento literário. O Júlio César, que além de respeitado poeta é experiente declamador, recitou e encenou vários de seus poemas, entre os quais, “Nego d´água”, em parceria com o artista plástico Osvaldo Matsuda. A prefeita Déa, em aplaudido discurso, destacou o fato de que a cultura em Miracatu está passando por um momento muito especial, com a participação de muitos poetas, artistas, músicos, o que vem enriquecendo a cidade. A prefeita ainda destacou que está para ser criada na região a Academia Valerribeirense de Letras, e prometeu dar todo o seu apoio para a concretização desse projeto. O escritor e jornalista Jehoval Júnior, autor de “Tarsila Eterna”, leu o Manifesto dos Escritores do Vale, que lançou a idéia da fundação da Academia de Letras. Entre os escritores presentes ao lançamento do livro, estavam Roberto Fortes, colaborador do Jornal Regional, o historiador Paulo de Castro Laragnoit, Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha, Renato Cavalheiro, Paloma dos Santos e Genésio Júnior. Poemas do poeta Júlio César da Costa podem ser lidos no blog “Literato do Vale”: http://literatodovale.blogspot.com. Serviço: Livro: “Sortilégios e Tesouros” Editora: Inteligência, de Peruíbe Páginas: 200 Contato: jcosta1991@itelefonica.com.br Fotos da Noite de Autógrafos 
Osvaldo Matsuda, Antônio Lara e Júlio Costa executam “Nego d´água”. 
Jehoval Júnior lê o manifesto da Academia de Letras. 
Autores reunidos: Genésio Júnior, Renato Cavalheiro, Marcos Mendes (Ed. Inteligência), Jehoval Júnior, Júlio Costa, Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha (agachado), Paulo Laragnoit, Roberto Fortes e a prefeita Déa. 
Grande público prestigiou Noite de Autógrafos.
Escrito por Roberto Fortes às 14h46
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Ao correr da pena...
O Dia do Político Honesto Em certa cidadezinha, cujo nome não vem ao caso, foi instituído o Dia do Político Honesto, uma brilhante proposta do edil Patápio Junqueira. Grande festa seria promovida na cidade, com a presença de famosos artistas e a participação de notáveis políticos. Todos os preparativos foram feitos com esmerado zelo e elevado senso cívico, afinal seria a data mais importante do lugar, maior até que a festa da Santa Padroeira. O esforçado prefeito Benvindo Brigante mandara confeccionar até mesmo um reluzente troféu banhado a ouro, com o busto do senador Gervásio Bicão, ilustre varão da terra, que seria ofertado ao político que preenchesse todos os requisitos necessários: honestidade, dedicação aos interesses e respeito ao dinheiro públicos. Bem se pode imaginar a repercussão que a instituição desse troféu causou nos meios políticos nacionais. Quem não gostaria de arrebanhar tão cobiçado troféu? Que político não desejaria ser escolhido o mais honesto do Brasil, com direito a comenda e tudo, instituída pela Venerável Ordem dos Cavaleiros Políticos Honestos? E chegou a data tão esperada. A cidadezinha foi invadida por gente de todo lado. Era jatinho do Congresso, era helicóptero da Assembléia, era automóvel de chapa branca. Nunca se vira tanto político junto, nem mesmo quando do enterro do senador Gervásio Bicão – esse venerando cavaleiro andante da moralidade nacional –, anos atrás. Dentre os mais sérios concorrentes ao troféu e à comenda, uns acreditavam que seria escolhido o deputado Eslávio Creonte, que viera ao evento em vários helicópteros da Assembléia, acompanhado de cem amigos. Outros garantiam que o senador Prudêncio Dantas arrebataria o título, afinal tinha muitos amigos – trouxera quase duzentos em jatos do Congresso. O governador Gusmélio Fonseca também era dos mais cotados, não obstante ter trazido ao evento somente cinqüenta amigos, que lotaram apenas quinze automóveis oficiais. As opiniões dividiam-se, os partidários desse ou daquele procuravam defender o retilíneo caráter e o elevado amor à causa pública de seu político preferido. A missão do júri seria das mais espinhosas. As gorjetas e as promessas de emprego eram as táticas mais utilizadas pelos pretendentes, não que eles pretendessem comprar os jurados, isso não, apenas queriam demonstrar a sua admiração por esses homens tão sensatos, que tinham a incumbência de escolher o político mais honesto do país. E chegou o final do dia. A festa fora um espetáculo memorável; agora, era a vez de o júri decidir. As atenções todas se voltaram para o palanque da mesa julgadora. Os políticos continham a respiração, enxugavam o suor do rosto, a expectativa era geral. Finalmente, o presidente da mesa, após cumprimentar a todos os participantes, falou ao público. E, para o espanto geral, comunicou que o prêmio não seria concedido. É que nenhum dos candidatos conseguira preencher os requisitos necessários... AO CORRER DA PENA... A invasão do espaço público O que pertence ao público não pode ser considerado como bem