O Valo Grande... e a “Vala Grande” 
O Porto Grande (ou o mato sob o qual está escondido o Porto Grande). 1827 – A Câmara Municipal autorizou o início da construção de um canal que ligasse o Rio Ribeira ao Mar Pequeno. Tinha por finalidade facilitar o transporte das sacas de arroz, através de carroças, do Porto do Ribeira ao Porto Grande, de onde seriam escoadas para Santos, Rio de Janeiro e portos do sul do país. Mal planejada, transformou-se numa aberração da engenharia. De pequena vala de apenas dois metros de largura, transformou-se num canal de mais de duzentos metros, deixando temerosa a população por mais de um século. O assoreamento provocado pelos desbarrancamentos e pela areia trazida pelo Ribeira encarregaram-se de inutilizar o antigo Porto de Iguape. Foi um dos motivos do tão discutido e controvertido processo de decadência de Iguape. Valo Grande: um desastre da (falta de) engenharia. 2009 – A Prefeitura Municipal quebrou o asfalto da Av. Adhemar de Barros, na altura da Loja Lumar, e construiu uma valeta, acredita-se que para o escoamento de água fluvial, haja vista que esse trecho da avenida sempre fica alagado quando chove muito. Alvo do protesto de muitos – que tiveram seus automóveis avariados – a polêmica valeta passou a ser chamada de “Vala Grande” e entrou para o anedotário local. Aberração da engenharia, o cimentado da “Vala Grande” não suportou o intenso tráfego de veículos da avenida e começou a se esfarelar. Com as últimas chuvas, a galeria sob a calçada rompeu-se totalmente, prejudicando o tráfego e certamente preocupando os proprietários dos estabelecimentos próximos. “Vala Grande”: um desastre da (falta de) engenharia. Conclusão: De 1827 a 2009, parece que as coisas pouco mudaram em Iguape...
Escrito por Roberto Fortes às 13h18
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A HIPUPIARA DE CANANÉIA 
A hipupiara de São vicente, em 1564. O horroroso monstro marinho foi visto por vários moradores enquanto parecia vadiar ao calor do sol. Depois, diziam, a besta retirava-se para o poço de um rio que vertia das fraldas do monte Itapitangui e desaguava no mar. – É a besta fera que surgiu do mar, conforme está escrito no Apocalipse – explicava o pároco, no púlpito da Igreja de São João Batista, aos seus assustados paroquianos. – É a profecia que começa a se cumprir. Fiquemos, pois, de vigia, meus filhos, que o fim está próximo! Aquele ano de 1733 entraria para os anais de Cananéia como o ano em que apareceu na vila o monstro que os bugres do lugar chamavam de Hipupiara. “Coisa má que anda n´água”. O capitão da vila, homem de certa instrução, não deu crédito a essa história. – Não creio na veracidade desse relato. Para mim, isso está a me cheirar a lorota de bebedores de água ardente, esse líquido maldito que contamina as veias desta Capitania de São Paulo. – Muitos foram os que juram pela cruz terem visto essa besta abominável a se lagartear na praia ocidental da vila. – Histórias de bugres e de bêbados. O cura da vila discordava do capitão. – Gândavo registrou, em sua crônica da província de Santa Cruz, sobre o aparecimento de uma hipupiara na Vila de São Vicente, no ano de 1564. A julgar pelas suas descrições, não tenho dúvidas de que se trata da mesma qualidade de besta. E muito menos tenho dúvidas de que as profecias estão finalmente a se cumprir. O povo se dividiu em dois grupos. Os que ao menos sabiam rabiscar o nome, tomaram o partido do capitão. Os mais crentes e o populacho, deram razão ao pároco. – Das coisas de Deus e do Diabo, quem entende mesmo é um vigário de Cristo. Se a besta fera, a que vulgarmente chamam de Hipupiara, é coisa do demônio, então o padre tem toda a razão. Não há o que duvidar. A besta é obra do Maligno. Os comentários garantiam que Pedro Tavares, valente caçador, estava a reunir uns camaradas para darem cabo da fera. Assim determinado, o enfrentador de bestas retirou da canastra de jacarandá lavrado o bacamarte que fora de seu finado avô, ajuntou umas bolas de chumbo que ele mesmo derretera, pegou o chifre de boi que continha a pólvora. Os demais camaradas se armaram de paus e pedras. – Vejamos se essa besta façanhuda resiste a uma boa dose de chumbo grosso no meio das fuças – disse Pedro Tavares aos seus camaradas e ao povo que, entre curioso e apreensivo, acompanhava os preparativos