Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 IGUAPE EM IMAGENS
 GUIA DE IGUAPE
 CIDADANIA IGUAPENSE
 BLOCOS
 BENEDITO MACHADO
 BLOG RIBEIRA
 BLOG DA SUELI
 DANIEL LOPES


 
ALFARRÁBIOS _ Roberto Fortes


Ao correr da pena...

A Pedra da Paixão

Na coluna de 30 de janeiro último, escrevi sobre a tragédia da Pedra da Paixão, em Iguape, e prometi aos leitores contar detalhes sobre esse dramático caso de amor.

 

Estamos no ano de 1923. João Teodoro (era assim chamado, mas seu nome de batismo era João Ribeiro de Aguiar) amava uma bela jovem chamada Teresa Fagundes. Mas existia entre ambos um detalhe cruel: João era pobre e Teresa, digamos, remediada. Nem é preciso falar que os pais da moça se colocaram frontalmente contrários a esse namoro.

 

Teresa foi proibida de se encontrar com João. Para comunicar ao amado essa despótica determinação paterna, a jovem passou numa papelaria e comprou um vidro de tinta roxa (naquele tempo se escrevia à caneta-tinteiro). Escreveu uma carta a João contando sobre a proibição de seu namoro com ele.

 

João ficou transtornado. Trabalhava como caixeiro na “Casa Lima”, que pertencia ao sr. José Ildefonso de Lima, mais conhecido por Juca Lifonso, vulto bastante conhecido e respeitado em seu tempo.

 

Naquele dia, João faltou ao trabalho. Logo ele, que sempre fora um funcionário exemplar. Deram por sua falta. Cadê o João? Sua família ficou preocupada. Perguntam daqui, perguntam dali, e nada dele.

 

O dono do bar contou que vendera ao moço duas garrafas de pinga (certamente, a “Cristiano”). O dono da farmácia disse que tinha vendido a ele dois frascos de arsênico, mas do homeopático.

 

Sim, todos perceberam que João fizera uma loucura.

 

Naquela noite, João não dormiu em casa. Logo ele, filho tão dedicado e responsável. Foram procurar o sr. Juca Lopes, tabelião, que era espírita. O médium disse que os espíritos lhe garantiam que o corpo de João estava sob a Pedra da Paixão.

 

Foram todos para lá. O povo e os mergulhadores. Estes, sem escafandro, só nos pulmões. Na base da Pedra da Paixão encontraram as duas garrafas de pinga e os dois frascos de arsênico.

 

Sim, todos concluíram. João fizera uma loucura.

 

Os mergulhadores vasculharam a parte submersa da pedra. Numa reentrância encontraram o corpo de João. Todo comido de siris e com as unhas levantadas para trás. Talvez passado o desejo de morrer, mas desnorteado e já sem forças devido à pinga e ao arsênico, João tentou se agarrar na pedra. Tentou desesperadamente escalar as íngremes escarpas. Mas em vão. Cansado, bêbado e sonolento, submergiu às profundezas das águas.

 

Seu corpo foi enterrado no cemitério da cidade. Quanto à Teresa, contam que vestiu luto fechado por algum tempo. Mas o tempo – em sua inexorável caminhada – passou. Teresa acabou se casando com um dono de barco e foi embora da cidade.

 

Tudo voltou à normalidade. E a Pedra da Paixão ainda lá se encontra, a se debruçar sobre o Mar Pequeno, guardando em suas entranhas a história shakesperiana de João e Teresa.

 

A enchente

O rio enche.

De suas margens, a água transborda num furor endoidecido, levando tudo o que se encontra pela frente. No céu, a chuva é uma só; há muitos dias que cai sem parar. Tantos meses de seca, tanta lavoura perdida, e agora, de repente, aparece esse mundo de água que não acaba mais. Vingança da natureza? Mas que mal o ribeirinho lhe fizera, se sempre soubera se utilizar de seus recursos com sabedoria e parcimônia?

As últimas notícias davam conta que Ribeira-acima as coisas estão bem piores. Xiririca está sob as águas e todas as orações se voltam para a protetora Nossa Senhora da Guia, que em seu altar lança o olhar benevolente sobre a cidade como se para impedir que as águas flagelem ainda mais seus fiéis.

 

Na canoa, o ribeirinho vaga pelos espaços de seu pequeno domínio, posse herdada dos antepassados, tentando resgatar as criações poupadas pelas águas. No fundo da canoa, a mulher tem os olhos vermelhos, mas não verte uma lágrima; sabe que o esposo e os quatro filhos precisam dela firme e forte. Ele recolhe algumas galinhas e vê os corpos boiando na correnteza de seus porcos e bois; tudo perdido. Da plantação, só avista as pontas que balançam sob o caminhar furioso das águas. Nada restou, além dele e a família e aquele pouco de criação.

 

Em seus quarenta e tantos anos morando naquelas terras jamais vira tanto água junta. Verdade que o Ribeira sempre foi um rio caprichoso, protagonista de enchentes espetaculares. O avô lhe contara que, pelos idos de 1807, a Vila de Xiririca fora completamente destruída pelas águas e teve que ser transferida para o local atual. Notava as lágrimas que escorriam dos olhos marejados do velho quando ele narrava essa história.

 

Logo se desvia desses pensamentos e continua a remar sob a chuva que insiste em cair. Talvez vá para o abrigo da cidade, onde outros já se encontram há dias, longe de suas terras, distantes de suas casas destruídas e de suas mobílias levadas pelas águas.