particular, extensão de sua casa ou de seu comércio. Em Iguape, comércios invadem as calçadas, expondo seus produtos a eventuais fregueses, mas impedindo o livre tráfego de pedestres. No Centro Histórico constroem-se em cima de calçada; em outras partes da cidade, rampas construídas clandestinamente por sobre as calçadas literalmente impedem a passagem de pedestres. Sem contar prédios que são construídos invadindo espaço do passeio público e automóveis que usam calçadas como garagens. E parece que o povo acha tudo normal. Parece que tendo a novela da “Grôbo” e as “loira gelada” está tudo bem. Não está tudo bem. O que é público pertence ao público, e não a particulares. Que se faça valer o Código de Posturas. Fonte do Senhor No passado, esse logradouro foi um dos mais frequentados da cidade. Era lá que a sociedade e o povo em geral passavam momentos agradáveis de lazer, em contato direto com a natureza. Hoje, virou reduto dos adoradores da Deusa Canabis. Além dos cuidados com a sua manutenção, é necessário um vigilante municipal. A Polícia Militar também poderia fazer rondas diárias no local, o que afastaria os desocupados, meliantes e queimadores da “erva maldita”. Fonte da Saudade Outro recanto que está a merecer maior atenção é a Fonte da Saudade, inaugurada em 1843. Ali foi o cenário da bela história de Porangaba e seu pai Turuçuçaba, resgatada pelo historiador Waldemiro Fortes. Com pouco gasto o local poderá ser revitalizado. Cuide-se de sua fonte, coloquem-se uns quiosques. Ah, sim, e um vigilante. Sem isso, os godos, ostrogodos e visigodos depredarão tudo. Mendicância Legiões de mendigos vem tomando conta de largos, praças e ruas de Iguape. Estão por toda a parte. Mexem com todo mundo. Fazem suas necessidades à vista de todos. Urinam. Evacuam. Transam. Todo mundo vê. Abordam mulheres casadas e solteiras. Sujam a cidade. Coisas desse tipo. Nada contra a mendicância. Existe em todo o mundo. Mas também existem limites. A partir do momento em que desocupados perturbam a ordem pública, abordam pessoas (mulheres, senhoras, adolescentes, crianças) e fazem propostas e comentários obscenos, é a hora de se tomar as devidas providências. (JORNAL REGIONAL, nº 811, de 6-2-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 14h13
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Ao correr da pena... A Pedra da Paixão
Antiga formação geológica, hoje de propriedade particular (não obstante ser área de marinha), a famosíssima Pedra da Paixão, situada num dos contrafortes do Morro da Espia, em Iguape, guarda histórias, muitas histórias. Ali foi cenário de um dramático caso de amor. Talvez Shakespeare tivesse mais talento para narrar essa trágica história. Na falta do bardo inglês, cabe a este simplório alfarrabista narrá-la aos seus poucos, mais fiéis, leitores. Vamos à história. Na noite de 1º de fevereiro de 1923, o jovem João Ribeiro de Aguiar, que contava apenas 19 anos, atirou-se ao Mar Pequeno, quando estava a se lamentar de um amor impossível, ali na Pedra da Paixão. Como acontece com boa parte dos suicidas, deixou uma carta. Sim, uma carta. Machado de Assis, em certo conto, escreve que os suicidas fazem questão de deixar uma carta, onde explicam as razões de subtraírem as próprias vidas. À carta, vamos à carta, que foi publicada na antiga “Tribuna de Iguape”, nº 412, de 11-2-1923, então dirigida pelo legendário Major Mingute, e que aqui transcrevo em sua ortografia original:
“A quem ler. Perdoem-me si foi um erro isto que cometti perante este mundo de ingratidão, onde só encontra-se obstáculos, mas por menos será impossível. Hoje eu sei quantos erros existem aqui nesta lama, mas como o mundo é somente lixo e que não passa disso portanto eu desisto delle para não servir mais de forças para ella. É muito bom mas para os que nascem com a felecidade. “Eu julgava que seria fácil viver, mas hoje compreendo que não é. Si eu faço isso, é porque me acho sem forças necessárias para viver. Limito-me a fazer só estas linhas porque acho ser o necessário. “No mais, adeus e me perdoem o que fiz. Heide dar contas a Deus. Não culpem a ninguém, eu sou o único culpado. [a] J. Aguiar.” Essa carta foi encontrada nos bolsos do rapaz. O cadáver foi achado no dia 2 de fevereiro. Mas por quem morreu o moço José Ribeiro de Aguiar? Que lábios ou corpo sedutor teriam sido a causa de tão tresloucada atitude? É o que veremos em nossa próxima edição. Aguardem. Academia de Letras
O Vale do Ribeira sempre foi celeiro de valores intelectuais, artísticos e culturais. A lista é longa e não caberia neste espaço que disponho para a minha modesta coluna. Basta citar, a título ilustrativo, as figuras exponenciais de Francisca Júlia, Júlio César da Silva, Ricardo Krone, Eugênio Egas, Ernesto Young, Domingos Bauer Leite, J. Mendes, Antônio Paulino de Almeida, Laurindo de Almeida, Nícia Silva, etc.
