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ALFARRÁBIOS _ Roberto Fortes


Ao correr da pena...

O Dia do Político Honesto

Em certa cidadezinha, cujo nome não vem ao caso, foi instituído o Dia do Político Honesto, uma brilhante proposta do edil Patápio Junqueira. Grande festa seria promovida na cidade, com a presença de famosos artistas e a participação de notáveis políticos. Todos os preparativos foram feitos com esmerado zelo e elevado senso cívico, afinal seria a data mais importante do lugar, maior até que a festa da Santa Padroeira.

O esforçado prefeito Benvindo Brigante mandara confeccionar até mesmo um reluzente troféu banhado a ouro, com o busto do senador Gervásio Bicão, ilustre varão da terra, que seria ofertado ao político que preenchesse todos os requisitos necessários: honestidade, dedicação aos interesses e respeito ao dinheiro públicos.

Bem se pode imaginar a repercussão que a instituição desse troféu causou nos meios políticos nacionais. Quem não gostaria de arrebanhar tão cobiçado troféu? Que político não desejaria ser escolhido o mais honesto do Brasil, com direito a comenda e tudo, instituída pela Venerável Ordem dos Cavaleiros Políticos Honestos?

E chegou a data tão esperada.

A cidadezinha foi invadida por gente de todo lado. Era jatinho do Congresso, era helicóptero da Assembléia, era automóvel de chapa branca. Nunca se vira tanto político junto, nem mesmo quando do enterro do senador Gervásio Bicão – esse venerando cavaleiro andante da moralidade nacional –, anos atrás.

Dentre os mais sérios concorrentes ao troféu e à comenda, uns acreditavam que seria escolhido o deputado Eslávio Creonte, que viera ao evento em vários helicópteros da Assembléia, acompanhado de cem amigos. Outros garantiam que o senador Prudêncio Dantas arrebataria o título, afinal tinha muitos amigos – trouxera quase duzentos em jatos do Congresso.

O governador Gusmélio Fonseca também era dos mais cotados, não obstante ter trazido ao evento somente cinqüenta amigos, que lotaram apenas quinze automóveis oficiais. As opiniões dividiam-se, os partidários desse ou daquele procuravam defender o retilíneo caráter e o elevado amor à causa pública de seu político preferido.

A missão do júri seria das mais espinhosas. As gorjetas e as promessas de emprego eram as táticas mais utilizadas pelos pretendentes, não que eles pretendessem comprar os jurados, isso não, apenas queriam demonstrar a sua admiração por esses homens tão sensatos, que tinham a incumbência de escolher o político mais honesto do país.

E chegou o final do dia.

A festa fora um espetáculo memorável; agora, era a vez de o júri decidir. As atenções todas se voltaram para o palanque da mesa julgadora. Os políticos continham a respiração, enxugavam o suor do rosto, a expectativa era geral. Finalmente, o presidente da mesa, após cumprimentar a todos os participantes, falou ao público. E, para o espanto geral, comunicou que o prêmio não seria concedido.

É que nenhum dos candidatos conseguira preencher os requisitos necessários...

 

AO CORRER DA PENA...

 

A invasão do espaço público

 

O que pertence ao público não pode ser considerado como bem particular, extensão de sua casa ou de seu comércio. Em Iguape, comércios invadem as calçadas, expondo seus produtos a eventuais fregueses, mas impedindo o livre tráfego de pedestres. No Centro Histórico constroem-se em cima de calçada; em outras partes da cidade, rampas construídas clandestinamente por sobre as calçadas literalmente impedem a passagem de pedestres. Sem contar prédios que são construídos invadindo espaço do passeio público e automóveis que usam calçadas como garagens. E parece que o povo acha tudo normal. Parece que tendo a novela da “Grôbo” e as “loira gelada” está tudo bem. Não está tudo bem. O que é público pertence ao público, e não a particulares. Que se faça valer o Código de Posturas.

 

Fonte do Senhor

 

No passado, esse logradouro foi um dos mais frequentados da cidade. Era lá que a sociedade e o povo em geral passavam momentos agradáveis de lazer, em contato direto com a natureza. Hoje, virou reduto dos adoradores da Deusa Canabis. Além dos cuidados com a sua manutenção, é necessário um vigilante municipal. A Polícia Militar também poderia fazer rondas diárias no local, o que afastaria os desocupados, meliantes e queimadores da “erva maldita”.

 

Fonte da Saudade

 

Outro recanto que está a merecer maior atenção é a Fonte da Saudade, inaugurada em 1843. Ali foi o cenário da bela história de Porangaba e seu pai Turuçuçaba, resgatada pelo historiador Waldemiro Fortes. Com pouco gasto o local poderá ser revitalizado. Cuide-se de sua fonte, coloquem-se uns quiosques. Ah, sim, e um vigilante. Sem isso, os godos, ostrogodos e visigodos depredarão tudo.

 

Mendicância

 

Legiões de mendigos vem tomando conta de largos, praças e ruas de Iguape. Estão por toda a parte. Mexem com todo mundo. Fazem suas necessidades à vista de todos. Urinam. Evacuam. Transam. Todo mundo vê. Abordam mulheres casadas e solteiras. Sujam a cidade. Coisas desse tipo. Nada contra a mendicância. Existe em todo o mundo. Mas também existem limites. A partir do momento em que desocupados perturbam a ordem pública, abordam pessoas (mulheres, senhoras, adolescentes, crianças) e fazem propostas e comentários obscenos, é a hora de se tomar as devidas providências.

(JORNAL REGIONAL, nº 811, de 6-2-2009).



Escrito por Roberto Fortes às 14h13
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Ao correr da pena...

