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ALFARRÁBIOS _ Roberto Fortes


A ESTRÉIA DE FRANCISCA JÚLIA

Em 1895, apareceria primeiro livro de Francisca Júlia, “Mármores”, reunindo sonetos publicados na revista “A Semana” de 1893 até aquele ano, obra custeada pelo editor Horácio Belfort Sabino. Prefaciado por João Ribeiro, consagrado crítico da época, o livro causou sensação nas rodas culturais de São Paulo e Rio de Janeiro. Francisca Júlia, no verdor dos seus 24 anos, realizava o grande sonho de infância. Olavo Bilac, já então festejado poeta, numa crônica emocionada, destacou:

"Em Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa, não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada pela pena dessa meridional, que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura.”  

“A Semana” era uma das revistas mais conceituadas que então se editava no Rio. Dirigida por Valentim Magalhães, tinha como redatores ilustres escritores da época: João Ribeiro, Araripe Júnior e Lúcio de Mendonça. A estréia de Francisca Júlia na revista provocou grande alvoroço: os redatores não acreditavam que uma mulher pudesse escrever versos tão perfeitos. Não foi sem razão que João Ribeiro exclamou: “Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correa!...” 

Em carta dirigida a Max Fleuiss, em 9 de abril de 1894, Francisca Júlia faz um retrospecto de seu trabalho poético:

“Devo à ´Semana´ (e creio que especialmente a V.) algum nome que tenho. Até há pouco tempo eu não tinha provado, a não ser muito de leve, o sabor deliberado de um elogio. Às vezes, muito raramente, um cronista cá da terra (S. Paulo) se lembrava de arriscar, com timidez, algumas palavras de encômios. Quase sempre não passavam de ´poetisa esperançosa se bem que pouco inspirada, mas sem pretensões artísticas´... E eu devorava essas palavras, com avidez, saboreando-as longamente. Quando publiquei a minha primeira poesia, uma balada à antiga, um dos nossos poetas, Severiano de Rezende, que, falemos a verdade, nunca fez bons versos, dedicou-me algumas linhas pela imprensa, em que me aconselhava que não escrevesse assim, se não me falha a memória: ´Minha senhora, há ocupações mais úteis, dedique-se aos trabalhos de agulha´. É inútil dizer que não aceitei o gentilíssimo conselho... Depois tive ocasião de ler um artigo de Valentim Magalhães em que estavam, com profusão, nomes femininos. O meu passou em branco. Fiquei triste. Foi essa a razão porque, acostumada a não me julgar nada, mesmo entre os versejadores da última plana, sempre me conservei arredia de todos os certames. E, entretanto, nestes últimos tempos, o meu nome já é citado nas rodas literárias com certo respeito e deferência. A quem o devo? Quero crer que à ´Semana´ e particularmente a V."

Encantado com esse talento literário que emergia, João Ribeiro, prefaciador de “Mármores”, ombreou Francisca Júlia à “trindade parnasiana”:

“Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa.”

            João Ribeiro não poupa elogios, recordando a estréia da poetisa em “A Semana”:

 

“Foi, pois, principalmente nas páginas de ´A Semana´ que a reputação de Francisca Júlia da Silva se tornou durável, válida e indestrutível. E quando ela vinha todos os sábados com o fulgor e a pontualidade de um planeta, era logo cercada da admiração e do aplauso com que todos nós a recebíamos. A sua poesia enérgica, vibrante, trazia a veemência de sonoridades estranhas, nunca ouvidas, uma música nova que as cítaras banais do nosso Olimpo nos haviam desacostumado.”

Tanto confete lançado em torno de sua estréia literária parece não ter subido a cabeça da jovem e já consagrada poetisa. Ao contrário, cada vez mais incentivada por amigos de peso, dedica-se integralmente à atividade poética, traduzindo para o português versos do poeta alemão Heine. A leitura dos românticos alemães, principalmente Goethe e Heine, marcaram a juventude de Francisca Júlia. A profª Maria de Lourdes Eleutério sintetiza muito bem essa sua predileção:

“Francisca lia versos, muitos versos, gostava dos românticos, dando preferência a Goethe e Heine, os quais traduzia, possivelmente do francês, e os publicava. Ela não copiava os versos do irmão. Na verdade, mesmo tendo publicado alguns livros, ele não era um bom poeta. Mas era jornalista e ajudou Francisca a lançar seus próprios poemas pela imprensa. Depois escreveram juntos um volume para crianças. Traduzir como fazia Francisca era um expediente muito usado e consentido. Uma atividade que ficava na penumbra, que nunca se divulgava, podia-se fazer no mais recôndito do lar”. (“Vidas de Romance”, Maria de Lourdes Eleutério, Doutora em Sociologia pela USP)

Há aqui uma injustiça quanto ao irmão de Francisca Júlia, o também poeta Júlio César da Silva. Ao contrário do que escreveu a professora Eleutério, Júlio César foi um dos mais importantes poetas de sua geração, sendo ombreado a Vicente de Carvalho.

Apesar de parnasiana na forma, Francisca Júlia também teve passagem pelo simbolismo, introduzido no Brasil na última década do Século XIX, e que teve no catarinense Cruz e Souza o seu mais destacado representante.



Escrito por Roberto Fortes às 13h23
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