Nos dias atuais, o Vale também tem um naipe excelente de poetas, escritores, artistas plásticos, músicos, jornalistas. O que falta é agrupar todos esses bravos guerreiros da cultura regional numa associação ou cooperativa, para a divulgação e valorização de seus trabalhos. A idéia de se criar uma Academia Valerribeirense (olha o Acordo Ortográfico aí, gente!) de Letras, que congregaria, não apenas escritores e poetas, mas também os notáveis do Vale (a exemplo das academias francesa e brasileira), nasceu quando os poetas Jehoval Júnior, Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha e Genésio Martins me visitaram, aqui em Iguape, no último Natal. A idéia foi crescendo, ganhando adeptos, e o resultado pode ser comprovado no blog “Literato do Vale”, onde o leitor tem um amplo painel sobre diversos autores e suas obras. O endereço do blog é: http://literatodovale.blogspot.com. Autores do Vale! Uni-vos! Friedenreich no Vale
O leitor decerto já ouvir falar no célebre jogador Artur Friedenreich, um dos mais afamados futebolistas brasileiros. O que talvez desconheça é que Friedenreich visitou o Vale do Ribeira, em 1945. Neste ano, no mês de setembro, “o mais festejado craque da América” passou alguns dias em Iguape e Cananéia. Sobre essa visita, encontramos as seguintes linhas na “Tribuna de Iguape”, nº 635, de 23-9-1945: “Esteve nesta cidade, de passagem para Cananéia, o festejado esportista, sr. Artur Friedenreich, considerado ´o mais festejado craque da América´. Demorando-se alguns dias nesta cidade, foi alvo das mais justas manifestações de apreço por parte das autoridades, dos esportistas e do povo iguapense em geral. Cavalheiro dotado de primorosa educação, o grande às do futebol deixou-nos deveras encantados com sua agradável palestra, prometendo aqui passar mais alguns dias, no seu regresso de Cananéia.” “Sortilégios e tesouros”
O meu prezado amigo Júlio César da Costa, inspirado poeta e talentoso músico miracatuense, lançará, no próximo dia 7 de fevereiro, o seu livro “Sortilégios e tesouros – poemas, contos, causos e lendas do Vale do Ribeira”. Pelo título, o leitor já tem uma idéia dos poemas que compõem a obra: o nosso Vale do Ribeira, seu povo, sua gente, sua cultura. Ou seja, uma leitura imperdível! O lançamento será às 20h00, na Câmara Municipal de Miracatu, Rua Emilio Martins Ribeiro, nº 160 (anexo ao Ginásio de Esportes). Além de autografar os livros, o poeta Júlio Costa receberá vários artistas que interpretarão as suas obras: Carlos Malungo, parceiro do poeta há 15 anos; Antônio Lara Mendes e o Grupo Batucajé; Osvaldo Matsuda; e Deco. Estaremos todos lá, Júlio! (JORNAL REGIONAL, nº 810, de 30-1-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 14h09
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Poeta Júlio Costa lança livro

Poeta Júlio Costa. O poeta miracatuense Júlio César da Costa lançará, no próximo dia 7 de fevereiro, seu livro "Sortilégios e tesouros, Poemas, contos causos e lendas do Vale do Ribeira". O lançamento será às 20h00, na Câmara Municipal de Miracatu, Rua Emilio Martins Ribeiro, nº 160 (anexo do Ginásio de Esportes). Além de autografar os livros, o poeta receberá vários artistas que interpretarão suas obras: Carlos Malungo (parceiro do poeta há 15 anos); Antônio Lara Mendes e todo o Grupo Batucajé; Osvaldo Matsuda; e Deco.
Escrito por Roberto Fortes às 09h57
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Ao correr da pena...
Deu no "Miracatuando"...
O escritor e jornalista Jehoval Júnior, que ao lado dos poetas Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha e Genésio Martins Júnior, me visitaram, no último Natal, em meu refúgio iguapense, publicou em seu excelente blog "Miracatuando" as suas impressões sobre esse encontro, tecendo linhas elogiosas a meu respeito que, apesar de não merecidas, agradeço, penhoradamente. Compartilho com o leitor essa amabilidade do ilustre jornalista miracatuense, autor do essencial "Tarsila Eterna", recém-lançado:
"Um dos grandes entusiastas e um grande conhecedor da história do Vale do Ribeira chama-se Roberto Fortes, ao qual admiro profundamente por suas iniciativas e pelo seu profundo amor às questões do nosso Vale do Ribeira. Estive com ele dia 24 de dezembro de 2008, em sua residência em Iguape, juntamente com meus amigos poetas Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha e Genésio Júnior, para presentear-lhe com um livro meu. Que receptividade acolhedora! E quantas idéias ali plantadas para que possamos colher frutos abundantes. Nesta visita, foi então sugerida a implantação de uma Academia de Letras regional que, com esforços de todas as cidades, pode se tornar uma realidade.
