Ao correr da pena...
Bacharel de Cananéia
O jornalista Tiago Santos, assessor do senador José Sarney, está desenvolvendo pesquisa histórica sobre o misterioso Bacharel de Cananéia, identificado pelo historiador Ernesto Guilherme Young como Cosme Fernandes. Publico abaixo o interessante e-mail que me foi enviado pelo jornalista:
"Caro Roberto Fortes, sou historiador com mestrado pela Universidade de Brasília (UnB). Conheci seu interessante fotoblog "Iguape em Imagens". Você mantém um arquivo histórico de imagens muito bom, parabéns. Espero que possa me auxiliar. Fiz uma breve pesquisa sobre o Bacharel de Cananéia [Cosme Fernandes] e me interessei muito, embora não tenha encontrado material abundante. Anexei tal pesquisa no e-mail. Na verdade, é um texto com umas 12 páginas, feito com a bibliografia que eu consegui encontrar.
"O texto que te apresentei sobre o Bacharel foi o mesmo que apresentei para o senador José Sarney (meu chefe aqui em Brasília e que havia encomendado a pesquisa para mim). O Sarney está planejando (para o futuro) escrever um livro com breves biografias históricas e solicitou pesquisas sobre o Bacharel, Caramuru, Lampião, Pelé, Antônio Conselheiro, entre outros. A partir daí eu achei bem interessante a história do Bacharel e da Guerra de Iguape e estou desejando me aprofundar no tema. Mais uma vez registro meus agradecimentos para com sua enorme gentileza.
"No blog consegui as referências completas dos artigos de Ernesto Young, escritos para o Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, e já vi que essas revistas existem no acervo aqui da UnB. Vou atrás, pois não as utilizei na minha pesquisa. Também vi que Young escreveu um artigo para "O Estado de S. Paulo", em 1902: "O primeiro habitante europeu de Iguape". Vou atrás, mas eu gostaria de saber mais. Você pode me indicar mais livros, documentos, fontes? Você conhece algum trabalho universitário sobre o Bacharel? Devo ir pra São Paulo em meados de janeiro e gostaria de pesquisar em algum arquivo sobre o Bacharel. Você tem alguma dica?"
(As informações solicitadas pelo jornalista foram enviadas via e-mail. E vamos esperar pelo próximo livro do poeta dos "Marimbondos de Fogo", que terá como um de seus protagonistas o mui famigerado Bacharel de Cananéia...).
Capitu (quase-conto)
Chamam-me Capitu, a despeito de constar em meu batistério o nome que me foi dado por meu pai: Capitolina. Confesso que nunca morri de amores por esse nome.
"É o mesmo da sua avó", explicava papai quando (teria eu uns oito anos) acariciava-me as madeixas, ele cachimbando, eu sentada em seu colo, mamãe bordando, ao fundo da sala, uma peça destinada ao meu enxoval. Não poderia a minha finada avó ter o mesmo nome de minha amiga Ana Clara ou da prima Maria Júlia?
"Seu nome", dizia o meu pai, "está inscrito nos anais do Olimpo. Não é Zeus Capitolino o senhor de todos os deuses? Capitolina não deixa de ser a sua versão feminina, e não se fala mais nisso".
Ao meu franzir de testa, a demonstrar desapontamento, o meu pai respondia com o acariciar suave de minhas madeixas. E ficávamos pacificados.
"Ó Capitolina! Vem ver o passarinho que acabo de apanhar em minha arapuca! Vamos... vem!"
Bentinho estava cansado de saber que eu detestava ser assim denominada. Chamava-me de Capitolina só por pirraça, por aquele prazer infantil, misto de maldade e inocência (mais, talvez, maldade). Não que Bentinho fosse de todo mau. Talvez até se tornasse um cirurgião de nomeada, já que era habilidoso na arte de dissecar passarinhos, notando-se o detalhe de dissecá-los ainda vivos. Quando soube as suas razões é que compreendi que tal prática não conflitava com a sua formação cristã.
"Eles também têm alma e viverão na glória do Senhor", explicava Bentinho, com convicção.
Naquela época eu ainda pouco conhecia acerca dos mistérios desta ou da outra vida, e limitava-se a ouvir e aceitar as suas explicações, mesmo porque ninguém consegue ser um cirurgião de nomeada sem antes dissecar uma cambulhada de passarinhos. A prática faz o ofício.
Escritores de Miracatu
No dia 24 de dezembro, véspera de Natal, como um inesperado, mas bem-vindo presente, recebi a vista de quatro amigos que trabalham pela cultura do nosso Vale do Ribeira: o jornalista e escritor Jehoval Júnior, que me trouxe um exemplar autografado de seu livro recém-lançado "Tarsila Eterna"; o artista plástico, escritor e poeta Osvaldo Matsuda, que lançou recentemente "FP ou PF e PF"; e os poetas Nestor Rocha e Martins Júnior. Todos eles são naturais de Miracatu, onde têm forte atuação no campo da literatura, das artes e da cultura em geral.
Jehoval Júnior falou sobre o seu livro "Tarsila Eterna" e lançou a idéia de congregar todos os autores do Vale numa academia cooperativada, que atuaria como fomentadora e divulgadora dos trabalhos desses autores, publicando livros e revistas. A idéia, ainda no nascedouro, deverá ser regada e repassada aos demais autores regionais e, com o apoio e o empenho de todos, quem sabe, num futuro próximo, essa semente poderá germinar e dar frutos. Acredito que a idéia contará com o apoio dos escritores e poetas vale-ribeirenses. É só dar o primeiro passo.
(JORNAL REGIONAL, nº 807, de 9-1-2009).
Escrito por Roberto Fortes às 22h23
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