da expedição. Matar uma besta fera nunca foi tarefa das mais fáceis. Ainda mais uma besta como aquela. Diziam que se assemelhava a um homem. Até “aquilo” era parecido com o similar humano. Relata a crônica que o monstro tinha a cabeça e o corpo de um touro. Media treze pés de comprimento e nove de grossura. O pescoço levantado media três palmos de comprido e cinco de grossura. Glândulas encarnadas destacavam-se na horrível caraça, que tinha viseira e crinas inclinadas sobre a moleira. As orelhas, também escarlates, de um palmo de altura, eram semelhantes às do homem. No lugar dos cornos tinha uns calos duros, altos e negros. Os olhos, redondos e com as meninas pretas; a circunferência encarnada. As ventas abertas eram do tamanho de um punho. A bocarra, rasgada. Os beiços, grossos e rubicundos. As queixadas, com poucas barbas, grossas e duras. Os dentes, largos, unidos e cortantes, seguidos de uma língua redonda. Os braços e pernas, três palmos de compridos e pouco menos de largura. Seus cinco dedos eram de meio palmo de compridos; as unhas, negras, grossas e quadradas. A calda, de três palmos de comprido, acabava em duas pontas abertas, que eram peladas, lisas e encarnadas. O corpo, todo frisado de pelo curto, macio e acastanhado... E por aí prosseguia a crônica, pródiga em detalhes. O que despertou mesmo a curiosidade do povo foi a descrição das partes íntimas da besta, cuja semelhança com a genitália humana faria corar até a mais escandalosa das rameiras da vila. Pudico, o cronista não se atreveu a descrever “aquilo” na língua de Camões. Buscou socorro e providencial recato na língua de Cícero: “(...) cum sit immodicec longum: altamen genitale hominie simile (...)”
Após árdua e perigosa caçada, com o risco da própria vida, Pedro Tavares e seus camaradas conseguiram dar cabo da fera. Ali mesmo, na praia ocidental da vila, procederam à dissecação da besta, inclusive registrando as suas medidas o mais fiel possível, a despeito de só assinarem os nomes fazendo uma cruz no papel. O grito da fera, que se fez ouvir por toda a vizinhança, era similar ao berro do boi. Contam que do gordo de suas carnes se derreteu “abundante e claríssimo azeite”. – A história da caçada da besta se perpetuará por gerações – dizia o povo –, e os vindouros haverão de se recordar do valor de nossos pais e avós. A bravura de Pedro Tavares e seus camaradas ficará registrada ad aeternam nos anais da Vila de São João Batista de Cananéia!... Muitos anos depois, em sua “Descrição primeira em que se tratam os casos memoráveis acontecidos nesta Vila de Cananéia, desde sua criação até 31 de dezembro de 1787”, o vereador Luiz Antônio de Freitas, exímio latinista, não pretendendo deslustrar a história de seus ancestrais, mas antes, “para acreditar”, anotou em sua memória estes versos: “Sic Protector parcit in lictoris Phocas et possuit fluctibus in pisces”. (*) __________ (*) “Assim o Protetor espalhou no litoral as focas e colocou nos rios os peixes”.
(Esta é uma obra de ficção, baseada nas “Memórias Memoráveis de Cananéia”, resgatadas por Antônio Paulino de Almeida).
Escrito por Roberto Fortes às 20h25
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O AMOR VALE OURO 
Iporanga: Foto: Instituto Geológico. Morro das Avencas, Freguesia de Sant´Anna de Iporanga, distrito de Santo Antônio das Minas de Apiaí. O sol estava abrasador naquele dia. Negro Tião suava por todos os poros. O corpanzil cheio de músculos, protegido apenas por um calção de algodão cru, parecia refletir a luz do sol e conferia-lhe um aspecto diáfano. Havia semanas que garimpava no morro, perdido naquela solidão que, conquanto lhe angustiasse o espírito, dava-lhe as forças necessárias para prosseguir na cata do ouro. Vez ou outra, negro Tião dirigia o olhar vidrado na direção de um ponto incerto no meio da mata fechada. Ele não olhava para algo. Pensava, sim, na negra Marcolina. Crioula vistosa, as carnes generosas, o sorriso no qual os dentes muitos brancos, muitos aparelhados, semelhavam a pérolas engastadas, os olhos negros e brilhantes que nem duas jabuticabas colhidas de há pouco. Negro Tião conhecera Marcolina logo que chegara à fazenda de sinhô. Viagem longa, sofrida, diretamente do mercado do Valongo, no Rio de Janeiro, para a Freguesia de Sant´Anna de Iporanga. Quando Tibúrcio, o capataz, atirou