"Mas por que uma academia de letras, muitos devem pensar? Para que juntos, cooperativamente, possamos fazer com que as produções locais alcancem mercado fora das fronteiras do Vale ou, mesmo, possam ganhar espaço nas cidades do Vale do Ribeira. Criar um Museu de Imagem e Som Regional dentro da Academia para que possam ser materializados depoimentos e documentos relevantes para a preservação da história local. Além de muitas e outras funções que serão importantes e que serão veiculadas em breve para todos vocês. Obrigado, Roberto Fortes, por ser um guerreiro na luta dos ideais do Vale." (http://miracatuando.blogspot.com)
Triste Rebocador...
Deu no blog "Diário de Iguape", do escritor e poeta Julio Silva, em 11-1-2009:
"No dia 3 de junho de 2006 era solenemente inaugurada a exposição do Rebocador AMRJ-06, que chegou à cidade em 29 de maio, vindo diretamente do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro. O rebocador representava a "pedra fundamental" do projetado "Memorial do Mar", que seria construído nos fundos do terreno pertencente à Capitania dos Portos, na Orla do Mar Pequeno.
"O Rebocador foi construído em 1942. Quando aqui chegou, foi coberto por uma tenda, que logo se rasgou e foi substituída por outra, que há meses também se rasgou, deixando a embarcação completamente sujeita às intempéries. Se isso não bastasse, o Rebocador passou a ser o prato preferido dos vândalos, que destruíram o painel explicativo ao lado, levaram placas de bronze e até o timão de bronze, quebraram as janelas, arrombaram portas, etc.
"O Rebocador deveria simbolizar o passado portuário de Iguape, município onde houve um dos principais portos do País. Mas acabou por representar mais um monumento abandonado pelo Poder Público, no caso, o Municipal. Algumas pessoas estão contatando a Marinha do Brasil e sugerindo que o Rebocador seja transferido para outra cidade litorânea que saiba lhe dar o merecido valor.
"A reportagem do Diário de Iguape documentou o estado de completo abandono em que se encontra esse patrimônio histórico de Iguape e do Brasil, para chegarmos a uma pergunta: vamos esperar o Rebocador apodrecer ou ser totalmente destruído para, então, cobrarmos providências?
"A situação das ruínas do Porto Grande também espelham o descuido com o patrimônio histórico; pelo alto se vê o matagal e, quem for um pouco mais curioso, poderá ver lixo amontoado junto ao capim." (http://diariodeiguape.com)
"Batalhas" (micro-conto)
Nada. Também não foi desta vez. Todo ano ele tentava. Não conseguia. Era difícil dizer. Tarefa espinhosa. Missão impossível. Sempre tentava. Algumas vezes com empenho, outras apenas por tentar. E sempre nada. Dizer. Do profundo da alma. De profundis. Lançar-se de cabeça ao âmago. À essência da vida. Só isso. Parecia simples. Era simples. Ele não conseguia. Mil batalhas teria preferido. As mais sangrentas. As mais fraticidas. A guerra do Peloponeso. A batalha do Álamo. O Vietnã. Tudo. Menos dizer. Trincheiras. Barricadas. Baionetas. O front. Tudo. Menos dizer: Eu te amo!
Gastão Ferreira
O meu prezado amigo Gastão Ferreira, poeta, escritor e, agora, blogueiro, está cada vez mais impagável. Com seu estilo crítico e bem humorado, Gastão cria verdadeiras pérolas poéticas, além de sátiras que não necessariamente referem-se a personalidades de plantão, quer dizer, bem, sei lá, entende. Quem desejar conhecer o trabalho poético e crônicas desse incansável guerreiro das letras vale-ribeirenses, basta acessar o blog: http://gastaodesouzaferreira.blogspot.com.
Frase
"Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso 'Não era bem isto o que queria dizer'." (Érico Veríssimo, escritor gaúcho, autor de "O Tempo e o Vento").
(JORNAL REGIONAL, nº 810, de 23-1-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 19h32
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Batinas imaculadas
Como toda região cujo passado se perde nas brumas nebulosas da História, o Vale do Ribeira foi palco de acontecimentos importantes, alguns pitorescos, outros tantos picarescos. Resgatei do baú do passado as estripulias de dois servos de Deus que, por certo, fizeram corar as pálidas faces de muitos eminentíssimos bispos. O leitor, com toda a certeza, jamais ouviu falar deles; em sendo assim, deixe-me apresentá-los: Moreau, belga, e Blondet, francês, sacerdotes um tanto fora dos moldes exigidos pela Igreja Católica.
Comecemos pelo primeiro. Seu nome de batismo era Jean Moreau. Aqui chegando, passou a se chamar José Moreau (ou José Moraes, para alguns). Pois bem. O padre Moreau foi vigário de Iguape. Isso lá pelos idos de 1896/1897, no lusco-fusco do século XIX (desculpem-me o expressar um tanto livresco).
Certa feita - os registros confirmam que foi no dia 26 de setembro de 1897 -, o padre Moreau, em cumprimento aos seus deveres sacerdotais, foi até a barra do Juquiá, no sítio do sr. Jacob Vilardo, onde existia uma capelinha. Esse local, como de resto quase todo o Vale do Ribeira - à exceção de Cananéia e Xiririca (Eldorado) - pertenciam a Iguape, portanto, tambem eclesiasticamente, à jurisdição da Paróquia de Iguape.
