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Ao correr da pena...

Vapor Isabel, passando pelo Jipovura, início do século XX.
A grande seca de 1879
No ano de 1879, uma grande seca assolou o Vale do Ribeira. Em editorial, o semanário Commercio de Iguape, nº 187, de 19-9-1879, nos dá uma idéia detalhada sobre essa terrível estiagem. Publico, abaixo, o editorial, em sua “ortographia” original:
“Depois de uma rigorosa secca, cuja quadra atravessamos ha seis mezes mais ou menos, na tarde do dia 15 do andante appareceu alguma chuva que, postoque não durasse por todo o tempo desejado, comtudo servio muito, ao menor para mais aplacar o mal que de dia para dia crescia pelos effeitos da secca.
“É verdade que a ausencia de chuvas em todo aquelle periodo, pouca ou nenhuma falta apresentou á população desta localidade, pela razão de que ella até agora tem sido commodamente abastecida de agua potavel; mas a secca muito tem contribuido para entorpecer o desenvolvimento da lavoura, como do commercio, pela paralysação do principal motor, a navegação fluvial, que lhes dá vida.
“A excepção das duas fabricas de pilar arroz, a do porto da Ribeira e da barra do Pariquera, que são movidas á vapor, as demais, em grande numero, tocadas por agua n’esta comarca, como na de Xiririca teem estado quasi em sua totalidade paradas á falta d’agua, por bastante tempo.
“Os rios de pequenas profundidades, deste municipio, affluentes da Ribeira, baixarão admiravelmente a ponto de que muitos lavradores ficarão privados de conduzir ao mercado o fructo de seu trabalho agricola, e o commercio, de dia para dia caminhava ao enfraquecimento, faltando-lhe os elementos para as suas transações, principal base de sua existencia.
“Até a Ribeira, esse caudaloso e gigante rio que banha o immenso territorio de mais de duas comarcas, desprendendo-se de tão grande longitude, chegou á um descarnamento espantoso, privando-nos do importante goso da navegação á vapor entre este porto e o de Xiririca!
“É verdade que os vapores d’essa linha fluvial partem pontualmente deste para aquelle porto nos dias marcados para suas viagem; mas de que isso serve, quando ha muito que nem encontrão agua sufficiente para transpôr a paragem denominada “Carapiranga”, neste municipio, ponto esse que poderá regular terça parte do espaço terminal de sua derrota?
“Na ultima viagem do proximo mez passado, que para Xiririca emprehendeu o vapor S. Pedro, nelle fomos de passagem com destino até o meio do estirão do Carapiranga, e ao chegarmos ao principio daquelle estirão presenciamos entre outros passageiros a falta d’agua no canal, para poder o navio transpôr esse local.
“Fomos, pois, testemunha occular dos esforços que o digno commandante do navio empregou para leval-o acima do lugar indicado, mas tudo em vão, porque uma força maior – a falta de profundidade sufficiente no canal – o impedia.
“Ha perto de 40 annos que viajamos quasi todos os annos na Ribeira, nunca vimos ter ella chegado ao estado que relatamos, porque tambem não temos lembrança de que tenhamos tido uma secca por tempo tão prolongado como a desde anno corrente.”
Sete Barras
Como prometi na coluna passada, transcrevo, em sua “ortographia” original, interessante carta de um setebarrense do século XIX, publicada no semanário Commercio de Iguape, nº 225, de 13-6-1880:
“Senhor Redactor: Por esta minha missiva vou dar-lhe noticias deste bairro chamado – Capella Sete Barras.
“No dia 25 do mez passado, reunirão-se os moradores e derão começo a construcção da nova capella, que vai ser construida com as esmolas do Divino Espirito Santo, que segundo consta se elleva a seis centos mil reis, arrecadadas pelo festeiro Pedro Antonio Muniz. Esse cidadão, por sua dedicação no progresso deste lugar é digno de louvor.
“A nossa escola de 1as. letras tem sido bastante frequentada, contando um bom numero de alumnos.
“A estrada que desta segue á villa de Paranapanema e cidade de Itapetininga, apesar não ter recebido beneficio algum, está dando livre transito, mostrando que realmente, não só de entre as comarcas de Xiririca e Iguape é esta a melhor area de terreno que se presta a uma boa estrada.
“Lamentamos que na Assembléa de nossa provincia, não tivesse-mos um representante que pugnasse pelos interesses de nossa comarca, deixando ficar no olvido os seus interesses mais vitaes.
“Temos ouvido fallar em uma estrada de ferro, cuja lembrança nos provoca o riso!... por conhecermos ser essa idêa impraticavel, actualmente, visto que não podemos ter nem uma boa estrada para tropa.
“Se s. exc. o senhor presidente da provincia, da verba para despesas eventuaes, decretasse uma quantia para os concertos mais precisos de nossa estrada, prestaria um grande serviço para a nossa comarca e a de Iguape. Hoje prenoitou atracado a nossa barranca, o vapor S. Pedro, e recebeo aqui grande quantidade de cargas.
“Folgo em cummunicar-lhe que estamos com uma boa estrada que desta capella segue até Votupóca, margeando a Ribeira, devendo-se este grande melhoramento e serviço ao sr. David Alves da Costa Sobrinho, o qual torna-se digno de louvor, por ser uma estrada feita a custa de particulares.
“Concluo fazendo votos para que a iniciativa particular se vá manifestando neste abençoado torrão. Sete Barras, 7 de Junho de 1880. O Sete Barrense.”
Escravo fugido
“Do sitio abaixo assignado, districto de Xiririca, fugio na noite do dia 8 do corrente o escravo de nome Eduardo, regulando a idade de 40 annos, mulato e sendo aleijado n’uma das mãos. O annunciante, o senhor do referido escravo, protesta haver de quem o tiver acoutado, na fórma da lei, os jornaes a rasão de 1$000 diarios, desde o dia em que fugio, bem como os demais prejuizos e perdas. Rapoza, 16 de Setembro de 1879. Joaquim Cypriano de Souza.” (in Commercio de Iguape, nº 187, de 19-9-1879).
(JORNAL REGIONAL, nº 763, de 29-2-2008)
Escrito por Roberto Fortes às 21h59
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