 

Enquanto rema, olha desgostoso para a mulher e os filhos, e nem sequer pensa em chorar. Seu choro, por certo, de nada adiantaria contra a fúria do rio.

(JORNAL REGIONAL, nº 814, de 20-2-2009).



Escrito por Roberto Fortes às 13h41
[] [envie esta mensagem] []



Ao correr da pena...

“Sortilégios e Tesouros”

Sábado, dia 7, fui a Miracatu prestigiar o lançamento do livro “Sortilégios e Tesouros”, de meu prezado amigo e grande poeta Júlio César da Costa. Muita gente, amigos, escritores, artistas abrilhantaram a concorrida noite de autógrafos. Cultura, poesia, boa música. Encantei-me especialmente com “Tucano de Ouro”, música que Antônio de Lara Mendes compôs tendo como tema a conhecida lenda da Juréia. Lara e Júlio interpretaram a música, que arrancou calorosos aplausos do público. Júlio declamou vários de seus poemas, provando que, além de poeta e declamador, também é um excelente ator. Fiquei feliz com a promessa da prefeita Déa de dar todo o apoio à futura Academia Valerribeirense de Letras. Com a colaboração de todos os que acreditam na cultura, essa idéia logo dará os seus frutos. Afinal, cultura não é coisa supérflua: é parte integrante do ser humano. Parabéns, amigo Júlio! E fico esperando pelo seu próximo livro.

 

Academia de Letras

No último sábado, recebi a visita dos poetas Jehoval Júnior e Osvaldo Matsuda. Conversamos sobre cultura e literatura do Vale do Ribeira. E enfatizamos o acalentado projeto da fundação da Academia Valerribeirense de Letras. A idéia parece que já nasceu vitoriosa, haja vista o número de escritores, poetas, músicos, jornalistas e divulgadores culturais que vem aderindo. Para setembro ou outubro está previsto um fórum cultural para discutir e formatar o projeto. Se tudo correr bem – e tudo está correndo de acordo – a previsão é que a Academia Valerribeirense de Letras seja oficialmente fundada no dia 31 de agosto de 2010. A data é bem representativa. Francisca Júlia nasceu nesse dia. Avante, literatos!

 

Fechando bares

Em Goiás, a Polícia fechou grande quantidade de bares que funcionavam sem alvará. Essa medida acertada, com certeza, concorrerá para a diminuição da violência naquela Capital. É notório que comerciantes inescrupulosos, na ânsia de ganhar uns trocados, não hesitam em vender álcool a menores de idade. E um jovem “turbinado” pelo excesso etílico (além de outros produtos pouco recomendáveis) é capaz de provocar brigas, arruaças, além de praticar roubos, furtos e até assassinatos. Essa medida salutar da Polícia bem que poderia ser copiada aqui no Vale do Ribeira. Basta andar pelas cidades da região e constatar que existe um bar em cada esquina. E a grande maioria desses estabelecimentos será que possui alvará de funcionamento? Cabe às Prefeituras, em parceria com a Polícia, fechar esses comércios ilegais que fomentam a degradação de nossa juventude.

 

No retratista

Adolpho Chator foi um retratista que viveu em Iguape em plena Belle Époque, ou seja, de fins do século XIX à primeira década do século seguinte. Era retratista. Nos dias atuais seria chamado, grosso modo, de fotógrafo. Depois da morte do naturalista Ricardo Krone, em 1917, Chator comprou a Pharmacia Popular, pertencente àquele, situada num belo sobrado, no Largo da Matriz. Mas voltemos ao lusco-fusco do século XIX, mais precisamente ao ano de 1898. Três matutos batem à porta da Photographia Chator. “Mecê é que pinta a gente?” – perguntou um deles. “Sou, sim, por quê?” – respondeu Chator. “Nós qué sê pintado tudo junto” – explicou o matuto. “Ah, já sei, querem em grupo?” – perguntou Chator. “É mêmo” – prosseguiu o matuto –, “assim em quadrúpede...”.

 

Trabalhos de agulha

“Quando publiquei a minha primeira poesia, uma balada à antiga, um dos nossos poetas, Severiano de Rezende, que, falemos a verdade, nunca fez bons versos, dedicou-me algumas linhas pela imprensa, em que me aconselhava que não escrevesse assim, se não me falha a memória: ´Minha senhora, há ocupações mais úteis, dedique-se aos trabalhos de agulha´. É inútil dizer que não aceitei o gentilíssimo conselho...” (Carta de Francisca Júlia a Valentim Magalhães, editor da revista “A Semana”, do Rio de Janeiro, em 9-4-1894).

 

Nícia em Paris

“Paris é bonito e sedutor. O movimento nas ruas é extraordinário. As casas artisticamente feitas são muito elegantes; as ruas muito direitas, largas e bem calçadas. As lojas e cafés são deslumbrantes, reinando em toda parte grande animação. Estamos no inverno. As árvores não têm uma única folha; amanhece às 8 horas e às 4 da tarde já é preciso luz! O sol aparece pálido e frio, e por vezes tenho visto cair neve. Tenho bastante saudade das minhas verdes árvores, do sol quente e claro do meu Brasil; enfim é preciso suportar tudo pela arte que tanto adoro!” (Carta de Nícia Silva, cantora lírica nascida no Vale, ao maestro iguapense Joaquim José Rebello, seu velho mestre, em 1904).

 

Frase

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” (Albert Camus, escritor argelino de expressão francesa, Nobel de Literatura em 1957)

(JORNAL REGIONAL, nº 813, de 13-2-2009).



Escrito por Roberto Fortes às 15h39
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]