O padre Moreau, ao saber que o vigário de Xiririca, cônego Leon Blondet, fora celebrar a festa da padroeira no distrito de Prainha (Miracatu), e que muitos batizados o esperavam ali na barra do Juquiá, desesperou-se a ponto de ir à capelinha e, num púlpito improvisado, dirigiu-se às pessoas presentes, cientificando-as que o vigário de Xiririca não tinha competência para batizar e casar ali, e que, se praticasse alguns desses atos, os emolumentos pertenceriam a ele, Moreau.
Entre os que ouviam as lamentações do agitado padre belga, naquele momento, estava o vigário de Xiririca que, tendo chegado de Prainha, assistiu, entre atônito e desorientado, às lamentações de Moreau. O curioso é que o vigário de Xiririca, sem dar trela ao seu desarvorado colega, seguiu calmamente para sua paróquia no mesmo dia no vapor "Isabel", e atrás dele, todo esbaforido, foi, em canoa, o padre Moreau reclamar a entrega das ofertas de batizados e casamentos recebidas por aquele outro na Prainha!...
Outro acontecimento picaresco envolveu o nosso padre Moreau. Por volta da década de 1860, a Irmandade do Bom Jesus doou a imagem de São Miguel à Capela do Cemitério, onde desde então ficou entronizada. Ocorre que o inquieto padre Moreau entendeu que essa imagem deveria era ficar na Igreja Matriz. Sendo assim, resolveu ir até o Cemitério e, de revolver em punho, como se estivesse a empunhar um turíbulo ou outro objeto santo, intimou sem mais nem menos ao zelador do Cemitério a lhe entregar a imagem. O pobre zelador, sem esboçar qualquer reação, não teve alternativa a não ser passar às abençoadas mãos do padre o santo sob a sua guarda.
Claro que a notícia desse inusitado "sequestro" de São Miguel espalhou-se como o vento pela pacata cidade, sempre modorrenta e hospitaleira. Sabendo do fato, o intendente de Iguape, major Ernesto Guilherme Young, inglês da mais ilustre cepa, não perdeu tempo e foi se encontrar com o "raptor" no campo do Rosário e, no meio de várias testemunhas, intimou-o a devolver o santo ao seu nicho, o que Moreau foi obrigado a fazer por força das circunstâncias. O Major Young requereu a vistoria, exame e auto de corpo-de-delito na capela e na imagem. E Moreau teve que amargar não ter conseguido seu intento... Pouco depois, seus superiores eclesiásticos o "convidaram" a procurar outros ares paroquianos...
Agora, deixemos Moreau e suas estripulias e voltemos as atenções para o padre Leon Blondet, então vigário em Xiririca. Dizem os antigos que, no passado, as eleições na terra de Francisca Júlia se resolviam à base de tapa. Dentre todas as histórias pitorescas escondidas nos anais dessa vetusta cidade, encontrei a célebre briga entre o tenente-coronel Joaquim Brasileiro Ferreira (insígne varão xiririquense, mais conhecido por Coronel Brasileiro) e o desassossegado padre Blondet.
Esse fato aconteceu no dia 1º de março de 1898. Era dia de eleição e os ânimos estavam exaltados. Pela manhã, o padre Blondet dirigiu-se até a Sala da Câmara, onde se realizaria a eleição, e disse que as mesas não seriam instaladas, pois deveriam ser presididas pelo Juiz de Direito. Diante do olhar assustado do mesário, que não sabia o que fazer, apareceram o coronel Bento França, que era o delegado de polícia, e o coronel Brasileiro. O primeiro tentou acalmar o padre, enquanto o segundo conversou com os mesários e disse que tudo estava se procedendo conforme a lei.
Foi então que o padre perdeu o controle e xingou o coronel de vários nomes de baixo calão. O coronel, insultado, reagiu tempestivamente desferindo violenta bofetada no sacerdote. Nesse ínterim, o capitão Vicente Giglio se colocou entre os dois, tentando apartá-los, quando recebeu do vigário um formidável pontapé na barriga...
É evidente que o Bispado não viu com bons olhos o que aconteceu. Assim, em maio do mesmo ano, o padre Leon Blondet foi removido para a paróquia de São Sebastião. Para seu lugar foi nomeado o padre Francisco Xavier Costabile.
São histórias do Arco da Velha!
(JORNAL REGIONAL, nº 809, de 16-1-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 19h27
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Ao correr da pena...
Bacharel de Cananéia
O jornalista Tiago Santos, assessor do senador José Sarney, está desenvolvendo pesquisa histórica sobre o misterioso Bacharel de Cananéia, identificado pelo historiador Ernesto Guilherme Young como Cosme Fernandes. Publico abaixo o interessante e-mail que me foi enviado pelo jornalista:
"Caro Roberto Fortes, sou historiador com mestrado pela Universidade de Brasília (UnB). Conheci seu interessante fotoblog "Iguape em Imagens". Você mantém um arquivo histórico de imagens muito bom, parabéns. Espero que possa me auxiliar. Fiz uma breve pesquisa sobre o Bacharel de Cananéia [Cosme Fernandes] e me interessei muito, embora não tenha encontrado material abundante. Anexei tal pesquisa no e-mail. Na verdade, é um texto com umas 12 páginas, feito com a bibliografia que eu consegui encontrar.