negro Tião dentro da senzala escura e infecta feito um cão sarnento, assim que os seus olhos se acostumaram com o negrume do lugar, negro Tião percebeu o vulto daquela negra bonita, sestrosa, o sorriso que parecia uma tocha acesa. Era Marcolina. Amor à primeira vista. E amor logo correspondido. Começaram a se encontrar às escondidas. O capataz, homem bruto, estava de olho na negra. Os outros negros também não disfarçavam o interesse por Marcolina. Negra bonita, disputada. Apesar de todas as precauções, o namoro chegou aos ouvidos de sinhô. O capataz trouxe negro Tião à presença do fazendeiro. Sentado em sua cadeira de madeira de lei trazida do Reino, sinhô parecia um rei, ali, sentado, na sala principal da casa-grande. Desde que mandara buscar mais escravos no Rio de Janeiro, sinhô notara a robustez de negro Tião. Negro forte, parrudo, as patacas das pernas grossas. Negro trabalhador, próprio para as catas do ouro. – Sinhô qué falá com ocê, negro infistulado! Vamos sem mais demora, se não quiser ter o lombo lavrado de chibatadas. Vamos! A distância entre a senzala e a casa-grande era de uns duzentos metros. Negro Tião seguia curioso. Não se lembrava de ter relaxado na lida. Nunca ficara no tronco, apesar de notar a antipatia do capataz por sua pessoa. – É porque o meu nego é trabaiadô – dizia-lhe Marcolina. – Esse desgranhado do Tibúrcio fica me acercando, quer ficar de safadeza comigo. Ele sabe de nóis, daí fica com inveja de meu nego... Devia ser isso. Tibúrcio chegou aos ouvidos de sinhô com a história dos dois. Agora, sinhô devia estar fulo da vida. Queria negro para suar na lida e não para vadiar com negra que também devia estar na lida. Sinhô tinha o coração duro que nem pedra, ele sabia. Mas todo cristão também tem que ter um pouco de misericórdia. Negro Tião pediria autorização para se casar com Marcolina. Sinhô e sinhá seriam os padrinhos. Sinhá era boa, faria a cabeça de sinhô. – Então, negro safado, ao invés de lidar na roça, fica de vadiação com a Marcolina... – a voz de sinhô era seca, metia medo. – Negro Tião está querendo é levar umas boas chibatadas no meio do lombo... Tibúrcio, prepare o tronco! – Sinhô deixa eu casá com Marcolina... Tião vai trabaiá dobrado... Sinhô mais sinhá fica sendo padrinho de nóis... Sinhô deu um sorriso maligno, os olhos irradiavam um brilho estranho. – Eu te dou a Marcolina, negro folgado... E até eu mais sinhá poderemos ser padrinhos... Negro Tião engoliu em seco. A gente se engana com as pessoas. Sinhô era homem bom. Marcolina seria sua. Os dois seriam felizes, teriam muitos crioulinhos, todos abençoados pela Virgem do Rosário. – Quero o peso da negra em ouro! – exigiu sinhô. *** Morro das Avencas. Morro do ouro. E ouro encoberto, do qual só negro Tião sabia o paradeiro. Dias, semanas, meses se passaram. Negro Tião catava o seu ouro, ia enchendo os alforjes. Quando ajuntou o combinado, amarrou o seu tesouro no lombo da mula magra e cansada. Em um dia de viagem chegaria à casa-grande. Sinhô, homem sisudo, até esboçaria um sorriso na cara enferruscada. – Vamos, homem! – sinhô certamente lhe diria – Dá-me cá o meu ouro e abrace a sua futura esposa!... Negro Tião seguia feliz pela trilha em direção à fazenda. Podia imaginar a felicidade de Marcolina. A sua negra, bonita, sestrosa. Sinhô até deixaria eles morarem fora da senzala, numa casinha de taipa de pilão coberta por palha de jiçara, que negro Tião levantaria às margens do rio Iporanga. Sim, sinhô tinha confiança nele. Sabia que ele encontraria ouro. Pois sinhô seria louco de mandá-lo catar ouro, sozinho, no meio do sertão, se não lhe tivesse confiança? Negro fugido, não. Negro da confiança de sinhô. Ao se aproximar da fazenda, negro Tião fez estancar a sua mula. Olhou ao longe. Perto da senzala, discerniu o vulto de Marcolina, que acenava para ele toda feliz da vida. Até o sorriso da negra ele conseguiu distinguir, apesar da distância. Mas ele não foi em frente. Puxou as rédeas e fez a mula mudar de direção. Negro Tião mudara também de idéia. Seguiria para Iguape. Lá, pegaria um barco para o Rio de Janeiro. Na Corte, instalado num palacete assobradado e cercado por sua escravaria, negro Tião viveria como um sinhô. E teria para si muitas Marcolinas.
Escrito por Roberto Fortes às 20h06
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