A Pedra da Paixão

Antiga formação geológica, hoje de propriedade particular (não obstante ser área de marinha), a famosíssima Pedra da Paixão, situada num dos contrafortes do Morro da Espia, em Iguape, guarda histórias, muitas histórias. Ali foi cenário de um dramático caso de amor. Talvez Shakespeare tivesse mais talento para narrar essa trágica história. Na falta do bardo inglês, cabe a este simplório alfarrabista narrá-la aos seus poucos, mais fiéis, leitores. Vamos à história.

 

Na noite de 1º de fevereiro de 1923, o jovem João Ribeiro de Aguiar, que contava apenas 19 anos, atirou-se ao Mar Pequeno, quando estava a se lamentar de um amor impossível, ali na Pedra da Paixão. Como acontece com boa parte dos suicidas, deixou uma carta. Sim, uma carta. Machado de Assis, em certo conto, escreve que os suicidas fazem questão de deixar uma carta, onde explicam as razões de subtraírem as próprias vidas. À carta, vamos à carta, que foi publicada na antiga “Tribuna de Iguape”, nº 412, de 11-2-1923, então dirigida pelo legendário Major Mingute, e que aqui transcrevo em sua ortografia original:

“A quem ler. Perdoem-me si foi um erro isto que cometti perante este mundo de ingratidão, onde só encontra-se obstáculos, mas por menos será impossível. Hoje eu sei quantos erros existem aqui nesta lama, mas como o mundo é somente lixo e que não passa disso portanto eu desisto delle para não servir mais de forças para ella. É muito bom mas para os que nascem com a felecidade.

 

“Eu julgava que seria fácil viver, mas hoje compreendo que não é. Si eu faço isso, é porque me acho sem forças necessárias para viver. Limito-me a fazer só estas linhas porque acho ser o necessário.

 

“No mais, adeus e me perdoem o que fiz. Heide dar contas a Deus. Não culpem a ninguém, eu sou o único culpado. [a] J. Aguiar.”

 

Essa carta foi encontrada nos bolsos do rapaz. O cadáver foi achado no dia 2 de fevereiro. Mas por quem morreu o moço José Ribeiro de Aguiar? Que lábios ou corpo sedutor teriam sido a causa de tão tresloucada atitude? É o que veremos em nossa próxima edição. Aguardem.

 

Academia de Letras

O Vale do Ribeira sempre foi celeiro de valores intelectuais, artísticos e culturais. A lista é longa e não caberia neste espaço que disponho para a minha modesta coluna. Basta citar, a título ilustrativo, as figuras exponenciais de Francisca Júlia, Júlio César da Silva, Ricardo Krone, Eugênio Egas, Ernesto Young, Domingos Bauer Leite, J. Mendes, Antônio Paulino de Almeida, Laurindo de Almeida, Nícia Silva, etc.

Nos dias atuais, o Vale também tem um naipe excelente de poetas, escritores, artistas plásticos, músicos, jornalistas. O que falta é agrupar todos esses bravos guerreiros da cultura regional numa associação ou cooperativa, para a divulgação e valorização de seus trabalhos. A idéia de se criar uma Academia Valerribeirense (olha o Acordo Ortográfico aí, gente!) de Letras, que congregaria, não apenas escritores e poetas, mas também os notáveis do Vale (a exemplo das academias francesa e brasileira), nasceu quando os poetas Jehoval Júnior, Osvaldo Matsuda, Nestor Rocha e Genésio Martins me visitaram, aqui em Iguape, no último Natal.

 

A idéia foi crescendo, ganhando adeptos, e o resultado pode ser comprovado no blog “Literato do Vale”, onde o leitor tem um amplo painel sobre diversos autores e suas obras. O endereço do blog é: http://literatodovale.blogspot.com. Autores do Vale! Uni-vos!

 

Friedenreich no Vale

O leitor decerto já ouvir falar no célebre jogador Artur Friedenreich, um dos mais afamados futebolistas brasileiros. O que talvez desconheça é que Friedenreich visitou o Vale do Ribeira, em 1945. Neste ano, no mês de setembro, “o mais festejado craque da América” passou alguns dias em Iguape e Cananéia. Sobre essa visita, encontramos as seguintes linhas na “Tribuna de Iguape”, nº 635, de 23-9-1945:

 

“Esteve nesta cidade, de passagem para Cananéia, o festejado esportista, sr. Artur Friedenreich, considerado ´o mais festejado craque da América´. Demorando-se alguns dias nesta cidade, foi alvo das mais justas manifestações de apreço por parte das autoridades, dos esportistas e do povo iguapense em geral. Cavalheiro dotado de primorosa educação, o grande às do futebol deixou-nos deveras encantados com sua agradável palestra, prometendo aqui passar mais alguns dias, no seu regresso de Cananéia.”

 

“Sortilégios e tesouros”

O meu prezado amigo Júlio César da Costa, inspirado poeta e talentoso músico miracatuense, lançará, no próximo dia 7 de fevereiro, o seu livro “Sortilégios e tesouros – poemas, contos, causos e lendas do Vale do Ribeira”.  Pelo título, o leitor já tem uma idéia dos poemas que compõem a obra: o nosso Vale do Ribeira, seu povo, sua gente, sua cultura. Ou seja, uma leitura imperdível! O lançamento será às 20h00, na Câmara Municipal de Miracatu, Rua Emilio Martins Ribeiro, nº 160 (anexo ao Ginásio de Esportes). Além de autografar os livros, o poeta Júlio Costa receberá vários artistas que interpretarão as suas obras: Carlos Malungo, parceiro do poeta há 15 anos; Antônio Lara Mendes e o Grupo BatucajéOsvaldo Matsuda; e Deco. Estaremos todos lá, Júlio!

(JORNAL REGIONAL, nº 810, de 30-1-2009).



Escrito por Roberto Fortes às 14h09
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