"O texto que te apresentei sobre o Bacharel foi o mesmo que apresentei para o senador José Sarney (meu chefe aqui em Brasília e que havia encomendado a pesquisa para mim). O Sarney está planejando (para o futuro) escrever um livro com breves biografias históricas e solicitou pesquisas sobre o Bacharel, Caramuru, Lampião, Pelé, Antônio Conselheiro, entre outros. A partir daí eu achei bem interessante a história do Bacharel e da Guerra de Iguape e estou desejando me aprofundar no tema. Mais uma vez registro meus agradecimentos para com sua enorme gentileza.
"No blog consegui as referências completas dos artigos de Ernesto Young, escritos para o Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, e já vi que essas revistas existem no acervo aqui da UnB. Vou atrás, pois não as utilizei na minha pesquisa. Também vi que Young escreveu um artigo para "O Estado de S. Paulo", em 1902: "O primeiro habitante europeu de Iguape". Vou atrás, mas eu gostaria de saber mais. Você pode me indicar mais livros, documentos, fontes? Você conhece algum trabalho universitário sobre o Bacharel? Devo ir pra São Paulo em meados de janeiro e gostaria de pesquisar em algum arquivo sobre o Bacharel. Você tem alguma dica?"
(As informações solicitadas pelo jornalista foram enviadas via e-mail. E vamos esperar pelo próximo livro do poeta dos "Marimbondos de Fogo", que terá como um de seus protagonistas o mui famigerado Bacharel de Cananéia...).
Capitu (quase-conto)
Chamam-me Capitu, a despeito de constar em meu batistério o nome que me foi dado por meu pai: Capitolina. Confesso que nunca morri de amores por esse nome.
"É o mesmo da sua avó", explicava papai quando (teria eu uns oito anos) acariciava-me as madeixas, ele cachimbando, eu sentada em seu colo, mamãe bordando, ao fundo da sala, uma peça destinada ao meu enxoval. Não poderia a minha finada avó ter o mesmo nome de minha amiga Ana Clara ou da prima Maria Júlia?
"Seu nome", dizia o meu pai, "está inscrito nos anais do Olimpo. Não é Zeus Capitolino o senhor de todos os deuses? Capitolina não deixa de ser a sua versão feminina, e não se fala mais nisso".
Ao meu franzir de testa, a demonstrar desapontamento, o meu pai respondia com o acariciar suave de minhas madeixas. E ficávamos pacificados.
"Ó Capitolina! Vem ver o passarinho que acabo de apanhar em minha arapuca! Vamos... vem!"
Bentinho estava cansado de saber que eu detestava ser assim denominada. Chamava-me de Capitolina só por pirraça, por aquele prazer infantil, misto de maldade e inocência (mais, talvez, maldade). Não que Bentinho fosse de todo mau. Talvez até se tornasse um cirurgião de nomeada, já que era habilidoso na arte de dissecar passarinhos, notando-se o detalhe de dissecá-los ainda vivos. Quando soube as suas razões é que compreendi que tal prática não conflitava com a sua formação cristã.
"Eles também têm alma e viverão na glória do Senhor", explicava Bentinho, com convicção.
Naquela época eu ainda pouco conhecia acerca dos mistérios desta ou da outra vida, e limitava-se a ouvir e aceitar as suas explicações, mesmo porque ninguém consegue ser um cirurgião de nomeada sem antes dissecar uma cambulhada de passarinhos. A prática faz o ofício.
Escritores de Miracatu
No dia 24 de dezembro, véspera de Natal, como um inesperado, mas bem-vindo presente, recebi a vista de quatro amigos que trabalham pela cultura do nosso Vale do Ribeira: o jornalista e escritor Jehoval Júnior, que me trouxe um exemplar autografado de seu livro recém-lançado "Tarsila Eterna"; o artista plástico, escritor e poeta Osvaldo Matsuda, que lançou recentemente "FP ou PF e PF"; e os poetas Nestor Rocha e Martins Júnior. Todos eles são naturais de Miracatu, onde têm forte atuação no campo da literatura, das artes e da cultura em geral.
Jehoval Júnior falou sobre o seu livro "Tarsila Eterna" e lançou a idéia de congregar todos os autores do Vale numa academia cooperativada, que atuaria como fomentadora e divulgadora dos trabalhos desses autores, publicando livros e revistas. A idéia, ainda no nascedouro, deverá ser regada e repassada aos demais autores regionais e, com o apoio e o empenho de todos, quem sabe, num futuro próximo, essa semente poderá germinar e dar frutos. Acredito que a idéia contará com o apoio dos escritores e poetas vale-ribeirenses. É só dar o primeiro passo.
(JORNAL REGIONAL, nº 807, de 9-1-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 22h23
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Quem manda na língua é o povo

Fonte: http://www.eb23-d-joao-i.rcts.pt/imagens/lingua%20portuguesa.bmp
Luiz Fernando Veríssimo, um dos mais festejados cronistas brasileiros, numa frase modelar, dá a receita para se escrever com clareza: "Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ´escrever claro´ não é certo mas é claro, certo?". Em outra frase lapidar, Veríssimo assim define as regras de nossa língua: "A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda". E sobre os "imortais", ele diz que a sombria gravidade de nossos acadêmicos é de "reprovação pelo Português ainda estar vivo".
Se a língua fosse imutável e não sofresse transformações, ainda estaríamos falando o Latim. Justamente por causa das mudanças e adaptações ocorridas ao longo dos séculos é que as línguas nacionais foram se moldando e chegaram ao estágio atual. Por outro lado, o Latim não pode ser considerado uma língua morta: a língua dos romanos não morreu, mas se transformou em outras línguas, ditas românicas, como o Português, o Italiano, o Espanhol, o Francês, o Romeno, entre outras.
Quem manda na língua é o povo, e não os gramáticos, que servem apenas para sistematizar e ordenar a língua, adequando-a à chamada "norma culta". Existem escritores que cultuam um português castiço, parnasiano. Muitos de nossos escritores, hoje imortais, fizeram uso dessa linguagem rebuscada, mas foram geniais a ponto de transcenderem o pó-de-arroz e legarem à posteridade uma prosa vigorosa.
Poderia citar Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Paulo Setúbal. O primeiro procurou entender o nosso povo à luz das ciências de seu tempo; acertou em algumas teses, errou em outras. O segundo foi um crítico mordaz não apenas do governo, mas também da sociedade de seu tempo, através de seus personagens literários e, principalmente, de seu trabalho como jornalista. O terceiro foi buscar na História do Brasil a matéria-prima para os seus romances que, mesmo escritos num português castiço, cheio de rebuscamentos e superlativos, não deixam de encantar o leitor.
Ao longo dos tempos, a Língua Portuguesa vem sofrendo mudanças, principalmente no modo de falar, e também do ponto de vista gramatical. Diversas reformas gramaticais foram feitas, sendo a última de 1971. E, a partir do próximo mês, Existe, será encetada a unificação de nossa língua, englobando todos os países de expressão lusófona.
Parece-me que tal pretensão é um tanto esdrúxula, pois, mesmo falando a mesma língua, cada país tem as suas particularidades, que não podem ser niveladas como se todos nós falássemos do mesmo jeito. Se até a língua inglesa, que é a língua da globalização, não é unificada, por que, então, a portuguesa deveria sê-lo?
Salutar é, sim, a pretensão de muitos juristas e advogados de simplificarem ou, pelo menos, tornarem inteligível a Língua Portuguesa por eles utilizada - o "juridiquês". Por que um advogado escreve: "V. Ex.ª, data maxima venia, não adentrou às entranhas meritórias doutrinárias e jurisprudenciais acopladas na inicial, que caracterizam, hialinamente, o dano sofrido", se poderia se exprimir assim: "V. Ex.ª não observou devidamente a doutrina e a jurisprudência citadas na inicial, que caracterizam, claramente, o dano sofrido" (?!)
Mesmo que cada profissão tenha a sua linguagem própria, técnica, os profissionais podem se exprimir de uma maneira menos iniciada, hermética, utilizando-se de termos específicos somente quando estritamente necessários. Assim, seriam melhor entendidos, e muita confusão seria evitada. Conforme diz Giampietro Netto, advogado, em depoimento à revista Língua Portuguesa (nº 2, outubro/novembro/2005): "Muitas vezes, após uma audiência, as pessoas cercam o advogado com olhar de interrogação, perguntando se ganharam ou perderam a causa"...
(JORNAL REGIONAL, nº 806, de 31-12-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 13h38
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CULTURA
Artistas do Vale

Osvaldo, Jehoval, Nestor e Martins Jr.
No dia 24 de dezembro, véspera de Natal, como se fosse um inesperado mas bem-vindo presente, recebi a vista de quatro amigos que trabalham pela cultura do nosso Vale do Ribeira: o jornalista e escritor Jehoval Júnior, que me trouxe um exemplar autografado de seu livro recém-lançado "Tarsila Eterna"; o artista plástico, escritor e poeta Osvaldo Matsuda, que lançou recentemente "FP ou PF e PF"; e os poetas Nestor Rocha e Martins Júnior. Todos eles são naturais de Miracatu, onde têm forte atuação no campo da literatura, das artes e da cultura em geral. Jehoval Júnior falou sobre o seu livro "Tarsila" e lançou a idéia de congregar todos os autores do Vale numa academia cooperativada, que atuaria como fomentadora e divulgadora dos trabalhos desses autores, publicando livros e revistas. A idéia, ainda no nascedouro, deverá ser regada e repassada aos demais autores regionais e, com o apoio e o empenho de todos, quem sabe num futuro próximo essa semente poderá germinar e dar frutos.
Escrito por Roberto Fortes às 15h39
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Ao correr da pena...

Fonte: http://img168.imageshack.us/img168/934/natalrenazo0.gif
Conto de Natal
Gostava de contar às criancinhas que Papai Noel não existe. "Seu pai é quem dá o seu presente, ô, fedelho!". Para os órfãos falava: "Se você não tem pai, azar o seu, aí é que Papai Noel não existe mesmo pra você!". Sentia algo parecido com o êxtase quando notava escorrerem as lágrimas furtivas dos olhos dos pequenos e, mais ainda, aquele arfar de peito, aquele suspiro dolorido e profundo que eles pareciam trazer lá do fundo de suas almas, agora, e para sempre, desencantadas.
Desde que se dera por gente, sabia que Papai Noel não existia de verdade. Aos quatro anos de idade já sabia que tudo não passava de uma grande farsa armada pelos adultos para ludibriar os pequenos. Quem lhe contara que Papai Noel não existia fora o seu vizinho, um molequinho de oito anos, que ouvira isso da boca do pai enquanto espancava a mãe, à sua vista: "Tome, desgraçada, nós vivemos nesta miséria e você ainda gasta R$ 10,00 pra comprar esta porcaria de carrinho pra este pentelho que eu nem sei se é meu filho! Tome, vadia!". Daí, quando ganhou aquele ursinho de pelúcia que lhe provocava homéricos espirros, já sabia de velho que fora o seu pai quem comprara na loja ali da esquina, onde todos os pais da cidade compravam os presentes de Natal para os respectivos filhos.
Até os nove anos, os seus pais ainda disfarçavam, buscavam furtivamente os presentes no quarto e, sorrateiramente, traziam-nos para a sala e, sempre disfarçadamente, dirigiam-se a ele: "Veja só, filho, Papai Noel acabou de chegar e mandou entregar este presente pra você! Que lindo, né? Gostou, filho?". Ele se limitava a manear afirmativamente a cabeça, mas pensava com os seus botões: "Que saco, será que vocês não sabem que eu sei que essa porcaria de Papai Noel não existe?".
E assim atravessou a juventude, já inteiramente alheio às comemorações natalinas, que lhe causavam tanto asco, pois lhe recordavam a infância desencantada quando já não acreditava na existência de Papai Noel. Até que, na noite do Natal presente, ao procurar um par de meias em seu guarda-roupas, encontrou o seu velho ursinho de pelúcia, aquele que lhe provocava homéricos espirros.
Com os olhos rasos d´água, amaldiçoou o pai de seu amiguinho de oito anos que destruíra para sempre de seu espírito de criança a existência de Papai Noel. Naquela noite, chorou todas as lágrimas que não conseguira chorar durante toda a sua vida. E bendisse as criancinhas que ainda crêem no Bom Velhinho.
Nasceu o Salvador
E Deus realizou a Sua vontade. Movido por divinal inspiração, o Supremo Criador moldou o Seu filho em carne e osso e concedeu a uma Virgem o privilégio de gerá-Lo.
Foi numa bela noite de dezembro, colorida por estrelas faiscantes, entre as quais uma se destacava por seu brilho singular. Num estábulo, vinha ao mundo Aquele cuja missão era salvar do mal toda a humanidade.
Colocado numa modesta manjedoura, Ele, recém-nascido, sorria. E o Seu sorriso era de paz, de amor, de fraternidade. Era o prenúncio de que dias melhores e mais justos estariam por vir. E Ele, o Filho de Deus feito homem, seria o realizador dessa missão evangelizadora que mudaria os destinos da pecadora raça.
O Menino-Deus, Aquele cuja sina era distribuir amor, paz e justiça, nascia na pequenina Belém, entre o aconchego terno dos pais e aquecido pela respiração morna dos ruminantes.
Naquela noite, a Noite da Natividade, nascia o Salvador do Mundo. Aquele que, no vigor dos seus 33 anos, seria estupidamente condenado e morto por seu próprio povo. Aquele que morreu para redimir toda a humanidade.
Natal. Comemorando o nascimento do Cristo, nessa data tão significativa para a Cristandade, há entre todos uma aura de fraternidade, que nos envolve e nos faz pensar no próximo, naquela pessoa que ignoramos durante todo o ano e que, no Natal, dirigimos-lhe um sorriso franco e um abraço acolhedor.
Natal. E o mundo em festa comemora essa data. Esquecemos, então, do ódio, das desavenças, de todos os sentimentos mesquinhos que permeiam a nossa humana raça, e, orando a Deus, tentamos nos encontrar com nosso irmão Jesus, Filho de Deus.
Boas Festas
Aproveitando o ensejo, desejo aos leitores amigos, que durante todo o ano acompanharam as minhas crônicas, os mais sinceros votos de Boas-Festas, com um Natal feliz e um Ano Novo repleto de paz, amor e fraternidade!
(JORNAL REGIONAL, nº 805, de 19-12-2008).
Escrito por Roberto Fortes às 13h30
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